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11 de setembro de 2023

Por que Somos Todos Adultos Aqui, de Emma Straub, não funcionou para mim?


Quem nunca pegou um livro de drama familiar, com uma sinopse bem atrativa, que tinha tudo para dar certo, e se deparou com uma história bem morna e nada marcante? Foi isso o que aconteceu comigo ao ler Somos Todos Adultos Aqui. O texto abaixo pode conter spoilers, uma vez que vou precisar contar alguns detalhes da narrativa para expor o meu ponto. 

Astrid Strick é uma senhora de 68 anos que vive em Clapham, uma cidade do interior onde todo mundo se conhece e é impossível segurar qualquer fofoca. É uma vida pacata, no fim das contas, já que seus filhos estão criados e ela não deve satisfação nenhuma a mais ninguém. Astrid só sente que deve mudar o rumo da sua vida após presenciar um acidente fatal, envolvendo uma conhecida. É só nesse momento que ela percebe, que, na realidade, sua vida é um verdadeiro caos. Por exemplo, ela nunca foi uma mãe amorosa, então não tem uma conexão real com nenhum dos filhos. Tanto que eles nem sabem que ela se apaixonou de novo, dessa vez por uma mulher! E ela também não sabe inúmeras coisas sobre eles.

E é basicamente esse o enredo de Somos Todos Adultos Aqui: uma mulher tentando mudar sua relação com os filhos depois de muitos anos, após perceber que pode morrer a qualquer momento. Claro que, para isso, aprendemos um pouco mais sobre cada um dos membros: Elliot é o filho mais velho, casado e com dois filhos pequenos, sempre se sentiu negligenciado pela mãe; Porter é a filha do meio, bem simplista, e depois de muitas decepções amorosas resolve ser mãe solo; Nicky é o caçula, vive em Nova York com a esposa e a filha e desistiu de uma promissora carreira de ator. São personagens simples, vivendo suas vidas igualmente simples.

A minha grande questão com esse livro é que nada acontece. Não existe nada arrebatador, nenhuma reviravolta, nada que faça com que seja uma leitura incrível. E acredito que esse seria o menor dos problemas, até porque nem tudo precisa de reviravolta, se os personagens não tivessem a profundidade de um pires. Os dramas individuais são muito comuns e até apáticos, diga-se de passagem. Não me afeiçoei a nenhum deles, com exceção, talvez, de Cecelia, filha de Nicky e neta de Astrid. O enredo envolvendo ela e uma amiga, uma personagem trans, foi a única coisa que me manteve presa a leitura e ainda assim não foi muito bem desenvolvida, ao meu ver. 

A realidade é que, como são pontos de vista de vários personagens, faltou desenvolver melhor cada um deles. Acho que até a questão principal desse livro, que são as relações familiares, não foi muito aprofundada. Acredito que o intuito de Somos Todos Adultos Aqui é mostrar um pedaço da vida de uma família, que pode ser como qualquer família que existe. Mas senti falta da resolução dos conflitos no final, ainda que não fossem muito complexos. As páginas passam de forma muito lenta e não levam a lugar nenhum, entendem?

Até agora não entendo o propósito real dessa história, não entendo aonde Emma Straub queria chegar. Por exemplo, Elliot é um babaca com a esposa e negligente com os filhos o livro inteiro e não deu indícios de mudança no final... Sem contar que é extramemente homofóbico, uma vez que não aceita o novo relacionamento da mãe. A Porter é uma mulher, grávida, a poucos meses de se tornar responsável por uma nova vida, mas totalmente inconsquente... O Nicky me parece o mais estável, ao mesmo tempo que não abandonou a juventude por completo. Eu sei lá, sabem? Será que são realmente todos adultos nesse livro? Será que o propósito desse título é ser irônico? O que é ser adulto, no fim das contas?

Eu não posso nem dizer que achei o livro ruim, porque simplesmente não senti nada lendo. Porque quando consideramos um livro ruim, sentimos pelo menos raiva ou certa indignação durante a leitura, mas eu realmente não senti NADA com Somos Todos Adultos Aqui, nada bom, nada ruim. É simplesmente uma história que, daqui um mês, vou ter apagado da minha mente por não ter um pingo de relevância, para o bem ou para o mal. Agora, para quem simplesmente gosta de acompanhar recortes do dia a dia de uma família, sem se importar exatamente com o rumo da história ou com a resolução de conflitos, a experiência pode ser completamente diferente. É pagar para ver!

Título Original: All Adults Here ✦ Autora: Emma Straub
Tradução: Camila von Holdefer ✦ Páginas: 350 ✦ Editora: TAG Experiências Literárias & HarperCollins

3 de março de 2023

Gostaria Que Você Estivesse Aqui, de Fernando Scheller, um retrato do Rio de Janeiro dos anos 80


Gostaria Que Você Estivesse Aqui é a primeira obra nacional enviada pela TAG Inéditos, em maio de 2021. Escrito pelo jornalista Fernando Scheller, o livro tem como ponto central a vida de cinco personagens que vivem no Rio de Janeiro durante a década de 80: Baby, Inácio, César, Selma e Rosalvo. Mesmo que indiretamente, a vida desses protagonistas acaba interligada por um ponto em comum, que é a Cidade Maravilhosa.

Os anos oitenta foram muito movimentados no Brasil, marcados principalmente pela instabilidade política. Com o fim da ditadura, o Rio de Janeiro foi palco de enormes acontecimentos históricos relevantes, como o movimento Diretas Já, que teve como objetivo a retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República. Outros marcos dessa década foram a aprovação da Constituição Federal de 1988 e finalmente as primeiras eleições diretas em 1989, resultado de muita luta popular. Além disso, o mundo inteiro passava por uma revolução musical, o que influenciou diretamente no cenário da música brasileira: o rock nacional começou a ganhar mais força. 

No meio de tantos marcos culturais, políticos e sociais, nosso país também foi alvo de uma das maiores epidemias mundiais, a da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida ou AIDS, doença causada pelo vírus HIV. Naquela época, era uma doença totalmente desconhecida, e ninguém poderia imaginar que infectaria mais de 75 milhões de pessoas e mataria cerca de 35 milhões. 

É nesse contexto que acompanhamos nossos protagonistas. Inácio e Baby são dois jovens com muitas expectativas para o futuro. Tudo o que Inácio quer é construir uma vida com a garota que, por sua vez, tem um forte desejo de buscar um sentido para a própria vida, algo diferente daquilo que esperam dela; nessa bagunça sentimental, Inácio conhece César, com quem constrói uma amizade muito forte. César está se descobrindo sexualmente, assunto que acabou sendo o estopim para o fim do casamento dos seus pais. Selma, portanto, além de ter que lidar com o divórcio, é obrigada a enfrentar o terrível diagnóstico que seu filho recebe. Rosalvo, por outro lado, é porteiro do prédio onde moram Selma e César, e está no Rio unicamente em busca de vingança por sua filha, uma mulher trans que foi assassinada por ser quem é.

Confesso para vocês que não esperava amar Gostaria Que Você Estivesse Aqui, mas foi o que aconteceu. É um livro muito bonito, mas igualmente triste e melancólico. A gente começa a leitura já sabendo mais ou menos o que vai acontecer, principalmente no arco do César, e por mais que não haja nenhuma reviravolta mirabolante, existe uma expectativa para o desfecho de cada um dos personagens. Além da história do César, que foi de longe minha favorita, gostei imensamente das partes sob o ponto de vista do Rosalvo. Para mim, esses dois personagens resumem o tema central do livro: a passagem do tempo, que é inevitável, e o que fazemos com ele. 

Uma coisa muitíssimo interessante sobre essa obra é que por mais que tenha sido construída sob o prisma de cinco pessoas, o real protagonista é o cenário. Apesar dos segmentos individuais, cada um com suas preocupações e desafios, todos foram influenciados por esses acontecimentos históricos que afetaram o Rio de Janeiro nos anos 80. Porém, não nego que, de certa maneira, o César é a peça central dessa trama, o elo que une todos os outros personagens. De uma forma ou de outra a história sempre volta para ele. 

É justamente sob essa perspectiva que consigo, apesar de ter amado demais essa narrativa, aceitar que a história de Rosalvo ficou muito deslocada no contexto do livro, uma vez que a única relação dele com o restante dos personagens é o fato dele trabalhar no prédio onde Selma e César moram, e existem pouquíssimas interações diretas entre eles. Dessa forma, por mais que eu ansiasse descobrir se o senhorzinho conseguiria cumprir sua missão, senti que as passagens dele quebraram um pouco o arco de César. Como eu disse anteriormente, por mais que acompanhássemos outros personagens e um pouco dos seus dilemas, o ponto central sempre foi o César. 

Da mesma forma, acredito que a Baby foi uma personagem muito mal aproveitada. Além de ter poucas passagens, ficou aquele sentimento de que ela foi apenas uma pessoa marcante na vida de Inácio, sabem? Uma garota que foi viver a vida dela, que nunca foi esquecida, mas que tampouco foi importante o suficiente. Isso porque, ao meu ver, a aventura a qual Baby buscava não foi desenvolvida da forma como merecia. Sim, ela tinha um desejo de ser diferente, mas o que ela poderia fazer para mudar seu destino de fato? No fim das contas, fiquei até me perguntando se Scheller só queria mesmo que a pesonagem se afastasse para provar que, por mais distantes que algumas pessoas estejam, elas sempre terão um lugar no nosso coração, sabem?

Também esperava ver mais dos acontecimentos históricos em si, principalmente os políticos, mas ao longo de toda narrativa eles não foram muito aprofundados. Fico pensando se isso foi proposital, uma vez que a maior parte dos personagens são pessoas da classe média/classe média alta e talvez isso influenciasse na visão que elas tinham sobre o que estava acontecendo no país. Nesse sentido também, senti bastante falta da representação da revolução musical: sim, existem referências musicais, mas nenhuma nacional de fato. 

É engraçado falar sobre esses pontos negativos, porque Gostaria Que Você Estivesse Aqui me conquistou de verdade, e isso se deu unicamente por causa do César. Fiquei tão envolvida com ele, com a história dele, que muito do que eu citei anteriormente parecereu insignificante quando finalizei a leitura. Foi muitíssimo interessante acompanhar como a AIDS chegou ao Brasil, o pânico que causava, como era vista como uma doença que afetava unicamente homens gays, todos os avanços a partir do momento em que a forma de transmissão foi descoberta... De pensar que, hoje, uma pessoa pode conviver com vírus HIV sem adquirir a doença a partir do tratamento com medicamentos antirretrovirais disponibilizados pelo SUS, né? 

De moro geral, acredito que é um livro que cumpre bem com seu propósito. Me emocionei em vários momentos, sofri antecipadamente com Selma e Inácio, torci por Rosalvo encontrar sua redenção, entendi as escolhas de Baby... Agora só me resta esperar a Globo comprar os direitos dessa história para fazer uma minissérie, tenho certeza que seria de total sucesso! 

Título Original: Gostaria Que Você Estivesse Aqui ✦ Autor: Fernando Scheller
Páginas: 320 ✦ Editora: TAG Experiências Literárias & HarperCollins

14 de julho de 2020

Fique Comigo | Ayòbámi Adébáyò


Recebi Fique Comigo, da autora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, na edição da TAG Experiências Literárias, que é bem bonita, por sinal. Aqui, somos apresentados ao casal Yejide e Akin. O mais curioso é que já nas primeiras páginas sabemos que eles não estão mais juntos, o que deixa o leitor intrigado logo de cara: obviamente queremos saber o que deu errado na vida deles. A história mescla passado e presente, sob o ponto de vista dos dois personagens principais, costurando uma rede de acontecimentos que culminaram para o colapso do casamento. Antes de começar a falar de fato sobre o livro, gostaria de dizer que provavelmente essa resenha conterá vários spoilers, mas vários mesmo; se você deseja ler essa obra futuramente, não leia esse texto.

É muito difícil falar sobre Fique Comigo sem citar certos acontecimentos da trama para explicar o que acontece. De início vocês precisam saber que Yejide e Akin são casados há quatro anos e seriam muito felizes não fosse a falta de filhos. Não sei se vocês sabem, mas na Nigéria há uma crença muito forte de que um casamento não é completo sem filhos (não só na Nigéria, é claro, até aqui no Brasil muitas pessoas acreditam que uma vida a dois não é completa sem filhos). A cobrança vem de todos os lados, principalmente pela mãe de Akin, afinal, ele é o primogênito da família e ainda não conseguiu dar continuidade à sua linhagem. O fato de seu irmão mais novo já ter vários filhos piora muito a situação. A cobrança em cima de Yejide é diferente e ainda maior, já que uma mulher só é completa se for mãe:

— Você já viu Deus em uma sala de parto parindo um bebê? Diga-me, Yejide, já viu Deus na maternidade? As mulheres fabricam crianças, e se você não consegue fazer isso então não passa de um homem. Ninguém devia chamá-la de mulher.

De início, não sabemos exatamente o porquê de Yejide não conseguir engravidar, mas acompanhamos o seu sofrimento, a culpa que ela mesma sente, a culpa que depositam nela, e sofremos junto. As coisas pioram drasticamente quando insistem para que Akin adote um casamento poligâmico e se relacione com uma segunda mulher, que viria ser a sua segunda esposa. E, de fato, ele cede a pressão e se casa com Funmi, escolhida unicamente para parir o primogênito de Akin. Eis um dos primeiros tapas na cara que levamos: se um casal não consegue ter filhos, obviamente o problema é, e só pode ser, a mulher. É claro que se outra mulher fosse introduzida na história, o problema seria resolvido. Ninguém se importa com os sentimentos de Yejide ou se ela realmente quer se tornar mãe. 

E, de fato, o maior desejo de Yejide é ser mãe. Não consegui identificar exatamente se essa vontade parte realmente dela ou se é um reflexo da cobrança da família e da sociedade, mas ela deseja tanto ser mãe que passa por um período conturbado de gravidez psicológica — se ela ficasse grávida primeiro, Akin poderia se livrar de Funmi. É importante ressaltar que Yejide não concorda com a poligamia, algo que ela deixou claro desde o início de seu relacionamento. No meio desse contexto da falsa gravidez e da traição do marido, várias coisas obscuras acontecem e nossa protagonista realmente fica grávida enquanto Funmi permanece "vazia"

Apesar de ser uma notícia que traz alegria, se engana quem acha que o sofrimento de Yejide acaba por aí. Agora, mais do que nunca, o papel da protagonista é ser uma mãe perfeita, aquela que vive em função dos filhos e não deixa nada de mal acontecer com eles. Já sentia que Fique Comigo seria um dos livros mais triste que li na vida, mas eu não estava preparada verdadeiramente para o que aconteceu em seguida: a bebezinha morre antes de completar seis meses de vida, e não existe uma resposta para essa partida repentina. A pista surge pouco tempo depois, quando Yejide perde seu segundo filho para uma doença hereditária chamada anemia falciforme.

Uma mãe deve estar vigilante. [...] Uma mãe não pode ter a visão embaçada. Deve notar se o lamento de seu bebê é muito alto ou muito baixo. Deve saber se a temperatura da criança aumentou ou caiu. Uma mãe não pode deixar passar nenhum sinal. Ainda tenho certeza de que deixei passar sinais importantes. 

Além de estar sofrendo muito em seu casamento, Yejide ainda tem que lidar com a culpa de perder os filhos tão precocemente. No meio disso tudo, a mãe de Akin passa a acreditar que a nora foi destinada a ter filhos abiku, crianças que, no mundo espiritual, escolhem ter uma passagem curta pela Terra. Aos poucos vamos desvendando os mistérios por trás da doença e detalhes das circunstâncias que levaram Yejide a engravidar. Eu fiquei particularmente chocada, principalmente porque é nítido que Akin escolheu deixar a mulher sofrer sozinha!

Não acho que Fique Comigo seja um livro exclusivamente sobre maternidade ou o papel da mulher no contexto social inserido pela autora. Vai muito além disso. Acho que retrata bem mais a delicadeza das relações humanas. Acima disso, acredito que o foco desse livro são as perdas, como lidar com elas e como elas afetam nosso futuro, nossas decisões.

Título Original: Stay With Me Autora: Ayòbámi Adébáyò ✦ Páginas: 256
Tradução: Marina Vargas  ✦ Editora: Harper Collins & TAG Experiências Literárias