24 de agosto de 2015

Resenha: Objetos Cortantes

Título Original: Sharp Objects
Autor: Gillian Flynn
Páginas: 256
Tradução: Alexandre Martins
Editora: Intrínseca

Recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar a tendência à automutilação que deixou seu corpo todo marcado, a repórter de um jornal sem prestígio em Chicago, Camille Preaker, tem um novo desafio pela frente. Frank Curry, o editor-chefe da publicação, pede que ela retorne à cidade onde nasceu para cobrir o caso de uma menina assassinada e outra misteriosamente desaparecida.
Desde que deixou a pequena Wind Gap, no Missouri, oito anos antes, Camille quase não falou com a mãe neurótica, o padrasto e a meia-irmã, praticamente uma desconhecida. Mas, sem recursos para se hospedar na cidade, é obrigada a ficar na casa da família e lidar com todas as reminiscências de seu passado. Entrevistando velhos conhecidos e recém-chegados a fim de aprofundar as investigações e elaborar sua matéria, a jornalista relembra a infância e a adolescência conturbadas e aos poucos desvenda os segredos de sua família, quase tão macabros quanto as cicatrizes sob suas roupas.

Gillian Flynn estourou no Brasil depois do lançamento do livro Garota Exemplar e foi praticamente unânime o reconhecimento do talento da autora, se consideradas todas as resenhas a respeito da obra. Eu não tive a oportunidade de conferir em primeira mão, mas assisti ao filme e fiquei embasbacada com a construção daquele enredo, tanto que permaneci dias chocada com a história de Amy. Desta vez, com Objetos Cortantes, pude compreender um pouco do que está por trás do renome de Gillian Flynn.

Camille Preaker é quem narra os acontecimentos e, em um primeiro momento, a impressão é de que adentramos na vida da personagem em um instante qualquer, que invadimos sua mente sem que ela percebesse e, em razão disso, ela não se preocupa em explicar nada além daquilo que pensa naturalmente. Ela não explica quem é, o que faz, ela somente narra os acontecimentos e deixa o leitor descobrir sua história com o tempo. Essa forma de narrar pode ser frustrante para aqueles que quiserem logo mais informações, mas pode ser perfeita, pois por toda a trama são apresentadas novidades, pequenos detalhes que permitem montar um perfil da protagonista e de todos os outros que interagem com ela.

É fácil perceber que Flynn não se prende a padrões para desenhar seus personagens e acredito que seja por isso que seus textos têm se destacado tanto. Não há vilões ou mocinhos em Objetos Cortantes, há pessoas que agem da forma que agem de acordo com seus motivos, sejam eles condenáveis ou não. 

— Bem, tenho feito algumas matérias importantes. Cobri três assassinatos desde o começo do ano.
— E isso é uma coisa boa, Camille? —  reagiu minha mãe, parando de mordiscar. —  Nunca entenderei de onde vem seu gosto pela feiura. Parece que você tem o suficiente disso na vida sem precisar procurar por vontade própria.

Camille mesmo é o oposto da mulher politicamente correta. Em alguns momentos, cheguei a questionar se ela teria algum filtro, algum discurso moralista, algum padrão do que é certo socialmente, e não, ela não tem. O que significa que, hipócrita, ela não é. Ela é uma pessoa que fez muita coisa moralmente condenável perante a sociedade e que, no entanto, está bem resolvida quanto às suas escolhas, tenham sido elas sensatas ou estúpidas. Mesmo que se pudesse usar o discurso de que a culpa não era sua no caso de Camille, por ela ser da forma que era, ela acreditava que era sim, e assumia a responsabilidade por seus atos.

Além de Camille, são muitos os personagens de destaque, principalmente os femininos. Adora e Amma, mãe e irmã de Camille, respectivamente, eram o retrato de pessoas problemáticas que vivem em famílias inconstantes moldadas pela sociedade. Adora, a mãe, que se portava perfeitamente perante os outros, nada tinha a dar às filhas dentro de casa; Amma, de apenas 13 anos, que na frente da mãe era a garotinha frágil, tornava-se a mulher fatal ao sair da porta para fora. Enquanto isso, “má” gritava na pele. 

Os conflitos internos da protagonista ocuparam em grande parte a obra, mas os assassinatos aos quais ela foi cobrir, como jornalista, em sua cidade natal, também tiveram o espaço apropriado. Desde o início, elaborei uma teoria e apontei um suspeito, que mais tarde viria a ser descoberto também pela polícia. Porém, é claro que não seria tão simples e um elemento surpresa ainda foi apresentado para rematar o final.

Se Garota Exemplar é o melhor livro de Gillian Flynn, não sei dizer. Mas Objetos Cortantes remexe a natureza humana como poucos têm coragem de fazer, é perturbador, mas por isso mesmo incrível.

Classificação final: 

4 comentários:

  1. Oi, Ju! Tudo bem? Nossa, que resenha mais perfeita! Eu sou MUITO fã da Gillian Flynn. Já li todos os livros dela e adoro esse jeito único que Flynn tem em criar seus personagens. São sempre personagens que fogem do padrão e isso é muito bom de ver. Sem falar, que as tramas dela são sempre recheadas de reviravoltas, o que eu adoro! hahaha Amo "Objetos Cortantes" e mais ainda "Garota Exemplar", mas acho que o meu livro preferido da autora é "Lugares Escuros"! Parabéns pela resenha! :)

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/08/resenha-premiada-johnny-bleas-um-novo.html <- Tá rolando promoção do livro "Johnny Bleas - Um Novo Mundo" lá no blog! ;)

    ResponderExcluir
  2. Oi Ju,
    Tenho que começar a ler os livros dessa autora.
    Gosto do gênero e adorei o filme de Garota Exemplar.
    Esse parece ser bem misterioso em torno da protagonista, creio que gostaria.
    O problema seria a ânsia para querer saber tudo de uma vez hahaha

    Ótima resenha!

    bjs e tenha uma ótima terça.
    Nana - Obsession Valley

    ResponderExcluir
  3. Que blog lindo e ótima resenha.
    Ainda não li nenhum livro dessa autora, mas já li muita crítica positiva sobre suas obras. Tenho que colocar na minha lista!
    bjs
    http://poyozodance.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  4. Ainda não li Gillian Flynn. =/
    Quero muito ler, tanto Garota Exemplar, quando Objetos Cortantes.
    Fiquei mais curiosa ainda para ler e conhecer melhor a Camille Preaker, que parece ter uma personalidade muito forte.
    Adorei a sua resenha!
    Beijos!!!

    ResponderExcluir

 
Layout feito por Vinícios Costa | Todos os direitos reservados ©