12 de fevereiro de 2015

Resenha: Laranja Mecânica

Título Original: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Páginas: 352
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph

Publicado pela primeira vez em 1962, e imortalizado 9 anos depois pelo filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica não só está entre os clássicos eternos da ficção como representa um marco na cultura pop do século 20. Meio século depois, a perturbadora história de Alex – membro de uma gangue de adolescentes que é capturado pelo Estado e submetido a uma terapia de condicionamento social – continua fascinando, e desconcertando, leitores mundo afora.

Creio que fiquei, no mínimo, 15 minutos olhando para a página de postagem do Blogger sem saber o que escrever. E mais uns 15 minutos para sair desse parágrafo. A questão é que, se eu achava difícil falar de uma coisa que eu não gosto muito, cheguei a conclusão que é MUITO mais difícil falar das nossas coisas preferidas. "Laranja Mecânica" é um livro tão incrível que o que eu tenho é medo de escrever sobre ele, de escrever besteiras demais. 

"Laranja Mecânica" é narrado em primeira pessoa por Alex, um adolescente de 15 anos que faz parte de um grupo de delinquentes que destinam a maior parte do seu tempo para praticar a boa e velha ultra-violência, que seria cometer crimes que vão de roubos a estupros. O curioso é que eles fazem isso por pura diversão. Em uma dessas noites, o grupo resolve assaltar a casa de uma mulher, mas ela liga para a polícia e, por uma baita traição de seus druguis ("amigo", na gíria criada por Anthony Burgess), acaba sendo capturado a tempo. 

Acontece que, em seus primeiros anos na prisão, Alex demonstra uma personalidade muito agressiva, o que faz os seus superiores resolvem expô-lo a um tratamento de choque, ainda em fase de testes, chamado Técnica Ludovico. A técnica, criada pelo autor numa crítica ao behaviorismo, visava liquidar o impulso criminoso num período de duas semanas, onde o indivíduo era submetido a sessões de filmes com alto teor de violência, assim como doses injetadas de uma certa substância que fazia com que a pessoa sentisse terríveis enjoos e sensações de mal estar. Assim, ao final do tratamento, toda e qualquer forma de agressão que o paciente presenciasse ou até mesmo pensasse em fazer o levava a sentir tais coisas. 

Para mim, não foi prazer nenhum narrar atos de violência ao escrever o romance. Mergulhei em excessos, em caricaturas, até em um dialeto inventado, com o propósito de fazer a violência ser mais simbólica do que realista. [...] Leitores do meu livro talvez se lembrem de que o autor cuja esposa foi estuprada é o autor de uma obra chamada Laranja Mecânica. — Anthony Burgess em "Geleia Mecânica", originalmente publicado em 1972 na revista The Listener

A coisa mais peculiar em toda a história, para mim, é a linguagem criada pelo autor: o nadsat, que é algo como a mistura do inglês tradicional com o russo. Burgess deixa sua intenção explícita: "Foi criado para transformar Laranja Mecânica, entre outras coisas, em uma cartilha sobre lavagem cerebral. Ao ler o livro ou assistir ao filme, você se verá, no final, de posse de um mínimo vocabulário russo — sem nenhum esforço, para sua surpresa. É assim que funciona a lavagem cerebral."

Burgess também faz uma crítica escrachada ao sistema carcerário, além de dar ênfase ao livre-arbítrio. O autor prega que não é uma coisa normal para o indivíduo ser obrigado a não fazer as suas próprias escolhas, o que acaba interferindo no crescimento pessoal de cada indivíduo, já que é natural aprendermos com os nossos próprios erros. 

Há duas edições mais recentes do livro, ambas lançadas pela Editora Aleph. A mais simples, editada em 2004 e reimpressa até hoje, possui um prefácio e uma nota sobre a tradução (feita com maestria, levando em conta os termos em nadsat), e um glossário destes termos em nadsat, cuja consulta não recomendo durante a leitura do livro, pois tira a emoção. Uma edição muito bonita, a começar pela capa, com papel pólen soft, que faz a leitura mais agradável. A edição especial de 50 anos tem o mesmo material extra da edição anterior e mais: introdução à edição de aniversário, ilustrações de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo, fac-símile com trechos em inglês dos originais do autor, notas culturais do editor, dois textos e uma nota de Anthony Burgess inéditos em português, além de uma entrevista inédita. A edição líndissima é em capa dura com sobrecapa e impressa em papel couché fosco.

"Laranja Mecânica" é um clássico moderno, que ressoa apenas com "1984" de George Orwell e "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. Adaptado para o cinema pelas mãos de ninguém menos que o deus Stanley Kubrick, Laranja Mecânica é um clássico do século XX para a eternidade. Ser considerado pela revista Time um dos 100 melhores romances em inglês desde 1923 só deixa claro que a laranja é ácida do início ao fim.

Classificação final: 


5 comentários:

  1. Oi Ana, eu adoro já tão antigos mas que mostram que vieram para ficar. São clássicos tão incríveis que continuam conquistando leitores sempre. Sou louca por esse em especial, mas não tenho comprado livros, então acho que será difícil eu ler em breve.

    Beijos

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    1. Oi Ju!

      E não é?
      Ah, mas ele não é tão caro... Principalmente a edição normal. Acho que vale a pena comprar. :3

      Beijo!

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  2. Li apenas o primeiro parágrafo da sua resenha e resolvi parar. Ganhei esse livro do meu namorado essa semana e acredito que ele será a minha próxima leitura. :)
    Pelas suas primeiras palavras parece ser um excelente livro, não é?!

    Beijocas,
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    Respostas
    1. Oi Janaína!

      Ah, que ótimo que ficou com vontade de ler o livro! E sim, é muito bom. Digo e repito sempre que possível que é um dos melhores livros da vida.

      Beijo!

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  3. Esse é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Tenho as duas edições, e a comemorativa eu não empresto pra ninguém! Adorei a resenha, e gostei de você ter lembrado da questão do livre-arbítrio, que pra mim é um dos pontos centrais dessa obra.
    Beijos!
    www.blogsemserifa.com

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