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17 de maio de 2024

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, é um dos 50 melhores livros de terror de todos os tempos?


Didi perdeu sua irmã Lulu muito cedo. Era um dia de verão muito quente a beira do lago lotado e Lulu estava incomodando a irmã mais velha, que decidiu sair sem ela e sem a supervisão dos pais, para um mergulho. Ao voltar para seu lugar, Didi descobre que a irmã tinha sumido e foi aí que tudo começou a desandar. Ela entendeu que não veria mais a caçula naquele dia — ou em dia nenhum — e não sabia como podia ajudar. Foi assim que Didi cresceu, procurando pela irmã incansavelmente, sozinha, mas sem nunca perder as esperanças.

É aí que um dia ela dá de cara com uma pista inacreditável. Ted Bannerman era o suspeito número um e ela sabia disso, mas parece que a polícia tinha resolvido ignorar que tudo nele gritava culpado. Por isso ela resolve se mudar para a casa do lado de Ted e investigar ela mesma. Quando tudo estiver resolvido ela vai chamar a polícia e essa história vai ter um final feliz. Didi vai poder abraçar a irmã que com certeza está viva, esperando por sua ajuda.

Em paralelo Ted vive com sua filha Lauren (uma menina muito problemática, que vive agredindo o pai) e sua gata Olívia. É um cara sozinho, que bebe demais, vive esquecendo das coisas e parece cada dia mais debilitado. Depois de ter sido considerado suspeito no desaparecimento de Lulu, sua vida virou de cabeça para baixo. Sua casa na Rua Needless começou a ser alvo de pessoas raivosas que não aceitavam que ele havia sido inocentado. Ele passou a se esconder, colocou tábuas nas janelas e depois disso era raramente visto a luz do dia, do lado de fora.

Temos também a visão de Olívia, a gata de Ted. Ela é apenas o animal de estimação, mas que ama seu dono incondicionalmente, e começa a perceber que alguma coisa não está certa. Através de Olívia nós entendemos um pouco mais da dinâmica da casa, de como Ted era com os pais que se foram, do relacionamento extremamente tóxico de Ted com sua filha e começamos a sentir que o quebra-cabeças está sendo formado.

Sim, nós temos a visão de um gato nesse livro, o que já achei incrível, para dizer o mínimo. Os três principais narradores da história são Didi, Ted e Olívia e assim vamos costurando os retalhos da história, tentando encaixar as coisas aos pouquinhos. Seria Ted realmente o culpado? Lulu está viva? Didi vai ter sucesso nessa caçada? O pior mesmo é que essas perguntas são o começo do iceberg, que se mostra muito mais fundo do que qualquer um é capaz de prever.

Esse foi um livro que comprei no escuro, não sabia do que se tratava, apenas de que era de terror. Ao folhear inclusive você já vê muitos elogios e depoimentos, o que para mim já grita red flag. Afinal, penso que algo que precisa se promover tanto, pode não ser tão bom no final. E eu estava redondamente enganada! Que livro incrível!

Não consigo falar muito sobre o desenvolvimento da história porque qualquer coisa a mais seria um baita spoiler, mas eu já adianto que até uns 80% do livro você acha que sacou o que está acontecendo, mas nos 45 do segundo tempo a autora consegue te tapear. Acredite se quiser, a resolução pode ser chocante e ir contra tudo que você formulou durante a leitura.

Definitivamente pode não ser um dos melhores livros de terror do mundo, principalmente se você for como eu, calejada no gênero, mas com certeza vou manter na minha estante e vou panfletar com todas as forças, até para os não amantes do terror.

Título Original: The Last House on Needless Street ✦ Autor: Catriona Ward
Páginas: 352 ✦ Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta ✦ Editora: Jangada
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13 de maio de 2024

Para Toda a Eternidade, de Caitlin Doughty, ou um breve manual de como a morte é retratada pelo mundo


Caitlin Doughty é uma blogueira, podcaster e escritora, que por um acaso é também uma agente funerária muito famosa não só lá nos Estados Unidos, mas também ao redor do globo. Tive a oportunidade de conhecer essa mulher incrível em 2019, quando ela esteve aqui lançando Para Toda a Eternidade (e você pode ler sobre um pouquinho desse dia aqui, foi muito legal).

Também da autora:
✦ Verdades do Além-Túmulo

Mas vocês devem estar se perguntando os motivos de eu ter demorado de 2019 até 2024 para escrever sobre esse livro. E a verdade é que eu não tinha juntado meus caquinhos para ler ele. Na época em que conheci a Caitlin, as coisas estavam muito ruins mesmo no meu lado pessoal (com a pandemia piorou muito) e ela me proporcionou risadas e um alívio muito grande.

É assim que ela também escreve. Para Toda a Eternidade é um livro que fala sobre a cultura da morte em diversas partes do mundo, desde as mais conhecidas como o Dia De Los Muertos, mas também sobre tribos remotas e práticas que a sociedade ocidental considera até mesmo criminosas (como manter seus mortos em casa, mumificação, cerimônias de cremação diferenciadas e afins).

A autora usa da sua influência e contatos no meio funerário para ir a muitos países e entender um pouco mais sobre um assunto que é tão evitado em tantos lugares. Mas a morte nada mais é do que uma das etapas da vida, e o que Caitlin mais deseja é poder desmistificar outros costumes, além de entender a importância de sermos ecológicos e conscientes nesse processo.

Com um humor impecável e uma escrita leve, ainda que realista, é mais um dos livros da autora que eu indico para toda e qualquer pessoa, sem contra indicações. Acho que além de tratar a morte com naturalidade, gosto das reflexões que Caitlin traz, principalmente quando envolve crenças e até mesmo como o capitalismo influencia nos funerais e rituais. E sim, ela ainda é minha agente funerária favorita de todos os tempos.

Título Original: From Here to Eternity: Travelling the World to Find the Good Death ✦ Autor: Caitlin Doughty
Páginas: 224 ✦ Tradução: Regiane Winarski ✦ Editora: Darkside Books

9 de maio de 2024

Perfeita (na Teoria), de Sophie Gonzales, e a bifobia internalizada de pessoas queer

Parece que a leitura de livros YA está se tornando recorrente na minha vida, e é claro que Perfeita (na Teoria) da Sophie Gonzales estava na minha lista. Sinceramente, não quis saber nada sobre ele antes de começar, e eu acho que quanto mais me mantenho assim, mais gosto da leitura. Mas vou falar sobre ele hoje, já que virou um dos favoritos do ano!

Darcy Phillips tem dezesseis anos e de alguma forma conseguiu a senha do Armário 89. Desde então, começou a oferecer conselhos de relacionamentos — de forma anônima — na sua escola. Para receber o serviço era simples: você escrevia uma carta com sua dúvida, junto de um endereço de e-mail e uma nota de dez dólares e colocava no armário. Pronto, em breve você teria uma resposta. De imediato foi um sucesso, afinal ela era boa nisso e adolescentes estão sempre precisando de conselhos.

Mas é claro que, com tanta experiência, Darcy estaria com seus próprios relacionamentos em dia né? Muito pelo contrário! Sua paixão pela melhor amiga Brooke a consome e ela não sabe nem por onde começar a resolver a situação.

Não fosse por esse pequeno probleminha, tudo estava correndo perfeitamente bem, até que Alexander Brougham resolve contratar os serviços do armário para ajudá-lo. Só que ele não queria que fosse de forma anônima, pois achou que seu problema era muito complexo e precisaria de mais do que um conselho por e-mail. É então que ele pega Darcy no flagra depois da hora na escola, recolhendo as cartas, e oferece muito dinheiro para que ela o ajude. Em troca ele não contará seu segredo (além dele ser riquinho, então ela ficaria com zero remorso de receber 50 dólares pelo coaching em relacionamentos).

Ambos se detestam. Brougham por precisar dos serviços de Darcy, e ela por ter que falar com um menino tão metido e insuportável. Mas até que ele é bem bonitinho, ela só não entende qual é a dele e nem onde isso vai parar. Com o tempo as coisas vão ficando estranhas, a situação sai do controle de Darcy e tudo explode de uma só vez.

Acho que o que fez eu gostar tanto de Perfeita (na Teoria) foi o fato de me identificar com ela. Às vezes nos entender como parte da comunidade LGBTQIAP+ é muito complexo. Ser bissexual, então... Porque assim, somos invalidados o tempo inteiro, independente da configuração do relacionamento: se estamos com uma menina é um eterno "não sabia que fulana era lésbica", se estamos com um menino, por outro lado, não acreditam na nossa bissexualidade, e isso é muito cansativo. 

Então, acaba que o livro trata da bifobia internalizada de pessoas queer, porque os questionamentos da sociedade e até mesmo da comunidade, de certa forma, são tantos que a gente começa a se questionar. Vejam bem, Darcy é apaixonada pela melhor amiga há séculos, e tudo bem, mas não conseguia aceitar que estava nutrindo sentimentos por Alexander. Tipo assim, que bissexual é essa que tá se apaixonando por um cara cis-hétero-aparentemente-babaca, né? Gostei muito de acompanhar essa dinâmica e fazia tempos que procurava por um livro assim.

— Isso. É quando bissexuais começam a acreditar na bifobia que nos cerca. Ouvimos que nossa sexualidade não existe, ou que somos héteros se estamos com alguém de outro gênero, e que nossos sentimentos não valem se nunca namorados alguém de determinado gênero, esse tipo de baboseira. Aí a gente escuta isso tanto que acaba duvidando de si — p. 298

Além da representatividade LGBTQIAP+, Perfeita (na Teoria) fala sobre relacionamentos famíliares, amizade, apego, amadurecimento. Inclusive acho que vale salientar que a sensação que eu tive lendo ele, foi a mesma de Para Todos os Garotos Que Já Amei da Jenny Han. Me fez sentir eufórica, ansiosa, nervosa e feliz com o rumo da história. Enfim, é um livro ótimo e muito amorzinho.

Antes de ir embora, queria deixar essa fala que está nos agradecimentos da Sophie Gonzales, em que ela fala um pouquinho sobre o objetivo dela com Perfeita (na Teoria) e o quão especial ele é:

Pela primeira vez, a primeiríssima vez, eu acreditei neles de verdade. Que meus relacionamentos não mudavam quem eu era. E que, mesmo se outras pessoas não concordassem, todo mundo naquela saia me apoiaria sem pensar duas vezes. Eu estava com eles, eles estavam comigo, e estávamos todos juntos. Uma comunidade dentro de uma comunidade dentro de uma comunidade. Sem perguntas. Sem provas. Sem documentos comprovatórios.
A gente pertencia ao grupo por pertencer — p. 345

P.s.: até agora não acredito que o título desse livro não é Querido Armário 89 ou algo do tipo! Agora eu vou de verdade!

Título Original: Perfect on Paper: A Novel ✦ Autor: Sophie Gonzales
Páginas: 352 ✦ Tradução: Sofia Soter ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
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6 de maio de 2024

O Oceano no Fim do Caminho, de Neil Gaiman: a nova versão, ilustrada, vale a pena?


O Oceano no Fim do Caminho é tudo o que os fãs de Neil Gaiman já amam: protagonismo infantil, fantasia sombria e poucas explicações (porque não são necessárias). O romance, que originalmente era para ter sido um conto, foi lançado no Brasil em 2013, ou seja, mais de 10 anos atrás. Agora, em 2024, a Intrínseca traz aos fãs brasileiros uma nova edição, de capa dura, pintura trilateral e toda ilustrada pela talentosíssima Elise Hurst. A tradução é a mesma, feita pela Renata Pettengill. A pergunta que fica é: vale a pena investir nessa nova edição?


Apesar de sempre ter tido interesse, eu nunca tinha lido O Oceano no Fim do Caminho. Então, meu primeiro contato já foi com essa edição ilustrada. Na história, acompanhamos um homem que retorna para o local onde viveu na infância e relembra memórias até então esquecidas de coisas que ele viveu aos 7 anos de idade, quando conheceu as mulheres da família Hempstock. Ao visitar a casa de sua amiga de infância, Lettie Hempstock, o homem reencontra lembranças, pessoas e um lago que, no passado, Lettie o convenceu se tratar de um Oceano.


Nosso protagonista era um menino quieto, introspectivo, obediente e passava boa parte do seu tempo lendo. Ele se descreve da seguinte forma: "Eu não era uma criança feliz, ainda que, de vez em quando, ficasse contente. Vivia nos livros mais que em qualquer outro lugar." Até que acontecimentos fantásticos e assustadores colocam a pacata vida de sua família em risco. Para ajudá-lo a vencer esse mal, entram em cena as mulheres Hempstock.

É uma história com muita simbologia. Essas três mulheres da família Hempstock, a filha, a mãe e a avó, podem representar, por exemplo, a Deusa Tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Lettie, com sua irreverencia e coragem, a mãe, responsável e cuidadosa, e a avó, sábia e serena. Foi lindo ver a sintonia dessas três mulheres poderosas e misteriosas. A vilã da história também não deixou a desejar. Ursula é sem escrúpulos, sedutora e digna de um filme de terror.


Tudo é muito mágico nessa história. A narrativa é envolvente, ao mesmo tempo que a falta de explicações deixa tudo sob uma névoa. A ambientação é incrível. Eu quase podia sentir o cheiro de terra molhada e a humidade no rosto enquanto passava as páginas. E as ilustrações tem o papel de tornar tudo ainda mais palpável. Eu achei maravilhoso o quanto a artista conseguiu reproduzir a atmosfera da história em suas artes. Os desenhos tem movimento, são melancólicos e combinam perfeitamente com o livro.


Eu vi alguém no Skoob dizendo que essa história daria um ótimo filme do estúdio Ghibli. E SIM. Se você já assistiu A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado ou Princesa Mononoke, saiba que essa história tem exatamente essa vibe. É poeticamente bonito, ao mesmo tempo que é triste e causa um estranhamento. A habilidade que Gaiman tem de transportar adultos para a sensações típicas da infância é realmente admirável. Inclusive, vale mencionar que O Oceano no Fim do Caminho é um livro para adultos, que aborda temas como suicídio e sexualidade.

Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois. Tudo está sempre se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.

Eu só fui perceber que nosso protagonista não teve seu nome revelado quando eu comecei a escrever a resenha. E isso me deixou triste. É como se eu quisesse ter um nome para chamá-lo. Esse é um recurso literário que eu gosto muito, pois costuma significar que o personagem não tem tanta importância ou que ele, de alguma forma, representa algo maior do que apenas um indivíduo. E, nessa história, eu acho que as duas coisas fazem sentido. Nosso protagonista não é tão importante porque, no fim das contas, ele foi mais um espectador dos acontecimentos do que o agente da história. E ele representa todos os adultos que crescem e esquecem que a vida pode ser mágica, que param de acreditar que o lago é um oceano.

Eu sabia que adultos não deveriam chorar. Eles não tinham mães que os consolassem.

O Oceano no Fim do Caminho é uma história melancolicamente linda (ou lindamente melancólica). Na minha opinião, as ilustrações complementam muito bem a história e ajudam a ambientar o leitor. Vale a pena se você já é um grande fã da história e também se vai ser o seu primeiro contato com obra. A edição é REALMENTE ilustrada. Eu diria que tem mais páginas ilustradas do que páginas sem ilustração. Então, respondendo a pergunta que eu fiz no começo dessa resenha: Sim, vale a pena investir nessa nova edição.

Título Original: The Ocean at the End of the Lane ✦ Autor: Neil Gaiman
Páginas: 336 ✦ Tradução: Renata Pettengill ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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3 de maio de 2024

Top Comentarista: Maio 2024


Maio chegou, amores. Cês acreditam que faltam menos de três meses para Arthur nascer? Agora tá batendo a ansiedade, porque além do fato óbvio de ele ter que sair de dentro de mim, a vida da gente muda inteira, né? As leituras estão fluindo, talvez mais devagar do que o normal, mas o importante é ler. Além do mais, tenho um milhão de coisas do mestrado para resolver antes da minha licença maternidade. Por favor, torçam por mim — e rezem também, para quem acredita, hehe. 

Falando sobre o top comentarista: as regrinhas vocês já sabem de cor, mas não custa relembrar, né? Nos primórdios do blog, era obrigatório comentar em todas as postagens para não ser desclassificado do concurso, mas agora vocês são sorteados a partir dos comentários. Isso significa que não é obrigatório comentar em todos os posts: cada comentário que vocês fizerem devem ser cadastrados no formulário do Rafflecopter, que só aceita uma entrada por dia — recomendo que vocês comentem e preencham o formulário sempre que sair post novo, já que quanto mais comentários cadastrados, maior a chance de ganhar. Todos os meses um comentário será sorteado pelo aplicativo.

Atenção: só preencha o formulário nos dias em que comentar no blog. Por exemplo, se em determinado mês tiverem 13 posts, o número máximo de entradas que cada participante pode ter no formulário é 13! Outra coisinha: já tem alguns anos que o Rafflecopter não é mais responsivo, então acho que no computador a visualização fica melhor! Até pensei em fazer o formulário pelo Google, mas o sorteio é mais trabalhoso para mim. Quaisquer dúvidas, podem entrar em contato comigo no Twitter ou Instagram! 💖

O prêmio é um vale de trinta reais na Amazon! Ah, as chances extras continuam: comentar nos posts do Instagram e tweetar sobre o top todos os dias em que tiver postagem nova por aqui, então aproveitem! Caso tenha restado alguma dúvida, podem me procurar nas redes sociais, tá bom?

Observações
- O período de validade desse top comentarista é de 01/05/2024 à 31/05/2024. Cada comentário que vocês fizerem devem ser cadastrados no formulário do Rafflecopter, que só aceita uma entrada por dia.
Não serão computados comentários genéricos, só aqueles que exprimem a opinião do leitor e mostram que ele realmente leu o post. Comentários plagiados de outras plataformas (lembrem-se que plágio é crime) ou que se repetem em outros blogs não serão considerados. Comentários do tipo serão excluídos sem aviso prévio e o participante será automaticamente desclassificado;
- É permitido apenas um comentário por post;
- É obrigatório seguir o Roendo Livros via GFC e seguir o perfil @anadoroendo no Instagram para validar a participação;
- A entrada "tweet about de giveaway" só será válida se a pessoa estiver seguindo o Twitter informado (@anadoroendo);
- Após o término do top, o Roendo Livros tem até 15 dias para divulgar o resultado;
- O ganhador tem 48h para responder o e-mail com os dados de envio, caso contrário o sorteio será refeito. O livro escolhido (na faixa de preço estabelecida) deverá ser informado no corpo do e-mail;
- Após feito o contato, o prêmio será enviado dentro de até 60 dias úteis;
- Para o livro ser enviado, é necessário que o ganhador passe o número do CPF para a Ana, já que agora os Correios solicitam uma declaração de conteúdo (saiba mais aqui) Só participe do sorteio se estiver de acordo;
- O Roendo Livros não se responsabiliza por extravio ou atraso na entrega dos Correios, bem como danos causados no livro. Assim como não se responsabiliza por entrega não efetuada por motivos de endereço incorreto, fornecido pelo próprio ganhador, e ausência de recebedor. O livro não será enviado novamente;
- O Roendo Livros se reserva o direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.
- Este concurso é de caráter recreativo/cultural, conforme item II do artigo 3º da Lei 5.768 de 20/12/71 e dispensa autorização do Ministério da Fazenda e da Justiça, não está vinculada à compra e/ou aquisição de produtos e serviços e a participação é gratuita.
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25 de abril de 2024

Nós Dois Sozinhos no Éter, de Olivie Blake, e o fenômeno dos romances entre pessoas quebradas


Olivie Blake, que na verdade se chama Alexene Farol Follmuth, é mais conhecida pela trilogia dark academia A Sociedade de Atlas. Em Nós Dois Sozinhos no Éter, Olivie retorna com uma proposta diferente: à princípio, se trata de um romance, mas o principal tema abordado é saúde mental. A autora, diagnosticada com Transtorno Bipolar, colocou muito de seus sentimentos e experiências no livro, como ela mesma diz nos agradecimentos.

Mas vamos à história. Em Nós Dois Sozinhos no Éter somos apresentados a Aldo e Regan. Ele é doutorando e professor universitário de Matemática, fechado e não se importa muito com o que pensam dele, o tipo low profile, e sua mente vive ocupada com cálculos e abelhas. Ela é formada em história da arte, trabalha como guia em um museu e tem uma personalidade caótica. Ele é ordem. Ela é caos. Eles se conhecem por acaso e ficam curiosos. Decidem matar a curiosidade tendo seis encontros para conversarem e decifrarem um ao outro. As conversas entre eles são inteligentes, o vínculo que eles estabelecem é de dentro para fora e um acaba se apaixonando pela mente do outro.

Eu tive alguns problemas com esse livro, muitos deles já tinham sido questões incômodas em A Sociedade de Atlas: a linguagem juvenil, os personagens caricatos e a imaturidade das relações. Aldo e Regan conversam tanto, tanto, tanto, e nunca falam sobre o que realmente importa. Me irrita o desejo de ter conversas profundas sem falar sobre sentimentos e intenções. Me irrita a romantização de relações problemáticas baseadas na ideia de que é emocionante ver pessoas se destruindo. Vi muitas comparações desse livro com Pessoas Normais e Cleópatra e Frankenstein e concordo totalmente porque, pra mim, esses três livros retratam pessoas imaturas e destrutivas em relacionamentos imaturos e destrutivos e perpetuam a ideia de que relacionamentos conturbados são mais emocionantes e dignos de serem retratados em livros e filmes. Como resultado, temos uma multidão de pessoas que se entediam com seus relacionamentos saudáveis e acham que uma vida sem emoções intensas não é uma vida legal. Inclusive, Regan deixa isso bem evidente quando diz: "normal é uma forma bacana de descrever algo entediante"

Ver beleza na decadência parece ser uma tendência que vem sendo ressuscitada. Quem lembra do Tumblr? Aquele rede social onde parecia que todo mundo era emocionalmente ferrado, drogado e/ou potencialmente suicida. Esse livro tem a perfeita vibe Tumblr. Inclusive, existe uma música chamada Tumblr Girls, do rapper G-Easy que diz: "Porque eu sou apaixonado por essas meninas do Tumblr / Com cinturas finas e envolvimento com drogas / Rostos bonitos amam status, ela age como se fosse a mais foda". Parece a trilha sonora perfeita para esse livro.

Quando penso em Nós Dois Sozinhos no Éter só consigo pensar na seguinte frase: seria lindo se não fosse trágico. Porque Aldo e Regan são pessoas muito fragilizadas e incapazes, ao menos nesse momento, de construírem uma relação sólida e saudável. Na verdade, Regan já tem um relacionamento, com um namorado de merda péssimo, mas ela também é uma pessoa péssima. E não por seu diagnóstico. Regan, assim como a autora, tem Transtorno Bipolar. O livro retrata sua relação com os medicamentos e mostra suas consultas psiquiátricas. Eu, como psicóloga, lido com pessoas com Transtorno Bipolar frequentemente. O Transtorno Bipolar é um transtorno de humor, que causa alterações de humor intensas que vão da depressão à mania. Na fase de mania, as pessoas se tornam impulsivas e, por vezes, inconsequentes. Mas não é isso que torna Regan uma pessoa difícil. Regan é egoísta, auto destrutiva e vive de mentiras e aparência, odeia a irmã porque a irmã não fracassou tanto quanto ela e parece sentir prazer quando as pessoas se dão mal, porque assim ela se sente menos pior consigo mesma.

Relações problemáticas precisam ser retratadas na ficção e eu não estou contestando isso. Assim como não contesto o fato de que pessoas com problemas emocionais podem se relacionar e, não intencionalmente, podem transferir seus problemas para o relacionamento. Isso é absolutamente normal. Mas qual seria a forma correta de fazer isso? Porque esse livro se vende como "uma história sobre amar por inteiro, mesmo estando aos pedaços" e eu não poderia discordar mais. Tem um momento no livro em que Aldo faz um discurso sobre Regan ser uma pessoa difícil. O discurso é super romântico, profundo, meloso e claramente tenta reforçar essa premissa de que eles se amam por completo. Só que faz sentido amar algo no outro que está claramente destruindo aquela pessoa e tudo o que ela toca? Numa relação madura e saudável, a gente não ama os problemas do outro, a gente identifica esses problemas e ajuda a pessoa a lidar com eles. Eu não amo a depressão de alguém, eu amo essa pessoa e ajudo ela a lidar com esse problema que faz mal à ela. Esse discurso de amar por inteiro é super imaturo. Perceber que a pessoa é problemática e difícil, que está claramente se destruindo, que não consegue construir uma relação que preste e amá-la por isso chega a ser bizarro. Na teoria, o discurso de "você não precisa ser consertada" é muito bonito, mas, na vida real, pessoas precisam de tratamento para questões específicas se quiserem viver uma vida de qualidade. Ignorar isso (ou pior: romantizar) pode criar um problema muito maior e, às vezes, irreversível. Afinal, pessoas com Transtorno Bipolar estão entre o grupo de risco para suicídio. Pesquisas indicam que "entre 30% e 50% dos brasileiros portadores de transtorno bipolar tentam suicídio, sendo que 20% conseguem o objetivo". 

Os problemas que surgem no livro são "solucionados" de formas tão superficiais que a suspensão de descrença precisa ser muito grande. Desde vencer a dependência química porque "meu pai me pediu para parar" até parar de tomar medicamentos psiquiátricos sem supervisão médica e ficar bem. Tomar medicamentos psiquiátricos pode ser um desafio muito grande, os efeitos colaterais são muitos e alguns são realmente insustentáveis. Porém, quando um medicamento não está te fazendo bem, você conversa sobre isso com seu médico, coisa que Regan, obviamente, não faz.

É um livro com uma linguagem muito poética, diálogos interessantes e cheio de curiosidades. A escrita da autora é bastante notável e ela alterna diferentes estilos narrativos ao longo do livro. Há capítulos com narrador e capítulos sem, há capítulos que parecem um fluxo de consciência e há capítulos que são praticamente só diálogos. Foi interessante. Deu um ar caótico ao livro que combina com a história. Creio que funcionaria melhor para a minha versão 10 anos mais jovem. O fato de eu ter 30 anos e ser psicóloga, infelizmente, me impediu de apreciar totalmente essa leitura. Mas isso não significa que tenha sido uma completa perda de tempo. É uma leitura agradável, o afeto que Aldo e Regan sentem um pelo outro é realmente palpável. Senti falta de saber mais sobre o Aldo e sua família. As conversas entre Aldo e o pai são incríveis. Aldo também tem uma personalidade intrigante e também enfrenta seus próprios problemas, mas suas questões acabaram sendo soterradas pelas questões da Regan. A questão é: basta ter um pouquinho de senso crítico pra entender que a história possui pontos muito problemáticos que se agravam ainda mais quando pensamos que o público alvo desse livro são os jovens. 

É fácil se identificar com eles porque eles estão quebrados e quem não está? Ela é caótica, ele não tem habilidades sociais. Ela é impulsiva e se isola quando não está bem. Ele é esquisito e meio depressivo. É um clichê sentimental e, de um jeito ou de outro, pessoas vão se identificar. Na página 247, Aldo diz:

Às vezes sinto que só estou esperando por algo que nunca vai acontecer. Como se eu só estivesse existindo dia após dia, mas que nada jamais vai ter importância. Eu acordo de manhã porque preciso, porque tenho que fazer alguma coisa, senão sou só um zero à esquerda, ou porque, se eu não atender ao telefone, meu pai vai ficar sozinho. Mas é um esforço constante, é trabalhoso. Todo dia eu preciso dizer a mim mesmo para sair da cama. Levante-se, faça isso, se mexa assim, converse com as pessoas, seja normal, tente socializar, seja legal, tenha paciência. Por dentro só sinto, sei lá, um vazio. Como se eu não passasse de um algoritmo que alguém determinou.

É tão genérico que eu chuto que pelo menos 80% do planeta vai se identificar com essa fala em algum momento da vida. O que eu estou tentando dizer é que: sim, é fácil gostar desse livro porque são personagens fragilizados e emocionalmente vulneráveis. Só que, olhando mais de perto, é possível perceber uma série de problemas. E tudo bem se você não quiser "olhar mais de perto". O romance é arrebatador, o drama é tocante e os diálogos são inteligentes. O problema é que quando Regan diz: "você me deixa ser eu mesma, e eu gosto de você quando você é você mesmo. Por que isso é ruim?" eu tenho vontade de tacar o livro na parede e gritar: "PORQUE VOCÊ ESTÁ DOENTE"

O livro é dividido em 6 partes e eu preciso dizer que a partir da parte 5 o livro fica muito bom. O relacionamento dos dois acelera na mesma medida que os pensamentos e comportamentos de Regan vão ficando alarmantes (quem diria que isso poderia acontecer após ela parar os medicamentos sem supervisão médica, não é mesmo?!). É quando Aldo finalmente começa a perceber que existe um problema com Regan. A autora soube demonstrar muito bem como funciona um episódio de mania e, certamente, se utilizou de suas próprias experiências para isso. O final do livro pode ser decepcionante pra quem prefere finais mais fechados e conclusivos. No geral, achei o livro irresponsável. Mesmo que a autora tente explicar algumas coisas nos seus agradecimentos, ainda acho que a mensagem final é bem preocupante.

Enfim, como vocês podem perceber, eu tive uma relação complexa com essa leitura. Eu gostei do processo de leitura e li rápido porque queria saber o que iria acontecer. Mas passei boa parte do tempo preocupada e revoltada com o livro. Uma leitura rápida não necessariamente é uma boa leitura. Assim como demorar muito pra ler um livro não necessariamente significa que o livro é ruim. No fim, recomendo a leitura para quem ficou curioso. Não é um livro que eu indicaria para meus pacientes ou para quem está num momento difícil, emocionalmente falando, mas também não acho que seja um livro de todo ruim.

Título Original: Alone With You in the Ether ✦ Autora: Olivie Blake
Páginas: 336 ✦ Tradução: Carlos César da Silva ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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