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6 de janeiro de 2026

Nós Já Moramos Aqui, de Marcus Kliewer: o que eu achei do livro que vem dividindo opniões

Nós Já Moramos Aqui é um thriller psicológico com elementos de terror. Livro de estreia do canadense Marcus Kliewer, a história tem uma origem bem interessante: começou como um conto postado num fórum do Reddit, onde o autor podia dialogar diretamente com uma comunidade ávida por narrativas macabras. O impacto foi tão grande que o conto se transformou em livro e, não muito tempo depois, chamou a atenção da Netflix, que adquiriu os direitos para adaptá-lo em filme. A adaptação já conta com a atriz Blake Lively confirmada no elenco e já possui uma base sólida de fãs e entusiastas.

Logo de início, Nós Já Moramos Aqui mergulha o leitor em um clima de estranhamento absoluto. A premissa acompanha um casal de mulheres que trabalha comprando casas antigas, reformando e revendendo, até que uma dessas casas se torna o centro de uma experiência perturbadora. Quando a protagonista recebe, sozinha, a visita inesperada de uma família cujo pai afirma ter vivido ali na infância, o que parecia um momento inocente rapidamente se transforma em algo inquietante.

Imagine estar sozinha na sua casa quando uma família bate à porta pedindo para entrar. O pai, muito simpático e compreensivo, diz que vai entender se você não aceitar, mas que ele gostaria muito de mostrar a casa em que ele viveu na infância para sua esposa e filhos. Você, uma pessoa tímida, insegura, ansiosa e com uma tremenda dificuldade em impor limites, acaba aceitando. A partir daí, nada nunca mais será o mesmo.

A palavra que melhor define esse livro é: perturbador. Mas também poderia ser: estranho. Esquisito. Inquietante. Desconfortável. Enfim, é um daqueles livros que nos deixam com uma sensação estranha de "Eu não sei exatamente porque, mas algo está muito errado". A família que só queria visitar a casa simplesmente não vai embora. Sempre há uma desculpa nova para permanecer um pouco mais. E essa permanência forçada cria uma sensação crescente de invasão, ansiedade e impotência, tanto para a protagonista quanto para o leitor.

Eu, uma pessoa introspectiva, introvertida e que amo ficar sozinha em casa, não consegui não roer as unhas enquanto lia o livro e me imaginava vivendo esse pesadelo. O comportamento da família é estranho, mas nada que seja explicitamente errado ou desrespeitoso. Mesmo assim, tudo parece deslocado e fora do eixo. E vai ficando cada vez pior, quando coisas realmente assustadoras e inexplicáveis começam a acontecer. É mais uma história que vai te fazer questionar: a protagonista é maluca ou essas coisas estão realmente acontecendo?

E por falar na protagonista, Eve, uma das coisas que o livro faz muito bem logo de início é apresentá-la de forma humana e identificável. Já no primeiro capítulo entendemos que tipo de personagem iremos acompanhar: uma mulher ansiosa, insegura, tímida, claramente introspectiva e muito reclusa. Ela é do tipo que valoriza profundamente seu espaço e qualquer invasão gera desconforto quase imediato. Quando a família aparece na porta pedindo para entrar, ela não quer que eles entrem, mas, ao mesmo tempo, ela não encontra em si a firmeza necessária para dizer "não". É uma personagem que frequentemente usa a namorada, Charlie, como escudo social. E nesse momento, sem Charlie, ela fica vulnerável, exposta, e acaba cedendo.

Outro detalhe que aprofunda ainda mais essa construção da personagem é a presença de uma “voz” interna, que ela chama de Mo, e que podemos compreender como a personificação da sua própria ansiedade. Essa estratégia narrativa é interessante porque deixa claro, sem precisar explicar demais, de onde vêm as inseguranças e os medos dela. Essa voz está sempre lhe dizendo que coisas ruins vão acontecer, assustando-a ainda mais.

A ambientação do livro também merece destaque, porque é construída de maneira tão precisa que o leitor começa a sentir o estranhamento antes mesmo de qualquer acontecimento abertamente bizarro. Mesmo nas primeiras interações, quando teoricamente nada de errado está acontecendo, já existe um desconforto no ar. E isso é tão bem trabalhado que fica fácil imaginar a adaptação para o cinema: toda essa atmosfera inquietante, esse ar pesado e esquisito, tem um potencial enorme para funcionar visualmente, porque grande parte do horror do livro não está nos acontecimentos, mas na sensação constante de que algo está errado, mesmo quando não conseguimos apontar exatamente o quê. Objetos que somem, caracteristicas da casa que mudam de uma hora para outra, a sensação de estar sendo observada, pessoas se comportando de formas estranhíssimas... Tudo parece simplesmente errado, muito errado. Isso sem falar nos jump scares que o livro trás e que eu mal posso esperar para ver na TV.

É engraçado porque esse livro pode ser tanto sobre problemas mentais, quanto sobre fantasmas. Mas também pode ser sobre universos paralelos ou sobre alienígenas. Se preferir, pode ser sobre portais multidimensionais ou sobre entidades malignas. Tudo vai depender da sua interpretação. Existe, claro, uma interpretação que é a mais aceita pelos leitores, mas nada impede que você interprete como quiser.

Apesar desses pontos positivos, Nós Já Moramos Aqui não funcionou TÃO bem assim pra mim como eu vi que funcionou para algumas pessoas. Ao invés de achá-lo apenas genial, eu o achei um pouco cansativo em alguns momentos Em partes, isso pode se dar porque a história era, originalmente, um conto, e o autor precisou deixá-la maior para que se tornasse um romance. Além disso, entre os capítulos, o livro apresenta textos aparentemente aleatórios, mas que se conectam à história principal. Esses textos só farão sentido ao final do livro, o que é bastante interessante. Mas, no processo de leitura em si, é meio chato essas interrupções e eu precisei resistir bastante ao desejo de pular esses trechos.

Eu gosto de histórias malucas, sinistras e que estimulam a criação de teorias entre os leitores. Inclusive, esse livro me lembrou muito um dos meus livros preferidos: Eu Estou Pensando em Acabar Com Tudo. Fazia muito tempo que eu não lia um livro que me deixasse intrigada e confusa dessa forma. Porém, Nós Já Moramos Aqui deixa muitas pontas soltas e não entrega respostas claras, o que faz parte da experiência, mas também pode deixar a sensação de que algo ficou inacabado. Eu entendo a intenção, mas ainda assim senti falta de um fechamento um pouco mais coeso. Além disso, há coisas que são inseridas no livro apenas para criar dificuldades, mas sem nenhuma justificativa plausível. Como, por exemplo, a inserção de frases em código morse, sendo que a história não tem absolutamente nada a ver com isso. A impressão que dá é que é só pra parecer mais inteligente, sem necessariamente ser.

Mas, deixando claro: eu gostei do livro!!! Gostei da experência de leitura e gostei mais ainda do pós-leitura, quando pesquisei resenhas, opniões e teorias de outros leitores. Inclusive, acho que pra esse livro funcionar bem e atingir todo o seu potêncial, ele deve ser lido e debatido coletivamente. A leitura por si só pode ser legal, mas criar, compartilhar e debater teorias é a melhor parte.

No geral, Nós Já Moramos Aqui é um livro que vale a pena principalmente pela experiência de leitura: tensa, angustiante e cheia de estranhamentos. Não é um livro que entrega respostas, mas entrega muitas sensações. E para certas leituras, especialmente as compartilhadas, isso já é o suficiente.

Título Original: We Used To Live Here ✦ Autor: Marcus Kliewer ✦ Páginas: 320
 Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora

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