12 de agosto de 2014

Resenha: Não Me Abandone Jamais

Título Original: Never Let Me Go
Autor: Kazuo Ishiguro
Páginas: 344
Tradução: BethVieira
Editora: Companhia das Letras

Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.

Pensei muitas vezes em como começar essa resenha e não consegui. Desculpem-me por introduzi-la assim, mas não encontrei outra forma de expressar o quanto esse livro foi difícil. Não digo isso porque foi uma leitura ruim, e sim porque foi pesada.  Já fazia um bom tempo que eu tinha uma vontade imensa de lê-lo, e não me arrependi.

Logo no início do livro, conhecemos Kathy H, 31 anos, "cuidadora" há quase doze. É um tempo relativamente longo, mas é uma tarefa que ela mesma e muitos outros acreditam que ela desempenha muito bem. Prestes a ser tornar uma "doadora", Kathy nos conta de uma forma atemporal e bastante nostálgica sobre sua infância e adolescência em Hailsham, uma espécie de internato que se localiza no interior da Inglaterra. 

Ao longo da narrativa, Kathy nos apresenta seus amigos Tommy e Ruth. Para falar a verdade, não sabemos muitas coisas sobre Hailsham, sobre os guardiões (que são como os nossos professores) e sobre as crianças que lá residem. Porém, desde o início a protagonista deixa claro que os alunos de Hailsham eram diferentes, especiais, se só vamos saber o porquê dessa denominação um pouco mais para frente. 

É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas e perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora.

É complicado falar desse livro porque qualquer informação que eu possa dar sobre ele pode, de certo modo, prejudicar a leitura. Inclusive, a própria descrição da obra no Skoob e site da Companhia das Letras revela demais sobre ele. É uma estória para ser degustada, para descobrir aos poucos todos os mistérios que rondam as crianças de Hailsham. 

O livro me trouxe muitos questionamentos, coisas que antes nunca haviam passado pela minha cabeça. O que nos torna essencialmente humanos? O que é o amor de verdade? Há forma de recuperar o tempo perdido? E se houvesse, será que eu o faria? O tempo que nós temos é suficiente para fazer todas as coisas que desejamos e, principalmente, para amar as pessoas? Aliás, o que é mesmo o tempo?

Há também um filme homônimo, que foi dirigido por Mark Romanek e tem um elenco muito bom. Apesar de eu ainda não ter assistido, só pelo trailer dá para perceber que muitos fatos que descobrimos só após algum tempo no livro, são deixados claros desde o início na adaptação. Por isso, aconselho que, se você tiver o interesse de ler a obra, não assista ao trailer. Aliás, não procure saber muitas coisas a mais porque sim, pode tirar o brilho da estória. 

"Não Me Abandone Jamais" é um livro naturalmente triste. Acho que já comentei sobre isso aqui algumas vezes, mas apesar de não ter muitos planos para o futuro, tenho muito medo de ficar sozinha, no fim. Apesar de o livro não retratar exatamente isso, terminei-o com esse sentimento de solidão. Foi bem angustiante ir descobrindo as coisas por trás da vida dos protagonistas. Assustador, até. Mas esse fato não é para intimidar vocês, e sim para deixá-los mais ávidos. 

É uma livro denso e sofrido, mas ao mesmo tempo real. Não no sentido de ser uma estória real verdadeira, mas sim no sentido de proximidade. Em todo tempo durante a leitura, me senti uma amiga muito próxima da Kathy, uma pessoa em quem ela confiava para contar os segredos sombrios. E é claro que, como boa amiga que sou, não os contarei, mas vocês sabem a melhor maneira de descobri-los.

Classificação final: 

6 comentários:

  1. Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas a premissa inusitada e sua resenha positiva me conquistaram e despertaram minha curiosidade. Quero ler.
    Adoro livros reais.

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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    1. Oi Inês!

      Espero que você goste!

      Beijos.

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  2. Bem legal livros que fazem a gente se sentir próximo do personagem, né?
    Boa resenha!
    Bjs, Lu - http://resenhasdalu.blogspot.com.br/

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    1. Oi Lu!

      Muito bom mesmo, adoro livros assim.
      Obrigada!

      Beijoca.

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  3. Oi Ana Clara
    Gosto muito de livros assim. Coloquei na minha lista
    Criei este novo blog literário.
    Bjks mil e um ótimo domingo
    http://livrosdaclauo.blogspot.com.br/

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    1. Oi!

      Também gosto bastante! Que bom irá ler!

      Beijo!

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