20 de fevereiro de 2014

Resenha: Precisamos Falar Sobre o Kevin

Título Original: We Need to Talk About Kevin
Autora: Lionel Shriver
Páginas: 464
Tradutora: Vera Ribeiro
Editora: Intrínseca

Lionel Shriver realiza uma espécie de genealogia do assassino ao criar na ficção uma chacina similar a tantas provocadas por jovens em escolas americanas. Aos 15 anos, o personagem Kevin mata 11 pessoas, entre colegas no colégio e familiares. Enquanto ele cumpre pena, a mãe Eva amarga a monstruosidade do filho. Entre culpa e solidão, ela apenas sobrevive. A vida normal se esvai no escândalo, no pagamento dos advogados, nos olhares sociais tortos. Transposto o primeiro estágio da perplexidade, um ano e oito meses depois, ela dá início a uma correspondência com o marido, único interlocutor capaz de entender a tragédia, apesar de ausente. Cada carta é uma ode e uma desconstrução do amor. Não sobra uma só emoção inaudita no relato da mulher de ascendência armênia, até então uma bem-sucedida autora de guias de viagem. Cada interstício do histórico familiar é flagrado: o casal se apaixona; ele quer filhos, ela não. Kevin é um menino entediado e cruel empenhado em aterrorizar babás e vizinhos. Eva tenta cumprir mecanicamente os ritos maternos, até que nasce uma filha realmente querida. A essa altura, as relações familiares já estão viciadas. Contudo, é à mãe que resta a tarefa de visitar o "sociopata inatingível" que ela gerou, numa casa de correção para menores. Orgulhoso da fama de bandido notório, ele não a recebe bem de início, mas ela insiste nos encontros quinzenais. Por meio de Eva, Lionel Shriver quebra o silêncio que costuma se impor após esse tipo de drama e expõe o indizível sobre as frágeis nuances das relações entre pais e filhos num romance irretocável.

Uma das coisas que eu mais odeio na vida é ver um filme e descobrir que ele foi adaptação de um livro. Quem é leitor de carteirinha geralmente prefere ler o livro antes de assistir ao filme, mas comigo aconteceu o contrário pelo motivo que citei anteriormente.

Quando eu assisti "Precisamos Falar Sobre o Kevin", eu não fazia ideia que ele era uma adaptação. Na verdade, só assisti porque o Ezra Miller, que faz o papel do Kevin, é meu ator favorito. Porém, o filme é tão profundo que, quando descobri meu infortúnio, comprei o livro imediatamente.

O livro é escrito em formas de cartas que Eva destina ao seu marido. Essas cartas são um misto do seu passado e presente para tentar entender o futuro. Desde os primeiros capítulos do livro percebemos a aversão de Eva à maternidade. Essa aversão é tão forte que até quem não planeja ter filhos se assusta com a forma que ela conduz o assunto.

Veja só, tudo o que me fazia bonita era intrínseco à maternidade, e até mesmo o meu desejo de que os homens me considerassem atraente era uma imaginação do corpo projetada para expelir seu próprio substituto. (...) Sentia-me dispensável, jogada fora, engolida por um grande projeto biológico que não iniciei nem escolhi, que me produziu mas que também iria me mastigar e depois cuspir fora. Eu me senti usada.

Para início de conversa, temos uma mulher que não ama seu filho. Isso parece ser totalmente justificável, já que Kevin também não ama sua mãe. Por mais que Eva tente, ela não consegue manter um relacionamento afetivo sólido com o garoto. A única coisa que ela consegue, no decorrer dos anos, é se distanciar do marido, que morre de amores pelo filho.

Logo percebemos que, ao contrário de Eva, Franklin desejou Kevin desde o início do casamento, por mais que não demonstrasse. E foi justamente esse desejo que o fez construir uma relação de puro encanto com o filho. É claro que, na minha opinião, não se esqueçam disso, Kevin tinha essa amizade com o pai apenas para afrontar a mãe, mas há que acredite que Kevin realmente amou o pai.

As crianças têm uma intuição fantástica, porque a intuição é mais ou menos tudo o que têm. Tenho certeza de que, quando eu o pegava no colo, ele detectava um certo enrijecimento em meus braços que abria o jogo. Estou convencida de que, quando eu arrulhava e sussurrava para ele, Kevin inferia, graças a um sutil exaspero em minha voz, que sussurrar e arrulhar não me vinham de forma natural, assim como também tenho certeza de que seus ouvidos precoces conseguiam isolar, daquela interminável fieira de papagaiadas lenitivas, um sarcasmo insidioso e compulsivo.
 
O início do livro é bem arrastado, mas acreditem: há um pote de ouro no fim do túnel. Se a autora passa muito tempo detalhando a concepção e a infância de Kevin, mostrando toda a repulsa que o filho sente pela mãe e vice-versa é por uma finalidade. Precisamos conhecer cada traço da história para tirarmos nossa conclusão no final dela.

"Precisamos Falar Sobre o Kevin" é um livro pesado e polêmico. Afinal, quem gosta de escrever sobre crianças que, apesar de aparentemente puras são na verdade demônios (não consegui encontrar outro termo para comparar,  me desculpem) com a mente perversa?

Após o término do livro ficamos com aquela eterna dúvida no ar: de quem é a culpa? De Eva, que nunca quis a gravidez e não conseguiu amá-lo, de Franklin, que além de fazer todas as vontades o filho, sempre foi alheio às atitudes dele ou foi simplesmente influência da sociedade? Sem dúvida, ainda temos muito o que falar sobre o Kevin.

Classificação final: 

Gozado como a gente vai escavando o buraco com uma colherinha de chá – uma concessão mínima, um arredondamento insignificante ou uma levíssima reformulação de determinada emoção para outra que seja um tiquinho mais simpática ou lisonjeira. Não me importava o fato em si de me ver privada de uma taça de vinho. Mas, como a lendária viagem que começa com um único passo, eu já tinha embarcado no meu primeiro ressentimento.  Ressentimento banal, é verdade, mas a maioria deles o é. E, por  sua pequenez, me senti obrigada a reprimir. Por falar nisso, essa é a natureza do ressentimento, a objeção que não podemos exprimir. É o silêncio, mais que a queixa, o que torna a emoção tão tóxica, como os venenos que o organismo não expele com a urina. - See more at: http://donttouchmymoleskine.com/precisamos-falar-sobre-o-kevin/#sthash.tf7t2Asb.dpu

4 comentários:

  1. Eu tive contato primeiro com o filme (que no começo achei estranho, mas depois acabei gostando) e depois comecei a ler o livro. Só que eu parei quase que imediatamente :cccc não sei, achei tão chato. Talvez seja pelo fato de que eu estava lendo em pdf e é cansativo. Pode ser.
    Maaaas, será que no "fim do túnel" tem um pote de ouro mesmo?

    Sua resenha foi ótima, Aninha, mas acho que não vou pegar esse livro pra ler mais não...

    Beeeijos!

    PS: Ezra no filme = <3

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    1. O filme e o livro são bons na mesma medida.
      Se um dia você estiver com paciência, termine o livro. Sério. O final é "ooooooooh".

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  2. Assiti o filme e é incrível, mas vou ler o livro ainda. Assisti por causa do Ezra, mas a história é demais *-*

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    1. Oi Helena!

      Leia mesmo. O livro é meio enrolado no começo, mas do nada fica tão bom que você não consegue parar de ler!

      Beijos!

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