Eu li Vendemos Nossas Almas na tentativa (mais uma) de reviver a experiência que tive com O Exorcismo da Minha Melhor Amiga: um livro do mesmo autor que, pra mim, funcionou muito bem na época que eu li, equilibrando terror com humor, gore com emoção e exagero com estranheza. Desde então, venho lendo tudo que sai do Grady Hendrix pela Editora Intrínseca (Como Vender Uma Casa Assombrada, Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros...), mas, infelizmente, a experiência ainda não se repetiu. E esse livro reforçou isso.
Neste livro, acompanhamos Kris Pulaski, ex-guitarrista de uma banda de heavy metal chamada Dürt Würt que, atualmente, vive uma vida completamente estagnada e sem graça enquanto trabalha na recepção de um hotel. Kris se ressente do antigo vocalista da Dürt Würt, Terry Hunt, que atualmente é uma megaestrela do rock sob o nome artístico de Rei Cego. A atual banda de Terry, Koffin, acaba de anunciar uma grande turnê de despedida. A partir daí, o livro alterna entre passado e presente, mistura perseguição, memória e elementos sobrenaturais e nos conta uma história sobre fama, fracasso e o preço que se paga pelo sucesso.
Na saída da cidade, passou pelo outdoor de Terry Hunt, o Rei Cego. Ele havia tomado tudo dela e a abandonado. Achou que não havia mais nada a ser feito ali porque os advogados dele disseram que não havia. Mas ela ainda queria briga. Eles já haviam sido uma banda, eram bons e podiam ter sido ótimos.Mas aí o Rei Cego traiu todos. Ele acabou com ela, arruinou sua vida e roubou sua música. Ele se vendeu e ficou rico. Ela seguiu sem um tostão. Agora, ela iria atrás dele, e a primeira coisa que precisava fazer era reunir a banda. Só havia um problema: Kris era a única pessoa que eles odiavam mais do que Terry.
Kris sai em uma busca pelos ex integrates da banda para que, juntos, eles possam confrontar Terry. A protagonista acredita que Terry traiu a banda e destruiu a vida de todos os integrantes da Dürt Würt. Nessa jornada em busca de justiça, principalmente financeira, Kris vai reencontrar seus ex colegas de trabalho e descobrir que as coisas podem ser bem mais obscuras do que parecem. O livro mistura mitologia, drogas que apagam memórias, criaturas que se alimentam de almas, cavernas subterrâneas e muitas metaforas sobre a fama. Tudo bem no estilo Grady Hendrix: bizarro e estranho.
O principal problema, pra mim, é o ritmo. Hendrix tem uma tendência muito clara de demorar demais para fazer a história acontecer. Isso também aconteceu em Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros. Ele investe muito tempo construindo contexto, apresentando personagens, explicando o passado... e, embora tudo isso seja importante, em excesso acaba ficando cansativo. Em Vendemos Nossas Almas, eu já estava exausta antes mesmo da metade do livro, com a sensação de que a história ainda não tinha realmente começado a se desenrolar. Tem uma personagem que é apresentada no início do livro e que o leitor só vai entender realmente quem ela é e qual é o papel dela no desenvolvimento da história bem lá na frente. E todo o contexto que é dado sobre ela antes disso parece totalmente desnecessário.
Além disso, a mitologia criada para essa história, toda a ideia da Montanha do Ferro Negro, o Rei Cego, o Olho das Cem Mãos e a Porta Azul, é estranha demais. Eu ainda não consigo dizer se a mitologia é complexa/complicada demais ou se é simplesmente confusa e mal desenvolvida. Na verdade, o livro como um todo me passou a impressão de ser um esboço de algo que poderia vir a se tornar um história muito boa. Falta acabamento, falta aparar as arestas, falta refinamento. Hendrix, na minha opinião, funciona melhor quando entrega um terror mais direto, mais absurdo e mais divertido. Aqui, ele tenta construir algo mais elaborado, mais simbólico, quase épico… mas sem dar sustentação suficiente pra isso. O resultado, pra mim, é uma história que se perde.
Ao invés de um terror cômico, estranho, envolvente e até emocionante (como foi O Exorcismo da Minha Melhor Amiga e como tentou ser, Como Vender Uma Casa Assombrada), o livro vira algo meio confuso, com muitas pontas soltas e elementos que não se encaixam completamente. A sensação é de que ele complicou demais uma ideia que poderia funcionar muito melhor se fosse mais simples. Mesmo assim, é impossível não reconhecer as marcas do autor: o gore está lá, o bizarro também, e existem cenas visualmente muito fortes. Hendrix é um dos autores com identidade mais bem definida atualmente. Eu poderia ler qualquer coisa dele e eu saberia que era dele. Há cenas bem incômodas no livro e isso não é surpresa. Na verdade, é marca registrada do autor. Cenas gráficas de violência, morte e assédio permeiam toda a narrativa.
Outra marca registrada de Hendrix é a capacidade de mostrar conexões e laços afetivos de forma eficiente e crível. As relações entre os personagens, principalmente entre Kris e Terry ainda crianças/adolescentes, é muito bonita de acompanhar. E até por isso, cada decepção, traição ou perda é realmente sentida pelo leitor. Não é só o choque gráfico, mas também o choque emocional.
O heavy metal salvou a vida de Kris e de Terry, e um salvou o outro.
Um dos pontos mais positivos do livro são as referências ao universo do rock e, principalmente, do heavy metal. Cada capítulo recebe o nome de um albúm real e foi super divertido encontrar nomes que eu já conheço e pegar recomendações de outros que eram novos para mim. Reign in Blood do Slayer, Powerslave do Iron Maiden, Appetite for Destruction do Guns N' Roses, Master of Puppets do Metallica, Holy Diver do Dio, Theatre of Pain do Mötley Crüe, entre dezenas de outros.
Além disso, bandas como Black Sabbath, Megadeth, Slayer, Iron Maiden, Metallica, Judas Priest, Manowar, Bathory, Cannibal Corpse e Slipknot são mencionadas diretamente ao longo da narrativa, não apenas como nomes soltos, mas como parte da formação musical e pessoal dos personagens. Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Kerry King, Tom Araya, Cliff Burton e outros músicos reais aparecem em conversas e memórias. Pra quem é fã de rock, o livro é um deleite. Hendrix claramente conhece e ama esse universo, pois suas referências são precisas e as discussões sobre bandas e álbuns soam como conversas reais entre fãs.
Vendemos Nossas Almas parte de uma premissa interessante: e se o clichê de vender a alma ao diabo em troca de fama e dinheiro fosse realmente possível? Quais seriam as implicações disso? O resultado é um livro que funciona tanto como terror sobrenatural, quanto como crítica à industria da música e do entretenimento. É interessante, mas poderia ter sido melhor desenvolvido e ter um ritmo mais agradável e linear. A diagramação está incrível e os conteúdos alternativos/complementares são muito bem encaixados nas páginas, incluindo letras de músicas, trechos de programas de rádio e de matérias em revistas. Há momentos de explicações ao invés de demonstrações que cansam um pouco e o final, para mim, foi decepcionantemente aberto. Ainda assim, vale a pena, principalmente pra quem é do rock e vai amar as referências.
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