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2 de junho de 2026

Um Amor de Despedida, de Seo Eun-chae: livro sul-coreano que virou série chega ao Brasil

Um Amor de Despedida, da escritora sul-coreana Seo Eun-chae, é uma leitura rápida, fluida e envolvente, daquelas que podem ser concluídas em um ou dois dias. A narrativa é dinâmica, construída com muitos diálogos e capítulos curtos que alternam passado e presente e mudam de ponto de vista e de estilo narrativo, o que imprime movimento à trama e mantém a curiosidade ativa do começo ao fim.

A narrativa de Um Amor de Despedida não se detém em descrições de cenários, nem se aprofunda em sentimentos, intenções ou na construção psicológica dos personagens. Em vez disso, o livro acompanha e descreve os acontecimentos de forma mais direta e objetiva. Essa característica parece ser algo comum em livros sul-coreanos. Ao menos foi o que notei naqueles que eu já tive contato: narrativas mais contidas, menos voltadas para longas elaborações internas e mais centradas no desenrolar dos fatos. E é no desenrolar dos fatos, em si, que a gente conhece os personagens. Não pelos seus sentimentos, mas pelos seus comportamentos. Não por seus pensamentos, mas por suas escolhas. 

Essa escolha sempre me causa uma sensação de superficialidade inicialmente, especialmente porque eu tendo a preferir narrativas mais densas e introspectivas. Ao mesmo tempo, essa objetividade contribui para o ritmo ágil do livro. E, de qualquer forma, aos poucos e com o passar das páginas, eu fui conseguindo me conectar aos personagens, compreendendo suas emoções e motivações.

Especialmente a protagonista, Heewan, despertou em mim empatia e compreensão. Ela se culpa pela morte do amigo de infância, que faleceu em um acidente de carro tentando salvá-la. A mãe do menino a culpou na época e ela absorveu essa responsabilidade e carregou essa culpa para a vida adulta.

Até que, num dia qualquer, seu amigo reaparece, mais velho, como se nunca tivesse morrido, mas continuasse vivo e vivendo uma vida normal, envelhecendo normalmente. A partir daí, a história segue por caminhos intrigantes e inesperados e conseguiu me manter curiosa e engajada por boas páginas.

No entanto, Um Amor de Despedida parece vários livros em um. Na verdade, vários retalhos. A história da Heewan e seu amigo, Ramwoo, vai até cerca de 30% do livro. Depois disso, o livro alterna pontos de vista, volta ao passado, contextualiza outras coisas e se aprofunda em outros personagens. Conhecemos, por exemplo, a história da mãe do Ramwoo e eu confesso que esses paralelos não foram tão interessantes pra mim. Eu ficava me perguntando qual era a utilidade de estarmos conhecendo mais profundamente esses outros personagens. Não que não tenha sido interessante. Até foi, mas um interessante sem propósito. 

Uma das coisas que mais me chamou atenção no livro foi a forma como ele é narrado no início (quando estamos no ponto de vista da Heewan). A narrativa é em primeira pessoa, mas a protagonista/narradora se refere ao seu amigo, Ramwoo, como "você", como se todo o livro fosse escrito para ele, direcionado para ele. Isso, na minha opinião, deixou a narrativa muito mais melancólica e poética.

Você foi atropelado. Tentando me salvar. Ao chegar ao hospital pálida que nem um fantasma, sua mãe não quis nem olhar na minha cara. Não pude ver você. Voltei para casa. Para a casa onde você não estava mais. Era tarde da noite, e eu ouvi soluços vindo da sala. Prendendo a respiração, me recostei à porta para escutar.

Esse modo de narrar produz um efeito emocional bem particular. Embora a narrativa seja objetiva, o uso do “você” traz muita proximidade afetiva. Há algo de confessional, parecendo uma carta. Eu, que amo romances epistolares, tão escassos hoje em dia, fiquei genuinamente encantada com essa narrativa. Esse recurso me parece especialmente interessante porque aproxima o leitor de uma intimidade emocional sem precisar recorrer a longas explicações psicológicas. Gostaria que o livro tivesse se mantido assim até o fim ao invés de ir para outros pontos de vista e outros estilos narrativos. 

No fim, todas essas histórias formam um todo coeso e interessante, mas desigual em impacto. O livro tem uma divisão bem clara em três partes. Pra mim, o primeiro terço do livro é a melhor parte. Em seguida, o último terço, quando voltamos para a Heewan e Ramwoo. O meio, quando conhecemos outras histórias de outros personagens, foi menos envolvente para mim.

Um Amor de Despedida é uma narrativa fantástica, que mescla realismo mágico e vida real. Alguns plot twists são bem interessantes, principalmente quando entendemos porque o Ramwoo aparece para a Heewan como se nunca tivesse morrido. Foi emocionante e triste.

Gostei da experiência. Foi um livro que prendeu minha curiosidade. Eu comecei num dia e terminei no dia seguinte e, entre um dia e outro, eu me peguei pensando na história, ansiando pelo momento em que eu poderia parar para ler e descobrir o que aconteceria. Recomendo! E vale mencionar que esse livro já foi adaptado para série sob o título Way Back Love.


Título Original: Naega Jukgi Iljuil Jeon ✦ Autora: Seo Eun-chae ✦ Páginas: 208
Tradução: Núbia Tropéia ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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11 de maio de 2026

O Grupo de Apoio para Garotas Finais, de Grady Hendrix, e a cultura True Crime

Você sabe o que essas personagens do cinema tem em comum: Sally Hardesty (O Massacre da Serra Elétrica - 1974), Sidney Prescott (Pânico - 1996) e Laurie Strode (Halloween - 1978)? Todas elas são Final Girls ou, em tradução livre, Garotas Finais. As Final Girls são, de forma resumida, as últimas sobreviventes de um massacre.

O arquétipo da Final Girl é especialmente explorado em filmes e franquias de terror slasher, mas também podem ser encontradas em outros gêneros. Exemplos menos óbvios incluem: Dani Ardor (Midsommar - 2019), Ellen Ripley (Alien - O Oitavo Passageiro - 1979) e Wendy Torrance (O Iluminado - 1981). A expressão foi cunhada em 1992 pela pesquisadora e professora de estudos de cinema Carol J. Clover em seu livro Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film

Mas o que acontece com as Final Girls depois que os filmes terminam? Anos depois. Décadas depois. Quais os efeitos emocionais, práticos e sociais de ser a menina que vivenciou e sobreviveu a um massacre? É isso que Grady Hendrix, com sua criatividade imbatível, vai explorar em O Grupo de Apoio para Garotas Finais, livro originalmente publicado em 2021, mas que chegou recentemente ao Brasil pela Intrínseca. 

A história acompanha Lynnette Tarkington, uma sobrevivente traumatizada que participa de um grupo terapêutico formado exclusivamente por Final Girls, como ela. Já no segundo capítulo, enquanto estão reunidas para mais uma sessão, as mulheres descobrem que uma das Final Girls do grupo acaba de morrer. Esse é o ponto inicial de uma história cheia de paranoias, reviravoltas e desdobramentos surpreendentes.

Eu adorei a premissa de O Grupo de Apoio para Garotas Finais e me surpreendi muito com as escolhas que o autor fez. As revelações me surpreenderam e os temas abordados me pegaram completamente desprevenida. O livro foi por um caminho que eu não esperava e abordou assuntos muito interessantes e relevantes que eu não achei que iria encontrar aqui.

O Grupo de Apoio para Garotas Finais fala sobre a cultura True Crime e critica o excessivo interesse das pessoas pelos assassinos, enquanto as vítimas são praticamente esquecidas, ignoradas e se tornam apenas coadjuvantes nas suas histórias de morte.

Mas sei o que estou vendo.
Pregos da casa dos assassinatos cometidos por H. H. Holmes, em Chicago, cascalho do lugar onde Bonnie e Clyde foram baleados, a pistola de calafetagem que Robert Berdella usou para grudar as orelhas de suas vítimas, sapatos usados por Albert Fish, uma mecha do cabelo de Charles Manson, o palhaço de brinquedo de John Wayne Gacy, um cartão natalino de Ted Bundy, um tijolo da casa de Sharon Tate.
Para um certo grupo de pessoas, esses itens são símbolos de status mais valiosos do que um Mercedes Classe S ou uma casa nos Hamptons.

Essa romantização de crimes reais têm sido cada vez mais comum em podcasts, documentários, filmes e séries que contam histórias de assassinatos reais e que, muitas vezes, transformam sofrimento real em entretenimento. O problema começa quando, nessas produções, o assassino frequentemente recebe mais desenvolvimento narrativo do que a vítima.

Há muito tempo, tentei assistir a um dos filmes de Adrienne, Massacre de Verão, mas desisti depois de vinte minutos quando percebi que eles não iriam nos contar sobre nenhuma das vítimas. Lembro-me de como me senti enojada quando vi pessoas com famílias e sonhos serem reduzidas a personagens sem sobrenome sendo dizimadas. É importante lembrar seus nomes completos.

Essa glamourização de assassinos ajuda a explicar, ao menos em partes, um efeito já observado na ciência: alguns assassinos desejam a fama e matam para obtê-la. A cobertura midiatica excessiva alimenta exatamente o que muitos desses indivíduos desejam: "entrar para a história".

Além disso, Hendrix aborda outros temas igualmente importantes, como a naturalização da violência masculina e a onda de ódio contra as mulheres. Um personagem do livro é descrito como um "ativista dos direitos dos homens" e outro como "vítima de uma conspiração feminista descompensada".

Apesar de todos esses temas importantes, eu achei que o livro poderia ter se aprofundado mais nesses debates, para evitar que o assunto ficasse raso. Algumas motivações ficaram um pouco superficiais e alguns personagens não foram tão bem desenvolvidos. Por outro lado, algumas passagens que não foram tão importantes ou interessantes levaram muitas páginas para se desenrolar. Sinto que se existisse um equilibrio melhor entre os assuntos abordados no livro eu poderia ter apreciado mais a leitura.

Mesmo assim, é um livro interessante. Talvez o mais diferente dentre todos que eu já li do autor, pois aqui não estamos vendo terror sobrenatural, mas o terror da vida real, da violência, da misoginia e do ódio gratuito. Os personagens do livro são interessantes e seguem outro padrão do autor: personagens perturbados, paranoicos e que são desacreditados pela maioria das pessoas. Gosto da moralidade cinza das personagens e de como os personagens do Hendrix, no geral, são sempre muito falhos e reais.

As mulheres têm o poder de trazer à vida, então os homens devem se contentar com o poder de levar à morte. E eles se tornaram especialistas no assunto.

Interessante! Valeu a experiência de leitura, mas, para mim, teria sido ainda melhor se fosse mais aprofundado. Eu sinto que o livro quis ser duas coisas ao mesmo tempo: um thriller de ação acelerado e uma crítica cultural séria. Hendrix escolhe o entretenimento quando, na minha opinião, os temas pediam mais reflexão. É uma escolha narrativa e tudo bem, mas acho válido alertar para irem com a expectativa correta. Se você queria profundidade nesses temas, pode se frustrar. Mas se for ler como um thriller de terror com camadas críticas, mas superficiais, funciona melhor.

Título Original: The Final Girl Support Group ✦ Autor: Grady Hendrix ✦ Páginas: 368
Tradução: Flora Pinheiro ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

30 de abril de 2026

Vendemos Nossas Almas, de Grady Hendrix, é uma verdadeira declaração de amor ao heavy metal

Eu li Vendemos Nossas Almas na tentativa (mais uma) de reviver a experiência que tive com O Exorcismo da Minha Melhor Amiga: um livro do mesmo autor que, pra mim, funcionou muito bem na época que eu li, equilibrando terror com humor, gore com emoção e exagero com estranheza. Desde então, venho lendo tudo que sai do Grady Hendrix pela Editora Intrínseca (Como Vender Uma Casa Assombrada, Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros...), mas, infelizmente, a experiência ainda não se repetiu. E esse livro reforçou isso.

Neste livro, acompanhamos Kris Pulaski, ex-guitarrista de uma banda de heavy metal chamada Dürt Würt que, atualmente, vive uma vida completamente estagnada e sem graça enquanto trabalha na recepção de um hotel. Kris se ressente do antigo vocalista da Dürt Würt, Terry Hunt, que atualmente é uma megaestrela do rock sob o nome artístico de Rei Cego. A atual banda de Terry, Koffin, acaba de anunciar uma grande turnê de despedida. A partir daí, o livro alterna entre passado e presente, mistura perseguição, memória e elementos sobrenaturais e nos conta uma história sobre fama, fracasso e o preço que se paga pelo sucesso.

Na saída da cidade, passou pelo outdoor de Terry Hunt, o Rei Cego. Ele havia tomado tudo dela e a abandonado. Achou que não havia mais nada a ser feito ali porque os advogados dele disseram que não havia. Mas ela ainda queria briga. Eles já haviam sido uma banda, eram bons e podiam ter sido ótimos.

Mas aí o Rei Cego traiu todos. Ele acabou com ela, arruinou sua vida e roubou sua música. Ele se vendeu e ficou rico. Ela seguiu sem um tostão. Agora, ela iria atrás dele, e a primeira coisa que precisava fazer era reunir a banda. Só havia um problema: Kris era a única pessoa que eles odiavam mais do que Terry.

Kris sai em uma busca pelos ex integrates da banda para que, juntos, eles possam confrontar Terry. A protagonista acredita que Terry traiu a banda e destruiu a vida de todos os integrantes da Dürt Würt. Nessa jornada em busca de justiça, principalmente financeira, Kris vai reencontrar seus ex colegas de trabalho e descobrir que as coisas podem ser bem mais obscuras do que parecem. O livro mistura mitologia, drogas que apagam memórias, criaturas que se alimentam de almas, cavernas subterrâneas e muitas metaforas sobre a fama. Tudo bem no estilo Grady Hendrix: bizarro e estranho.

O principal problema, pra mim, é o ritmo. Hendrix tem uma tendência muito clara de demorar demais para fazer a história acontecer. Isso também aconteceu em Manual das Donas de Casa Caçadoras de Vampiros. Ele investe muito tempo construindo contexto, apresentando personagens, explicando o passado... e, embora tudo isso seja importante, em excesso acaba ficando cansativo. Em Vendemos Nossas Almas, eu já estava exausta antes mesmo da metade do livro, com a sensação de que a história ainda não tinha realmente começado a se desenrolar. Tem uma personagem que é apresentada no início do livro e que o leitor só vai entender realmente quem ela é e qual é o papel dela no desenvolvimento da história bem lá na frente. E todo o contexto que é dado sobre ela antes disso parece totalmente desnecessário.

Além disso, a mitologia criada para essa história, toda a ideia da Montanha do Ferro Negro, o Rei Cego, o Olho das Cem Mãos e a Porta Azul, é estranha demais. Eu ainda não consigo dizer se a mitologia é complexa/complicada demais ou se é simplesmente confusa e mal desenvolvida. Na verdade, o livro como um todo me passou a impressão de ser um esboço de algo que poderia vir a se tornar um história muito boa. Falta acabamento, falta aparar as arestas, falta refinamento. Hendrix, na minha opinião, funciona melhor quando entrega um terror mais direto, mais absurdo e mais divertido. Aqui, ele tenta construir algo mais elaborado, mais simbólico, quase épico… mas sem dar sustentação suficiente pra isso. O resultado, pra mim, é uma história que se perde.

Ao invés de um terror cômico, estranho, envolvente e até emocionante (como foi O Exorcismo da Minha Melhor Amiga e como tentou ser, Como Vender Uma Casa Assombrada), o livro vira algo meio confuso, com muitas pontas soltas e elementos que não se encaixam completamente. A sensação é de que ele complicou demais uma ideia que poderia funcionar muito melhor se fosse mais simples. Mesmo assim, é impossível não reconhecer as marcas do autor: o gore está lá, o bizarro também, e existem cenas visualmente muito fortes. Hendrix é um dos autores com identidade mais bem definida atualmente. Eu poderia ler qualquer coisa dele e eu saberia que era dele. Há cenas bem incômodas no livro e isso não é surpresa. Na verdade, é marca registrada do autor. Cenas gráficas de violência, morte e assédio permeiam toda a narrativa.

Outra marca registrada de Hendrix é a capacidade de mostrar conexões e laços afetivos de forma eficiente e crível. As relações entre os personagens, principalmente entre Kris e Terry ainda crianças/adolescentes, é muito bonita de acompanhar. E até por isso, cada decepção, traição ou perda é realmente sentida pelo leitor. Não é só o choque gráfico, mas também o choque emocional.

O heavy metal salvou a vida de Kris e de Terry, e um salvou o outro.

Um dos pontos mais positivos do livro são as referências ao universo do rock e, principalmente, do heavy metal. Cada capítulo recebe o nome de um albúm real e foi super divertido encontrar nomes que eu já conheço e pegar recomendações de outros que eram novos para mim. Reign in Blood do Slayer, Powerslave do Iron Maiden, Appetite for Destruction do Guns N' Roses, Master of Puppets do Metallica, Holy Diver do Dio, Theatre of Pain do Mötley Crüe, entre dezenas de outros.

Além disso, bandas como Black Sabbath, Megadeth, Slayer, Iron Maiden, Metallica, Judas Priest, Manowar, Bathory, Cannibal Corpse e Slipknot são mencionadas diretamente ao longo da narrativa, não apenas como nomes soltos, mas como parte da formação musical e pessoal dos personagens. Tony Iommi, Ozzy Osbourne, Kerry King, Tom Araya, Cliff Burton e outros músicos reais aparecem em conversas e memórias. Pra quem é fã de rock, o livro é um deleite. Hendrix claramente conhece e ama esse universo, pois suas referências são precisas e as discussões sobre bandas e álbuns soam como conversas reais entre fãs.

Vendemos Nossas Almas parte de uma premissa interessante: e se o clichê de vender a alma ao diabo em troca de fama e dinheiro fosse realmente possível? Quais seriam as implicações disso? O resultado é um livro que funciona tanto como terror sobrenatural, quanto como crítica à industria da música e do entretenimento. É interessante, mas poderia ter sido melhor desenvolvido e ter um ritmo mais agradável e linear. A diagramação está incrível e os conteúdos alternativos/complementares são muito bem encaixados nas páginas, incluindo letras de músicas, trechos de programas de rádio e de matérias em revistas. Há momentos de explicações ao invés de demonstrações que cansam um pouco e o final, para mim, foi decepcionantemente aberto. Ainda assim, vale a pena, principalmente pra quem é do rock e vai amar as referências. 

Título Original: We Sold Our Souls ✦ Autor: Grady Hendrix ✦ Páginas: 320
Tradução: Érico Assis ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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22 de abril de 2026

O Último Nome da Legião, de Marcos V. Marques: uma nova perspectiva sobre a Segunda Guerra Mundial


O romance O Último Nome da Legião, de Marcos Vinicius Marques, é uma narrativa intensa que entrelaça memória, amor e guerra em uma jornada profundamente humana. Ambientada entre o Brasil dos anos 1930 e a Europa durante a Segunda Guerra Mundial, a obra acompanha a trajetória de Marcos, um ex-policial civil que, já idoso, decide registrar sua própria história antes que suas lembranças se percam no tempo.

A trama, que se dá em primeira pessoa, revisita as lembranças do protagonista a partir do ponto em que conhece Júlia, uma advogada idealista que desafia suas convicções e o faz repensar o conceito de justiça. O relacionamento entre os dois se desenvolve de forma gradual e significativa, até que inevitavelmente se casam.

O ponto de ruptura da história ocorre durante a lua de mel do casal em Paris, em 1939, quando são surpreendidos pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Diante do caos e da impossibilidade de retorno imediato ao Brasil, Marcos toma uma decisão extrema: alistar-se na Legião Estrangeira Francesa para garantir a repatriação de Júlia. Esse gesto de amor marca o início de sua descida a um cenário de grande violência.

Ao longo da guerra, Marcos convive com outros brasileiros que também lutam na Legião. Esses personagens trazem leveza e humanidade à narrativa, mostrando que, mesmo em meio à barbárie, ainda há espaço para amizade, humor e solidariedade. Com linguagem simples e direta, a obra desconstrói a ideia romantizada da guerra, apresentando-a como um espaço de sobrevivência, e não de heroísmo.

Nesse sentido, acho que Artur é meu personagem preferido. Ele é mais reservado, intelectual, tem sempre uma frase pronta, uma resposta na ponta da língua. Desde o começo senti que, de todo o grupo, ele era o que levava a situação com mais rigidez. Ele definitivamente não escondia o medo atrás do humor, sabem? E não me levem a mão, acho que o humor é uma das melhores formas de passar por uma situação difícil, mas gostei dessa postura do personagem.

Um dos pontos altos do livro está na construção psicológica do protagonista. Já no presente, enquanto revisita suas memórias, Marcos tenta achar sentido para suas escolhas e lidar com seus traumas. A narrativa evidencia que as marcas da guerra não se limitam ao campo de batalha, mas persistem na mente e na identidade dos sobreviventes. Durante a leitura me peguei pensando que situação complexa lutar uma guerra que não é sua, sem saber se vai voltar pra casa, sem saber se vai existir uma casa pra voltar.

Outro ponto interessante é a presença de ilustrações durante o texto. São legais porque ajudam a ambientar o leitor, dão uma certa vida à história, mas não vou mentir que podem incomodar algumas pessoas por causa do uso de inteligência artificial. De modo geral, a única coisa que me incomodou um pouco foi a caracterização de alguns personagens, principalmente no que diz respeito aos sotaques. Em certa altura, me pareceram um pouco forçados, até mesmo o mineiro, e olha que realmente falamos bastante uai e sô (risos). 

Acredito que O Último Nome da Legião é uma obra que vai além de um romance de guerra. Trata-se de uma reflexão sobre as escolhas, os impactos do passado e a busca por reconciliação interior. É uma leitura envolvente, que provoca o leitor a pensar sobre o que permanece, mesmo quando tudo parece ter sido perdido.

Título Original: O Último Nome da Legião ✦ Autor: Marcos V. Marques
Páginas: 155 ✦ Editora: Publicação independente
Compre a obra direto com o autor: marcos.v.marques@outlook.com
Esse post foi patrocinado pelo autor, mas segue as diretrizes de autenticidade do Roendo Livros, que sempre divulga opiniões sinceras acerca de toda e qualquer obra

15 de abril de 2026

Amor na Prática, de Sarah Adams: quando o romantismo encontra a experiência

Imagine juntar uma mulher romântica, mas inexperiente, com um homem experiente, mas pouco inclinado ao romance. De um lado, Annie Walker, que acredita no amor, mas não sabe exatamente como vivê-lo na prática, que ama romances históricos com piratas, coleciona inseguranças e encontros ruins e carrega a sensação constante de estar atrasada na vida. Do outro lado, Will Griffin, bonitão, musculoso, tatuado e gentil, mas emocionalmente inacessível. É a partir desse contraste que Amor na Prática, de Sarah Adams, constrói sua narrativa.

O livro começa mostrando Annie em mais um encontro fracassado. A protagonista, que define a si mesma como "tímida, ansiosa e introvertida de carteirinha" está cansada de encontros ruins e sente que jamais encontrará alguém pra se relacionar porque nem consegue passar do primeiro encontro. Vista por todos como fofa, doce e boazinha, Annie está cansada de ser vista como um anjinho puro e inocente e não como uma mulher.

Para melhorar suas habilidades em paquera, Annie receberá uma ajudinha de Will. Afinal, por que não receber dicas de relacionamento do cara por quem você sempre teve uma quedinha? Acho que nem preciso dizer que Amor na Prática é um clichê dos grandes, né?! Mas, confesso, um clichê d.e.l.i.c.i.o.s.o.

O livro me ganhou já no capítulo 3, quando Will diz: "Durante o tempo em que trabalhei em Roma, sempre foi impossível não reparar na mais nova das irmãs Walker. A “mais doce”, como diziam. A mais quietinha. A mais fofa. Já ouvi gente da cidade descrevê-la com todo e qualquer sinônimo possível dessas palavras. No entanto, ninguém nunca usou o adjetivo que sempre surgia na minha cabeça quando eu a via: deslumbrante."

Eu adoro quando o mocinho já é caidinho pela mocinha desde o início. Vocês não? Amor na Prática é narrado por Annie e Will, em capítulos alternados. Isso traz uma dinamicidade para a história, além de manter o leitor informado sobre o que os protagonistas estão sentindo e pensando. Mas se não é falta de interesse ou de atração que afasta Will de um possível relacionamento com a Annie, o que é? Ao longo da leitura, entenderemos porque Will é tão avesso a ideia de ter um relacionamento estável. 

Inclusive, outro ponto positivo do livro é justamente esse: Amor na Prática nos apresenta os protagonistas rapidamente. A gente não precisa passar páginas e páginas tentando entender quem são os personagens. Os primeiros capítulos já deixam bem claro quem são Annie e Will, suas dificuldades, seus traumas e seus anseios. Daí pra frente o foco é no desenvolvimento do vínculo entre eles.

Livros como Amor na Prática não fazem mistério. A gente começa a leitura já sabendo que os dois vão ficar juntos no final. Então, qual a graça de ler um livro que a gente já sabe o final? O desenvolvimento, é claro. Se a gente já sabe o que vai acontecer no final, a gente lê pra descobrir o "como". E eu ADOREI como tudo acontece nesse livro. Annie é realmente um desastre em encontros. Ela é desajeitada e sem filtro, mas, por outro lado, é super divertida e inteligente. E Will vê isso. Ao longo dos treinos, eles simulam encontros, saem pra comer juntos, trocam provocações, têm conversas profundas e vão desenvolvendo um laço de parceria e intimidade muito bonito de acompanhar. E a forma como eles se enxergam para além das máscaras e das barreiras é belíssimo. 

Eu adoro como as interações entre eles são genuínas e sem joguinhos. Will sabe que Annie o acha atraente e nem tenta esconder que acha o mesmo dela (apesar de Annie ter dificuldade pra reconhecer isso por conta de sua baixa autoestima). Eles não só se abrem um com o outro como se libertam e se descobrem. Annie consegue ser mais leve, livre e espontânea quando está com Will e Will consegue, aos poucos, se desprender de bloqueios antigos.

— Você deveria mesmo fazer essa tattoo. Ficaria muito sexy.
Sinto um aperto no peito e hesito por um instante.
— Acha que eu ficaria… sexy com uma tattoo?
Ele solta uma risadinha, e, por um segundo, tenho medo de que esteja zombando de mim. Talvez ele nem tenha dito “sexy”. Talvez meu cérebro tenha acrescentado a palavra sozinho, por pura esperança. Se for isso, vou precisar entrar para o programa de testemunhas e me mudar para outro lugar.
— Não, Annie. Não me entenda errado. Já acho você sexy sem tatuagem. Então, tenho certeza de que, tatuada, você ficaria ainda mais sexy.
Sinto meus lábios se separarem e puxo o ar de uma vez, feliz. Ele disse isso mesmo? Nunca na minha vida me chamaram de sexy. Sempre fui “legal” ou “a garota de coração bom”. Sexy? Nunca. Nenhuma palavra fez com que eu me sentisse tão feminina quanto essa que ele acabou de usar para me descrever.

O livro é cheio de passagens que me fizeram ter vontade de dar gritinhos de empolgação, como o capítulo em que a Annie faz sua primeira tatuagem e o capítulo em que Will está no quarto dela lendo um de seus romances com piratas. O cenário de Amor na Prática é uma cidade pequena bem no estilo Stars Hollow (Gilmore Girls). Toda a cidade adora a Annie e todos a veem como uma menina doce que merece um homem à sua altura. E esse homem, na visão de seus vizinhos, não é Will. Essa dinâmica de cidade pequena e superprotetora me lembrou muito quando a Rory Gilmore namora o Jess, que era visto por todos como um bad boy, marginal e indigno da Rory.

Esses conflitinhos trazem certa profundidade para a história, mas sem pesar o clima. Na verdade, o livro como um todo é leve e fluido de ler. Eu gostei tanto de acompanhar as interações entre eles, incluindo as "aulas", que os capítulos que abordavam outras questões ou mostravam outros personagens, eu sentia vontade de pular. Acho que o livro perdeu um pouco de tempo nesses outros assuntos que não são, nem de perto, tão interessantes quanto a dinâmica e os diálogos honestos entre Annie e Will.

— Você tem sentimentos por mim, Will?
Solto uma risadinha.
— Annie, não se faz esse tipo de pergunta. É contra as regras, não sabia?
— Por quê?
— Porque… a gente deveria guardar tudo pra gente, em um estado constante de angústia. Deixar o outro confuso, cheio de questionamentos. É assim que as coisas funcionam.
Ela curva os lábios e desliza a mão sobre a coberta até entrelaçar com delicadeza os dedos nos meus.
— Você gosta de mim, Will?
Sustento o olhar dela e aperto seus dedos, sentindo suas palavras extraírem a verdade de mim, como sempre.
— Sim, Annie. Gosto. E você, gosta de mim?
— Aham. Apesar do meu bom senso.

Enfim, adorei conhecer Annie e Will e adorei ver a construção de relacionamento deles. Um relacionamento saudável, que respeita limites, compreende peculiaridades e enxerga além do óbvio. Recomendo!

Título Original: Practice Makes Perfect ✦ Autora: Sarah Adams ✦ Páginas: 368
Tradução: Mariana Moura ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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13 de março de 2026

O Ano da Mudança, de Brianna Wiest, traz alguma contribuição real para o nicho do desenvolvimento pessoal?

O Ano da Mudança - 365 Dias Para se Tornar Quem Você Realmente Quer Ser é um livro pensado para ser uma leitura diária. Cada página corresponde a um dia do ano (de 1º de janeiro até 31 de dezembro) e, para cada dia, o livro traz uma mensagem curta de inspiração, motivação ou reflexão. A proposta é simples: acompanhar o calendário e extrair, dia após dia, algum aprendizado ou insight que ajude o leitor em sua jornada pessoal.

Os temas percorrem praticamente todo o repertório clássico do nicho do desenvolvimento pessoal: coragem, felicidade, sonhos, superação, autoconhecimento, resiliência, confiança, destino e a forma como cultivamos aquilo que queremos colher. Algumas mensagens são mais breves e diretas, enquanto outras se desenvolvem em pequenos parágrafos que aprofundam um pouco mais a reflexão.

O formato é interessante e eu gosto da proposta de criar um ritual de leitura diária que gere pausa, introspecção e reflexão. Em alguns momentos, o livro realmente consegue provocar pequenas reflexões, especialmente quando aborda temas mais robustos, como pertencimento e a falácia de que "a grama do vizinho é sempre mais verde".

Porém, infelizmente, na maior parte do tempo eu senti que as reflexões propostas pela autora, Brianna Wiest, eram genéricas e repetitivas. Há uma forte presença de clichês típicos de autoajuda, com conselhos que por vezes parecem superficiais ou pouco desenvolvidos.

Que o campo do desenvolvimento pessoal/autoajuda anda saturado, nós já sabemos. Isso faz com que, cada vez mais, as pessoas que consomem conteúdos nesse nicho busquem produções melhor elaboradas, que de fato tragam algo de novo, diferente ou mais robusto. E é nesse ponto que eu sinto que O Ano da Mudança peca, por ser simplório e genérico na maioria das reflexões

Embora algumas mensagens tenham potencial reflexivo, grande parte delas transmite uma sensação de já ter sido dita muitas e muitas vezes, sem oferecer um novo olhar ou profundidade que sustente um engajamento contínuo ao longo de um ano inteiro.

No fim, é um livro simples, de proposta acessível, que pode funcionar como um lembrete diário de temas positivos, mas que dificilmente entrega reflexões mais densas ou transformadoras. Para quem busca algo leve e despretensioso, pode ser uma companhia ocasional. Já leitores que procuram conteúdo mais aprofundado talvez sintam falta de maior originalidade e consistência.

Título Original: The Pivot Year ✦ Autora: Brianna Wiest ✦ Páginas: 384
Tradução: Camila Fernandes Carmocini ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora