27 de janeiro de 2017

Nunca Se Sabe


Logan morava em um apartamento pequeno em New York – sala, cozinha, dois quartos e um banheiro não muito grande. Passava a maior parte do tempo entre àquelas quatro paredes construindo um mundo só seu, um mundo que nenhum outro jovem da sua idade gostaria de viver. 

Um dos quartos – o menos frequentado – possuía uma cama centralizada, de frente para a janela, uma escrivaninha e o guarda-roupa que conseguira num leilão de móveis antigos. O outro possuía seus “instrumentos de trabalho”: pincéis, cavaletes, paletas com cores vivas, tintas espalhadas pelo chão e, mais do que quadros pintados, quadros em branco. CDs de bandas de rock dos anos oitenta e um som velho que às vezes precisava de uns bons tapas na tampa para funcionar. 

Era todo velho àquele lugar. Apesar da pouca idade física, Logan tinha o espírito cansado. Não vivia, existia. Mas nada existia sem algum propósito, mesmo que fosse difícil acreditar que um homem aparentemente anti-social sem amigos servia para alguma coisa. 

Acordou na manhã de domingo com o cheiro de pães frescos vindos da padaria no andar de baixo. O sol batia fraco em seu rosto e nem aquilo o fez ter vontade de se levantar para fazer qualquer coisa que fosse. Então se lembrou da pintura que tinha que terminar antes de quarta-feira – o que parecia uma tarefa praticamente impossível, e aquela era sua única chance de mostrar que não era só o menino esquisito que ouvia “músicas de gente velha” e que gostava de exatas e comia donuts açucarados no intervalo do Colégio. E ele era isso tudo e mais um pouco. Ele era o menino com o melhor gosto musical, o mais inteligente e o que não esperava nada que a vida não pudesse lhe oferecer, nem amor, nem paz, nem confiança. Eram doses que Logan não conseguia beber. E ele tinha razão. O mundo sempre soube ser cruel. 

Preparou o seu chá de todos os dias, aquele bem amargo por que “não criava doces ilusões” e foi pintar mais um episódio da sua vida naqueles quadros perfeitos. O único problema é que ninguém enxergava a dor por trás da névoa que compunham a paisagem do seu céu que entrava no mar de esperança que não tinha. E foi só isso o que fez por dois dias inteiros: pintava por si e pelo gosto da admiração. 

Na quarta-feira, quase atrasado, chegou com a pintura totalmente molhada na sua primeira de muitas exposições – um fato que ele ainda demoraria a descobrir. Deu o seu melhor sorriso para o atendente e saiu do estabelecimento quando uma moça loira com olhos tão amargos quanto o seu chá entrava. 

Logan não olhou para Kim, não se virou para acompanhar seus passos, não reparou no vestido verde água que usava e muito menos nos seus cabelos presos em um coque. Só voltou para sua decadência no apartamento sujo com cheiro de removedor de tinta a óleo. 

Kim não percebeu a presença Logan, o rangido de suas botas surradas, a cicatriz que ele tinha bem no queixo, muito menos no seu ar de solidão. Afinal, por que ela iria reparar naquele estranho que não faria a menor diferença em sua vida? Só continuou andando, à procura de algo que agradasse seu gosto refinado pela arte. 

Por coincidência, ou para quem acredita, destino, Kim se deixou levar por uma pintura recém colocada. O céu vermelho contrastando perfeitamente com um mar muito azul. Olhou para porta. Kim não tinha a menor ideia que Logan, o homem que ela resolveu não reparar, tinha pintado aquele quadro. Logan nem ao menos sonhava que a mulher de estatura baixa e vestido verde água compraria sua arte. 

E foi assim mesmo que começou o amor. Por que amor de verdade não é só o contato, não é só o que os olhos podem ver. Tem toda aquela coisa de colocar o coração na mão e sangrar. Aquela coisa de olhar uma pintura e sentir a garganta apertada e não poder chorar. De querer colocar o quadro na sala só pra mergulhar naquele choro e cair num precipício. É amar.

14 comentários:

  1. Sou suspeito pra falar, mas amo seus textos. Não só por serem seus, mas porque são realmente bons e tocam. Dizem muitas vezes coisas que você gostaria de dizer e não diz, e dizem de forma sutil. Na verdade vêm como uma porrada, uma porrada de sutilezas. Seus textos são espetaculares, assim como você. Não pare de escrever nunca. E não escreva apenas em seus momentos de tristezas, divida conosco todos os seus momentos. Eu te amo muito, muito mesmo. E é com você que tenho aprendido que amor não é só contato. Saudades de você, minha linda. <3

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  2. Ana!
    É verdade! O amor se manisfesta de várias formas e um simples quadro, pode florescer sentimentos internos tão arraigados que se tornam uma forma de amor.
    Muito bem escrito, sua crônica é digna de elogios.
    Consegue transformar em palavras situações inusitadas e ainda assim carregadas de sentimentos.
    “O que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos: eis o verdadeiro saber.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  3. Que texto bonito, tem sentimento, mexe com o leitor e o deixa refletindo sobre o amor e suas formas. Tem quadros que nos fazem ficar olhando para eles e imaginar o que o pintor queria nos passar através de sua arte.

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  4. Que texto maravilhoso! Muito bem detalhado e muito bem escrito.

    Amei seu blog, você escreve muito bem. Já estou seguindo.
    Beijos,
    Ler Antes De Dormir

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  5. Lindo texto achei super encantador e realmente me surpreendeu com as palavras ótimas referências de reflexão e me fez sentir bem melhor.

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  6. Daria um ótimo livro ♥
    Cativante e singelo esse texto, cheio de emoções e detalhes minuciosos. Imaginei cada cena em cada parágrafo. Simplesmente incrível! O amor realmente não é de contato, mas de várias outras coisas da vida ^^

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  7. Ai que amor essa história. Quem a gente menos esperava as vezes é quem a gente vai se apaixonar e criar uma vida ao lado. A amor tem dessas coisas... é lindo!
    Adorei o texto!

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  8. Oi, Ana!!
    Adorei o texto!! Foi muito bem escrito e é de uma profundidade incrível!! É verdade existe várias formas de amar!!
    Beijoss

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  9. Acho maravilhoso e totalmente acima da minha capacidade me comunicar desse jeito. É maravilhoso a sensibilidade do artista e de quem sabe notar essa sensibilidade

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  10. Gente, que apaixonante. Quando a gente pensa que não vai arrumar ninguém e se isola na vida é quando a vida vem e diz que não vai ser assim, que você merece ser feliz. Texto maravilhoso!

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  11. Adorei o texto! Realmente quando passamos muito tempo entre quatro paredes não pensamos que um dia vamos encontrar o propósito de existirmos.
    Vou ser bem sincera, fiquei triste quando acabou o texto...

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  12. Oi!
    Que lindo esse texto, adorei, achei muito legal como o texto acaba falando sobre o amor de uma forma tão diferente, geralmente vemos aquele arrebatador a primeira visto, ou aquela troca de olhares, mas achei lindo como texto um amor mais profundo, de almas, através dessa pintura !!

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  13. Ei Ana :D
    Esse é o primeiro texto que leio seu, e wow, como você escreve bem.
    Gostei do modo que usou as palavras, e como descreveu o amor de uma forma diferente.
    Parabéns, nunca pare de escrever <3
    Beijos!
    Lost Words

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  14. Oi Ana! Amei o texto!
    Desde que comecei a seguir seu blog ainda não havia tido a oportunidade de ler um texto seu. Você é uma ótima escrita. Sem dúvida a premissa de "Nunca se Sabe" daria um excelente livro! Parabéns! É um texto instigante, poético e ao mesmo tempo sutil. Gostei também da forma como você definiu o amor, ele não é só contato e não só o que pode ser visto, mas também pode durar uma fração de segundos e nos marcar eternamente. Continue a escrever cada vez mais! Beijinhos!

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