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15 de fevereiro de 2025

A Ladra Amaldiçoada, de Margaret Owen: um "conto de fadas" ao contrário


Eu escolhi A Ladra Amaldiçoada de Margaret Owen a dedo, porque apesar de ser uma fantasia juvenil, não é um conto de fadas. Fiquei interessada nessa história justamente por contar o outro lado da história, a que não é tão bonitinha e que nem sempre tem um final feliz. Vanja é uma garota que foi abandonada pela própria mãe aos quatro anos de idade e foi apadrinhada por duas deusas, a Morte e a Fortuna. Aos treze anos ela teve que decidir qual das duas servir, mas não quis escolher nenhum dos dois caminhos. 

10 de fevereiro de 2025

Chuvas Esparsas, um livro de contos de amor da autora Rainbow Rowell

Olha ela, voltando com mais um livro de contos! 2024 foi o ano deles aqui na minha estante. E vou confessar que adorei, já que passei por meses difíceis e empaquei na leitura em diversos momentos. Contos são sempre mais fáceis de ler, e aqui está um livro que é muito fofo e divertido.

Chuvas Esparsas é uma coletânea com nove contos de amor, da autora Rainbow Rowell. É aquele tipo de livro que você não precisa ler de uma vez. Como pessoa trevosa que sou, gosto muito dos livros de suspense e terror, mas às vezes gosto de pegar algo mais suave para poder aquecer meu coraçãozinho trevoso. Como ele vem pela Seguinte, vocês já devem imaginar que são coisas mais leves e jovens mesmo. Temos conto com temática de Natal (um que inclusive é com o Simon e Baz, da famosa trilogia Simon Snow), amigos para amantes, medos e inseguranças adolescentes.

Para mim, o melhor conto é Músicas para esquecer um ex de merda KKKKKKKKK. Gente, esse foi tudo mesmo, tanto que preciso dar uma contextualizada. Summer termina seu relacionamento com Charlie, mas só porque ela sabia que ele já estava pensando nisso. Eles passaram a brigar muito e o fim era inevitável. O que acontece é que ela ter terminado seu namoro não a deixou menos triste e foi assim que ela se enfiou em um looping de "Silent All These Years", uma música mais triste ainda, que mexia com ela profundamente. Ouvia a voz de Tori Amos no seu dormitório da faculdade todos os dias. Quando acordava, depois que voltava das suas aulas, até durante seus estudos. Mas sabia que uma hora teria que parar com isso. Ela só não imaginou que seu vizinho de dormitório, Benji, um amante de músicas, pediria pelo amor de deus para que ela deixasse ao menos ele escolher as músicas desse "velório" já que ele teria que participar de maneira involuntária. E aí eu imagino que vocês saibam onde isso vai dar.

Acredito que essa tenha sido a primeira vez que eu li alguma coisa da Rainbow Rowell, já que eu passei a leitura de Eleanor & Park e não quis começar ainda a série Simon Snow (pois só tenho o primeiro volume), mas já posso dizer que gostei de como ela escreve. É uma autora que parece se voltar bastante para o público jovem, então sua escrita não tem a pretensão de mover montanhas ou ser super marcante, mas ainda assim é legal. Fora que ela faz uma coisa que eu gosto muito que é acrescentar coisas da cultura pop que a gente gosta e conhece, para ambientar e trazer o leitor ainda mais para a história. Claro que vi alguns probleminhas aqui e ali, como em um conto em que uma personagem é questionada sobre sua vestimenta, já que estão dando em cima dela... Nem preciso falar sobre o que eu acho disso né.

E agora chegou a hora de realmente reclamar sobre uma coisa. A diagramação dele me incomodou bastante. Sem querer ser chata, mas a letra ser rosa me atrapalhou um pouco e eu tive que dar um tempinho da leitura às vezes, ou dar continuidade no Kindle, por ser mais complicado de enxergar. Entendo a proposta, mas eu preferia que a letra fosse preta. Poxa, me ajuda dona Seguinte. Mas o resto ficou muito fofo e inclusive queria deixar claro que amei as ilustrações, são lindas ♥️

De modo geral, achei que ele tem um climinha de festinhas de fim de ano, ainda que nem todos os contos sejam necessariamente sobre essas datas. Um livro leve, divertido e sem pretensões, mas que vai te deixar feliz no final.

Título Original: Scattered Showers: stories ✦ Autor: Rainbow Rowell
Páginas: 304 ✦ Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

12 de janeiro de 2025

Os Sussurros, de Ashely Audrain, um thriller sobre maternidade, sonhos e desilusões


Apesar de viverem na mesma vizinhança, Mara, Rebecca, Blair e Whitney são quatro mulheres muito diferentes.
Mara já tem certa idade, é imigrante, perdeu tanto o filho quanto o marido e se vê sozinha e sem rumo. Rebecca é uma médica jovem, que gosta muito da sua vida até ficar obcecada por ter um bebê — coisa que não consegue. Blair largou orgulhosamente tudo para cuidar de sua filha, seu marido e sua casa, mas descobre que está sendo traída e seu mundo está prestes a desmoronar. Whitney tem a vida perfeita, a casa perfeita, marido perfeito, emprego perfeito e filhos... Que ela não queria ter.

Tudo muda quando o filho mais velho de Whitney, Xavier, sofre um grave acidente no meio da noite, caindo da janela de seu quarto no segundo andar da casa. Ela vai até o hospital com ele, mas se recusa a falar com qualquer pessoa sobre o ocorrido. No dia do acidente seu marido estava viajando e já que Xavier entra em coma, não existe outra versão da história. Sendo assim, ela passa a ser vigiada de perto por Blair, sua melhor amiga, Mara, sua vizinha e Rebecca, a médica que está desesperada pela vida de Xavier, até mais do que a própria Whitney.

É assim que vemos que a vida dessas mulheres está longe de ser perfeita, que as coisas estão se arruinando e elas preferem a todo custo viver de aparências e faz-de-conta. Mas até quando?

Confesso que solicitei esse livro pela capa e também pela história que me parecia bastante interessante. Não quero dizer que eu estava enganada, pois achei a escrita de Audrain muito boa. Ela vai desenvolvendo as quatro personagens principais de maneiras separadas, mas que mesmo assim se entrelaçam por causa do acidente, de uma maneira muito inteligente. Por isso acredito que o livro tenha sido ótimo para muitas pessoas, não existem mocinhos ou vilões, apenas pessoas falhas, como todos nós. Mas infelizmente não foi a melhor leitura do meu ano. Longe disso.

A história gira em torno de questões como maternidade, família, drama, inveja, amizade e desilusões. Acho que esse é o grande motivo para eu não ter achado um livro incrível. Como eu disse, a autora sabe escrever suas personagens e sua história, mas eu pouco me identifico com o tema maternidade, já que é um assunto que não faz parte da minha vida (e nem pretendo), onde as protagonistas são mães (ou querem ser, ou são e não querem — e as implicações disso) e as grandes questões giram em torno disso. Então as circunstâncias que essas mulheres se enfiam beiram ao absurdo para mim. Fora que achei o final um tanto corrido e meio previsível também. Nos últimos capítulos você já consegue ter certeza absoluta do que aconteceu naquela noite.

Acredito que Os Sussurros é um livro que possa funcionar caso você se interesse por esses assuntos que citei. Inclusive, podem usar o mesmo raciocínio para o outro livro da autora, O Impulso. Lembrando também que é um livro pesado, classificação adulta, pois além do acidente, existem cenas +18. Honestamente, é um livro que até curti mas que não manterei na minha estante.

Título Original: The Whispers: A Novel ✦ Autora: Ashely Audrain
Páginas: 352 ✦ Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Paralela
Livro recebido em parceria com a editora

8 de janeiro de 2025

Conectadas, de Clara Alves, continua sendo o queridinho do momento mesmo após anos do seu lançamento


Para comemorar os 5 anos do lançamento de Conectadas da Clara Alves, a editora Seguinte produziu uma edição belíssima e nos enviou. Com capa dura, guardas ilustradas, laterais coloridas e um trabalho incrível de diagramação, esse é o queridinho do momento (de novo). Mas se você não faz ideia do que se trata essa história, vem que eu te conto um pouquinho!

Raíssa e Ayla são duas garotas apaixonadas por games e é exatamente isso que as conecta. Através de Feéricos, um dos jogos mais populares do momento, as duas se tornam amigas e não se desgrudam mais. Acontece que elas passam tanto tempo juntas (mesmo que online) que a amizade se transforma em paixão. Mas existe um pequeno grande problema nessa história toda... Raíssa finge ser um garoto dentro do jogo, então Ayla não faz ideia de que ela conversa esse tempo todo com uma menina.

Raíssa não quer perder a menina que ama, mas também não se sente pronta pra contar tudo. Não é tão ruim, afinal, elas não moram na mesma cidade... A probabilidade de ser encontrarem pessoalmente é baixa, certo? Errado! Uma feira de Feéricos está prestes a acontecer em São Paulo e é aí que as coisas complicam de vez, pois é o lugar perfeito para esse encontro rolar.

Deve ser horrível ter que fingir ser outra pessoa pra poder ficar perto de quem você ama. Mas acho que deve ser ainda pior não poder estar perto dela — p. 285

O livro é dividido em dois pontos de vista intercalados, de Ayla e Raíssa, é claro. Uma coisa que achei muito divertida também é que temos os chats das conversas ali, e não só transcrições. Eu não tive acesso à primeira edição, então me diverti bastante com essa! Adoro quando o livro tem esse tipo de coisas inseridas (embora eu saiba que tem gente que detesta HAHAHA).

Então essa é uma história de amizade, amor, descobertas, expectativas, representatividade LGBTQIAP+ e tudo isso dentro do universo adolescente. Sinto que é uma obra muito importante para essa geração, já que no meu tempo (véia) a gente não imaginava se ver representado como protagonista em obra alguma. Como uma pessoa da comunidade me senti abraçada, achei um livro fofo de mais.

Uma das coisas mais difíceis de ser LGBTQIAP+ (dentre outras milhares de coisas muito difíceis) é lidar com o fato de que você vai precisar se assumir mais de uma vez.
Na verdade você vai precisar se assumir todos os dias.
O tempo todo.
Para várias pessoas.
E as vezes — muitas vezes — você vai precisar se esconder — p. 313

Ressalto aqui a importância também de enaltecermos autores brasileiros. Costumo trazer muitos autores de fora nas minhas resenhas, mas tenho cada vez mais tentado ser uma leitora mais consciente e engajada com meu próprio país. Por isso vou deixar aqui mais duas autoras brasileiras que eu amo e escrevem nessa pegada de histórias adolescentes: Iris Figueiredo (que conheci pessoalmente no encontrinho de autores que a Companhia das Letras promoveu em 2022) e Gih Alves que vai do romance ao horror <3

Título Original: Conectadas ✦ Autora: Clara Alves
Páginas: 352 ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
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29 de outubro de 2024

Stephen King, Mais Sombrio do que nunca!


Olha só quem chegou para falar do mestre do terror de novo? Logicamente que a mais doida desse blog hehe 🖤, nesse mês que eu tanto amo. Hoje é dia de falar sobre um livro de contos do autor, coisa que não é muito comum de eu trazer aqui.

Mais Sombrio do Stephen King está fresquinho, pois acabou de ser lançado tanto lá fora quanto aqui no Brasil, e acho que não existe nada melhor para comemorar o aniversário do mestre. Vocês têm noção que esse senhor tem 77 anos e publica livros há 50? Apesar de eu amar obras clássicas do autor como Carrie, seu primeiro livro, e O Iluminado, tenho que destacar seus contos que são tão incríveis quanto.

Nesta nova coletânea temos doze contos, sendo que cinco deles são inéditos (incluindo Cascavéis, que é a sequencia direta de Cujo, que também é um clássico do SK). Algumas histórias não têm nem dez páginas, enquanto outras passam das oitenta, e mesmo assim todas possuem reviravoltas e abordam diversos temas que são a cara do autor, entre eles alienígenas, fantasmas, animais selvagens e é claro, o pior monstro de todos: o ser humano.

E vou dizer pra vocês que quando eu achava que não podia me surpreender mais com o sujeito, ele vai e escreve Dois fio da mãe talentosos e mostra porque é meu autor favorito. Essa é uma das histórias inéditas do livro, a que abre a coletânea, e fala sobre dois amigos do interior do Maine, que tinham vidas ordinárias, eram perfeitamente normais, mas que simplesmente se tornaram um escritor de sucesso e um artista renomado, depois de uma viagem de caça em 1978. O que será que pode ter acontecido? Vocês sabem que leio muito King e mesmo assim nunca mais vou esquecer essa história, então já deu para sentir onde estamos pisando aqui.

Outra história incrível que gostaria de mencionar (e também a maior, com 160 páginas) é O sonho ruim de Danny Coughlin, que é um cara legal, mas simples e bem comum. Um dia Danny sonha com um assassinato e se vê envolvido na investigação do caso. Mas não foi ele quem cometeu o crime, ele só sabia exatamente onde o corpo estava, certo? É a partir daí que sua vida muda completamente. Esse aqui poderia totalmente virar uma mini-série, adoraria ver isso na minha tevê.

Ah! Vale lembrar que aqui temos spoilers de Cujo e Duma Key hein? Para quem quiser ler essas duas obras antes, eu recomendo que pule o conto Cascavéis. Além disso, é claro que temos menção a Derry, Castle Rock e outras coisinhas mais, mas sem spoilers de nenhuma outra obra. E também por ser um livro de contos acho que pode ser uma boa porta de entrada para o universo do King. Adoro a opção de poder escolher qualquer história para começar e poder parar quando quiser também!

Enfim, mais uma leitura icônica do mestre do terror, ótima para o clima de Halloween que outubro nos trás. Ouso dizer que é um dos livros mais macabros do mestre, do jeitinho que a gente gosta! Como ele mesmo disse nos agradecimentos: "Você prefere tudo mais sombrio? Tudo bem. Eu também, e isto me torna o seu irmão de alma".

Título Original: You Like it Darker ✦ Autor: Stephen King
Páginas: 526 ✦ Tradução: Regiane Winarski ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora

8 de outubro de 2024

A belíssima nova edição de O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, de Tim Burton


Acho que essa é a melhor época para falar sobre a edição bilíngue de O triste fim do pequeno Menino Ostra e outras histórias por aqui. Isso porque estamos no melhor mês do ano, mas também porque essa edição é belíssima e perfeita para o Halloween.

Para os que não sabem, Tim Burton não é apenas cineasta, produtor, animador e roteirista, mas também é escritor e ilustrador. E, aliás, grande parte das suas obras que não viraram filme roda o mundo em uma exposição chamada O Mundo de Tim Burton, onde todo seu trabalho é explorado, desde a infância, com desenhos e esculturas inclusos. Ou seja: existe muita coisa que Tim produziu durante sua vida e que o público geral passou a conhecer através da exposição. Dentre elas, o Pequeno Menino Ostra e outros personagens que já ditam o tom do que viria futuramente nos trabalhos de Burton.

Em O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra somos apresentados a poemas e histórias curtas, muito esquisitas, com personagens estranhos e que mesmo assim conseguem gerar uma identificação e calorzinho no peito. O Menino Ostra, a Garota fósforo (minha favorita) e a Rainha Alfineteira são apenas alguns dos personagens desse livro e posso dizer com tranquilidade que se não fossem eles, tudo que conhecemos de Tim Burton não existiria. 

Não quero falar muito sobre as histórias em si, pois são muito curtinhas e seriam grandes spoilers hehe você vai ter que ler pra saber dessa vez. E não se engane! Apesar de conter as ilustrações originais e parecer ser mais infantil, não é. As histórias podem parecer bobas, mas não são. Na realidade, sinto que todas as coisas produzidas por Tim Burton são bem mais profundas do que aparentam.

O sarcasmo, a genialidade, sensibilidade, estranheza e tom sombrio dessa obra conseguem tocar nosso coração, assim como outras tantas obras do autor que conhecemos. Vai dizer que você não se emocionou nem um pouquinho com Edward Mãos de Tesoura, não deu risada com Beetlejuice e Lydia e não quis entrar na Fantástica Fábrica de Chocolates? E é exatamente esse sentimento que temos ao ler esse livro, estranho e incomum, mas que ainda assim transmite aceitação e amor, do jeito que só Tim Burton consegue fazer.

E por fim eu não poderia deixar de comentar da estética desse livro né? Para nossa felicidade, a editora Seguinte nos presenteou com essa edição, pois como eu disse, ela está perfeita! O corte tem uma pintura linda, o livro tem capa dura, gramatura excelente, a diagramação ficou um xuxuzinho e digna das ilustrações (agora coloridas) de Burton. Além de tudo é bilíngue, deixou a tradutora aqui feliz pra caramba!

Enfim, mais um livro que vai ser uma joia na minha estante, não só por ser bonito, mas por mexer diretamente com meu coraçãozinho trevoso.

Título Original: The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories ✦ Autor: Tim Burton
Páginas: 144 ✦ Tradução: Márcio Suzuki ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

17 de maio de 2024

A Última Casa da Rua Needless, de Catriona Ward, é um dos 50 melhores livros de terror de todos os tempos?


Didi perdeu sua irmã Lulu muito cedo. Era um dia de verão muito quente a beira do lago lotado e Lulu estava incomodando a irmã mais velha, que decidiu sair sem ela e sem a supervisão dos pais, para um mergulho. Ao voltar para seu lugar, Didi descobre que a irmã tinha sumido e foi aí que tudo começou a desandar. Ela entendeu que não veria mais a caçula naquele dia — ou em dia nenhum — e não sabia como podia ajudar. Foi assim que Didi cresceu, procurando pela irmã incansavelmente, sozinha, mas sem nunca perder as esperanças.

É aí que um dia ela dá de cara com uma pista inacreditável. Ted Bannerman era o suspeito número um e ela sabia disso, mas parece que a polícia tinha resolvido ignorar que tudo nele gritava culpado. Por isso ela resolve se mudar para a casa do lado de Ted e investigar ela mesma. Quando tudo estiver resolvido ela vai chamar a polícia e essa história vai ter um final feliz. Didi vai poder abraçar a irmã que com certeza está viva, esperando por sua ajuda.

Em paralelo Ted vive com sua filha Lauren (uma menina muito problemática, que vive agredindo o pai) e sua gata Olívia. É um cara sozinho, que bebe demais, vive esquecendo das coisas e parece cada dia mais debilitado. Depois de ter sido considerado suspeito no desaparecimento de Lulu, sua vida virou de cabeça para baixo. Sua casa na Rua Needless começou a ser alvo de pessoas raivosas que não aceitavam que ele havia sido inocentado. Ele passou a se esconder, colocou tábuas nas janelas e depois disso era raramente visto a luz do dia, do lado de fora.

Temos também a visão de Olívia, a gata de Ted. Ela é apenas o animal de estimação, mas que ama seu dono incondicionalmente, e começa a perceber que alguma coisa não está certa. Através de Olívia nós entendemos um pouco mais da dinâmica da casa, de como Ted era com os pais que se foram, do relacionamento extremamente tóxico de Ted com sua filha e começamos a sentir que o quebra-cabeças está sendo formado.

Sim, nós temos a visão de um gato nesse livro, o que já achei incrível, para dizer o mínimo. Os três principais narradores da história são Didi, Ted e Olívia e assim vamos costurando os retalhos da história, tentando encaixar as coisas aos pouquinhos. Seria Ted realmente o culpado? Lulu está viva? Didi vai ter sucesso nessa caçada? O pior mesmo é que essas perguntas são o começo do iceberg, que se mostra muito mais fundo do que qualquer um é capaz de prever.

Esse foi um livro que comprei no escuro, não sabia do que se tratava, apenas de que era de terror. Ao folhear inclusive você já vê muitos elogios e depoimentos, o que para mim já grita red flag. Afinal, penso que algo que precisa se promover tanto, pode não ser tão bom no final. E eu estava redondamente enganada! Que livro incrível!

Não consigo falar muito sobre o desenvolvimento da história porque qualquer coisa a mais seria um baita spoiler, mas eu já adianto que até uns 80% do livro você acha que sacou o que está acontecendo, mas nos 45 do segundo tempo a autora consegue te tapear. Acredite se quiser, a resolução pode ser chocante e ir contra tudo que você formulou durante a leitura.

Definitivamente pode não ser um dos melhores livros de terror do mundo, principalmente se você for como eu, calejada no gênero, mas com certeza vou manter na minha estante e vou panfletar com todas as forças, até para os não amantes do terror.

Título Original: The Last House on Needless Street ✦ Autor: Catriona Ward
Páginas: 352 ✦ Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta ✦ Editora: Jangada
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13 de maio de 2024

Para Toda a Eternidade, de Caitlin Doughty, ou um breve manual de como a morte é retratada pelo mundo


Caitlin Doughty é uma blogueira, podcaster e escritora, que por um acaso é também uma agente funerária muito famosa não só lá nos Estados Unidos, mas também ao redor do globo. Tive a oportunidade de conhecer essa mulher incrível em 2019, quando ela esteve aqui lançando Para Toda a Eternidade (e você pode ler sobre um pouquinho desse dia aqui, foi muito legal).

Também da autora:
✦ Verdades do Além-Túmulo

Mas vocês devem estar se perguntando os motivos de eu ter demorado de 2019 até 2024 para escrever sobre esse livro. E a verdade é que eu não tinha juntado meus caquinhos para ler ele. Na época em que conheci a Caitlin, as coisas estavam muito ruins mesmo no meu lado pessoal (com a pandemia piorou muito) e ela me proporcionou risadas e um alívio muito grande.

É assim que ela também escreve. Para Toda a Eternidade é um livro que fala sobre a cultura da morte em diversas partes do mundo, desde as mais conhecidas como o Dia De Los Muertos, mas também sobre tribos remotas e práticas que a sociedade ocidental considera até mesmo criminosas (como manter seus mortos em casa, mumificação, cerimônias de cremação diferenciadas e afins).

A autora usa da sua influência e contatos no meio funerário para ir a muitos países e entender um pouco mais sobre um assunto que é tão evitado em tantos lugares. Mas a morte nada mais é do que uma das etapas da vida, e o que Caitlin mais deseja é poder desmistificar outros costumes, além de entender a importância de sermos ecológicos e conscientes nesse processo.

Com um humor impecável e uma escrita leve, ainda que realista, é mais um dos livros da autora que eu indico para toda e qualquer pessoa, sem contra indicações. Acho que além de tratar a morte com naturalidade, gosto das reflexões que Caitlin traz, principalmente quando envolve crenças e até mesmo como o capitalismo influencia nos funerais e rituais. E sim, ela ainda é minha agente funerária favorita de todos os tempos.

Título Original: From Here to Eternity: Travelling the World to Find the Good Death ✦ Autor: Caitlin Doughty
Páginas: 224 ✦ Tradução: Regiane Winarski ✦ Editora: Darkside Books

9 de maio de 2024

Perfeita (na Teoria), de Sophie Gonzales, e a bifobia internalizada de pessoas queer

Parece que a leitura de livros YA está se tornando recorrente na minha vida, e é claro que Perfeita (na Teoria) da Sophie Gonzales estava na minha lista. Sinceramente, não quis saber nada sobre ele antes de começar, e eu acho que quanto mais me mantenho assim, mais gosto da leitura. Mas vou falar sobre ele hoje, já que virou um dos favoritos do ano!

Darcy Phillips tem dezesseis anos e de alguma forma conseguiu a senha do Armário 89. Desde então, começou a oferecer conselhos de relacionamentos — de forma anônima — na sua escola. Para receber o serviço era simples: você escrevia uma carta com sua dúvida, junto de um endereço de e-mail e uma nota de dez dólares e colocava no armário. Pronto, em breve você teria uma resposta. De imediato foi um sucesso, afinal ela era boa nisso e adolescentes estão sempre precisando de conselhos.

Mas é claro que, com tanta experiência, Darcy estaria com seus próprios relacionamentos em dia né? Muito pelo contrário! Sua paixão pela melhor amiga Brooke a consome e ela não sabe nem por onde começar a resolver a situação.

Não fosse por esse pequeno probleminha, tudo estava correndo perfeitamente bem, até que Alexander Brougham resolve contratar os serviços do armário para ajudá-lo. Só que ele não queria que fosse de forma anônima, pois achou que seu problema era muito complexo e precisaria de mais do que um conselho por e-mail. É então que ele pega Darcy no flagra depois da hora na escola, recolhendo as cartas, e oferece muito dinheiro para que ela o ajude. Em troca ele não contará seu segredo (além dele ser riquinho, então ela ficaria com zero remorso de receber 50 dólares pelo coaching em relacionamentos).

Ambos se detestam. Brougham por precisar dos serviços de Darcy, e ela por ter que falar com um menino tão metido e insuportável. Mas até que ele é bem bonitinho, ela só não entende qual é a dele e nem onde isso vai parar. Com o tempo as coisas vão ficando estranhas, a situação sai do controle de Darcy e tudo explode de uma só vez.

Acho que o que fez eu gostar tanto de Perfeita (na Teoria) foi o fato de me identificar com ela. Às vezes nos entender como parte da comunidade LGBTQIAP+ é muito complexo. Ser bissexual, então... Porque assim, somos invalidados o tempo inteiro, independente da configuração do relacionamento: se estamos com uma menina é um eterno "não sabia que fulana era lésbica", se estamos com um menino, por outro lado, não acreditam na nossa bissexualidade, e isso é muito cansativo. 

Então, acaba que o livro trata da bifobia internalizada de pessoas queer, porque os questionamentos da sociedade e até mesmo da comunidade, de certa forma, são tantos que a gente começa a se questionar. Vejam bem, Darcy é apaixonada pela melhor amiga há séculos, e tudo bem, mas não conseguia aceitar que estava nutrindo sentimentos por Alexander. Tipo assim, que bissexual é essa que tá se apaixonando por um cara cis-hétero-aparentemente-babaca, né? Gostei muito de acompanhar essa dinâmica e fazia tempos que procurava por um livro assim.

— Isso. É quando bissexuais começam a acreditar na bifobia que nos cerca. Ouvimos que nossa sexualidade não existe, ou que somos héteros se estamos com alguém de outro gênero, e que nossos sentimentos não valem se nunca namorados alguém de determinado gênero, esse tipo de baboseira. Aí a gente escuta isso tanto que acaba duvidando de si — p. 298

Além da representatividade LGBTQIAP+, Perfeita (na Teoria) fala sobre relacionamentos famíliares, amizade, apego, amadurecimento. Inclusive acho que vale salientar que a sensação que eu tive lendo ele, foi a mesma de Para Todos os Garotos Que Já Amei da Jenny Han. Me fez sentir eufórica, ansiosa, nervosa e feliz com o rumo da história. Enfim, é um livro ótimo e muito amorzinho.

Antes de ir embora, queria deixar essa fala que está nos agradecimentos da Sophie Gonzales, em que ela fala um pouquinho sobre o objetivo dela com Perfeita (na Teoria) e o quão especial ele é:

Pela primeira vez, a primeiríssima vez, eu acreditei neles de verdade. Que meus relacionamentos não mudavam quem eu era. E que, mesmo se outras pessoas não concordassem, todo mundo naquela saia me apoiaria sem pensar duas vezes. Eu estava com eles, eles estavam comigo, e estávamos todos juntos. Uma comunidade dentro de uma comunidade dentro de uma comunidade. Sem perguntas. Sem provas. Sem documentos comprovatórios.
A gente pertencia ao grupo por pertencer — p. 345

P.s.: até agora não acredito que o título desse livro não é Querido Armário 89 ou algo do tipo! Agora eu vou de verdade!

Título Original: Perfect on Paper: A Novel ✦ Autor: Sophie Gonzales
Páginas: 352 ✦ Tradução: Sofia Soter ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
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8 de abril de 2024

De Volta aos Anos 90, de Maurene Goo: um retrotáxi e a relação entre gerações de uma família coreana


Sam é uma menina de 2025 que está no último ano do ensino médio, concorrendo à rainha do baile na sua escola. Ao contrário do que possa parecer, Sam não é uma garota fútil, ao estilo meninas malvadas. Ela se importa com o meio ambiente, é ótima escritora e gosta muito das suas raízes coreanas. Ela é totalmente oposta a sua mãe, Priscilla.

Por causa das diferenças abissais entre as duas, elas brigam constantemente sobre tudo. Um dia, em meio a uma briga muito feia, Sam se vê obrigada a pedir um carro por aplicativo para "fugir" de Priscilla. Ela nota algumas coisas estranhas, mas só quer acabar aquela corrida, chegar na escola e tomar conta da sua própria vida e seus problemas. Só que ao descer do carro, Sam descobre que ela foi parar em 1995.

Não tendo a menor ideia dos motivos que fizeram ela ir parar ali, precisando encontrar um meio de voltar pra casa, ela entende que precisa ajudar a versão adolescente (e insuportável) da mãe a ganhar o concurso de rainha do baile e, consequentemente, melhorar seu relacionamento familiar.

Em meio a essa confusão, Sam começa a entender a si mesma, e também começa a ver como a relação entre ela e sua mãe se tornou tão pesada com o passar dos anos. Ah, e temos crushes de outras épocas também, um personagem muito fofo que vai roubar seu coração, assim como roubou o de Sam. Além disso, o livro tem mil referências aos anos 90, óbvio, mas também tem coisas atuais como k-pop e k-dramas, Taylor Swift e muito mais.

No meio de todo esse universo pop, De Volta aos Anos 90 mergulha na dinâmica entre três gerações de uma família coreana, navegando por diferentes épocas através de uma jornada no tempo. Ao fazê-lo, ele habilmente aborda questões sensíveis como as experiências de famílias imigrantes, o racismo arraigado e a xenofobia estrutural dos anos 90, cujas repercussões ainda ecoam nos dias atuais. Apesar da profundidade desses temas, a narrativa é leve e muito divertida.

Uma coisa sobre essa questão das dinâmicas familiares que eu gostei bastante foi perceber como a gente tende, mesmo que inconscientemente, a reproduzir comportamentos dos nossos pais. Por exemplo, a relação da Sam com a avó é maravilhosa, mas a relação da Priscilla com a mãe é tão ruim quanto a de Sam com Priscilla. Inclusive, é essa ruptura da relação entre a mãe e a avó que "justifica", de certa forma, a rigidez da relação entre Sam e Priscilla. Será que a interferência de Sam no ano de 1995 vai ajudar? Só vocês lendo para saber. 

Como é boa a surpresa de pegar um livro sem pretensão nenhuma e simplesmente acabar com um favorito da vida em suas mãos. Amei de mais De volta aos anos 90, me diverti horrores e chorei também. Um livro ótimo e uma recomendação um pouco diferente do que eu costumo trazer por aqui!  

Título Original: Throwback ✦ Autora: Maurene Goo
Páginas: 416 ✦ Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

8 de março de 2024

Holly, um romance policial de Stephen King


Holly Gibney é uma detetive particular muito talentosa que ajuda diversas pessoas com sua agência, a Achados e Perdidos. É por isso que, quando Bonnie Dahl some sem deixar rastros durante a pandemia, sua mãe Penny contrata os serviços de Holly. Mas a tarefa de procurar por Bonnie se mostra muito difícil, muito mais do que se possa imaginar. O luto assombra a detetive, que fica ainda mais vulnerável diante dos desafios dessa história.

Ao contrário de outros livros de investigação policial, nesse Stephen King já aponta os culpados logo no primeiro capítulo. Então a gente se pergunta como a Holly vai chegar nos Harris, um casal de velhinhos de aparência simpática que sumiram não apenas com Bonnie, mas também com outras pessoas. A trama, portanto, gira em torno de como pegar os suspeitos, e não descobrir quem eles são.

Além disso o livro trata de algo que ainda é muito atual, a pandemia de COVID-19, tema que repercutiu em diversas obras pelo seu enorme impacto na sociedade. King costuma trazer assuntos relevantes e polêmicos em seus livros como forma de alfinetar certos públicos. Não é a toa que algumas de suas obras foram banidas e altamente criticadas por causa disso. Aqui ele fala bastante sobre os negacionistas e as consequências que vieram com eles durante um período bastante sombrio da humanidade.

Acredito que algumas pessoas achem meio lento o ritmo dos livros do King no começo, e Holly não foge muito do seu estilo. Isso acontece por que ele tende a descrever bastante personagens e situações, mas com o tempo as coisas fluem. Mesmo que eu seja suspeita ao elogiar mais uma obra do mestre, devo dizer que achei Holly muito bem escrito e desenvolvido.

A detetive Holly é uma personagem que nos foi apresentada em Mr. Mercedes, então recomendo que você leia a trilogia antes desse livro aqui, para que sua leitura seja mais enriquecida. Aliás, existe também um conto protagonizado por ela no livro Com Sangue. E Outsider também faz parte de seu universo. "Mas Jess, não quero ler tudo isso antes de Holly, vou entender a história mesmo assim?" - Num geral eu diria que sim, você vai entender. No entanto eu recomendo que você se aprofunde na leitura caso queira, pois Holly é complexa, inteligente, brilhante e possui uma história muito interessante (claramente amo muito).

E para finalizar deixo um ensinamento proveniente justamente dos negacionistas da pandemia: com o tempo também se acumula burrice!

Título Original: Holly ✦ Autor: Stephen King
Páginas: 448 ✦ Tradução: Regiane Winarski ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora
Ajude o blog comprando o livro através do nosso link!

28 de outubro de 2023

Uma Tragédia Familiar, de M. T. Edvardsson: um thriller que fisga pelo enredo, mas com um final que deixa a desejar


Regina e Steven Rytter são um casal abastado e moram numa mansão imensa. Aparentemente a relação dos dois é bem boa e eles têm a vida perfeita. Regina infelizmente tem uma doença desconhecida que a deixa bastante debilitada, enquanto o marido é um médico carismático e sedutor. Por causa de sua doença, a mulher passar bastante tempo em casa sob efeito de remédios, então Steven contrata uma nova faxineira, Karla, para fazer a limpeza e cuidar da residência dos Rytter.

Karla é uma universitária, bastante humilde, que luta muito para se sustentar longe da mãe, por isso aceita prontamente a vaga. A antiga faxineira largou o trabalho abruptamente, sem maiores explicações. Mas a casa, apesar de enorme, é meticulosamente limpa, o que faz o trabalho ser fácil, além do pagamento ser bom. Isso tudo faz com que a moça preste atenção nos Rytter, e logo ela percebe que alguma coisa muito estranha acontece ali.

Quando Regina e Steven são encontrados mortos dentro da mansão, a faxineira e estudante Karla, o pai de família viúvo e desempregado Bill e a amante de Steven, Jennica, se tornam os principais suspeitos do crime. Será que algum deles seria capaz de cometer um assassinato? Uma coisa é certa, todos eles escondem segredos.

Uma Tragédia Familiar de M. T. Edvardsson foi meu primeiro livro de Literatura Sueca e confesso que não gostei tanto assim. Também foi um livro que me interessou no evento de lançamentos da Suma, mas encontrei dificuldade na leitura e vou tentar explicar a razão. 

O livro vai intercalando entre Karla, Bill e Jennica para que possamos ter uma visão da vida dos três, seus traumas, o desenvolvimento deles e como se interligam. Isso eu achei bem legal, a trama vai se construindo aos poucos. Mesmo que a gente saiba desde o começo que os Rytter morrem, voltamos no tempo com os personagens para que as histórias sejam contadas e tenhamos um panorama maior.

No entanto, mesmo que eu tenha achado até bem escrita, a história vai se tornando arrastada e o final foi totalmente morno. Uma pena, pois o livro explora temas como abuso, violência e traumas familiares que poderiam ter sido mais bem desenvolvidos. Faltou um temperinho a mais, sabe?

Acredito que por ter muito contato com literatura de suspense, thriller e terror, essa leitura não tenha me prendido tanto. Não é um livro que vou manter na minha estante, mas acredito que pessoas que tenham menos contato com essas leituras possam se interessar e até ser uma boa porta de entrada para o gênero.

Título Original: Em Familjetragedi ✦ Autor: M. T. Edvardsson
Páginas: 304 ✦ Tradução: Natalie Gerhardt ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora
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22 de outubro de 2023

M de Monstra, de Talia Dutton: uma história sobre ciência, luto e o peso das expectativas


Não costumo trazer resenhas de quadrinhos por não ser algo que eu leio muito, mas M de Monstra, de Talia Dutton, chamou minha atenção no evento de lançamentos da Suma assim que vi a capa. Esse é o quadrinho de estreia da autora, é inspirado em Frankenstein e ainda trata de temas sensíveis de uma maneira diferente, através de ilustrações e textos lindos.

A Dra. Frances e a Dra. Maura são duas irmãs cientistas que são melhores amigas, vivem juntas e são apaixonadas pelo seu trabalho. Um dia, um dos experimentos das irmãs não sai como o previsto e Maura acaba morrendo neste trágico acidente. Frances consegue trazer a irmã mais nova de volta dos mortos, ou assim ela pensa. Quem ocupa o corpo dela é uma criatura totalmente diferente de Maura, que não tem lembrança alguma da vida que a cientista levava.

Assim, a criatura passa a se chamar de M e tenta de todas as formas agradar Frances, fingindo ser sua irmã mais nova com amnésia, pois não quer desaparecer. Frances, por outro lado, decide que se M não conseguir se lembrar de sua vida e de seu trabalho, não existe motivo para deixá-la viva.

Então acompanhamos M tentando desesperadamente superar essa situação e viver. Vemos ela descobrindo uma ligação com Maura, seu desenvolvimento pessoal, seus gostos diferentes e sua força de vontade. M vai conseguir assumir a identidade de Maura ou irá sumir para sempre? E quais as consequências de se viver uma vida que não é sua, que não te pertece? 

O que eu mais gostei nessa HQ foi justamente essas pequenas metáforas que a autora deixa com o decorrer das páginas, e que trazem muitas mensagens. O que acontece quando não nos sentimos amados pelo que somos? Quando não somos capazes de aceitar a perda? Quando não conseguimos abandonar o passado e seguir em frente? Os conflitos em torno dessas questões são bastante tensos e muito bem desenvolvidos. 

Acho que a única coisa que pode desagradar um pouco é a personalidade de Frances no início da narrativa. Às vezes tinha a sensação que ela não sentia falta necessariamente da irmã, e sim de como as coisas eram quando a irmã estava viva. Com o passar do tempo, é fácil perceber que esses comportamentos fazem parte do processo do luto, e começamos a aceitá-la melhor. Isso diz muito também sobre as expectativas dela em relação à M. 

Tinha tudo para ser uma história assustadora de terror, mas Dutton nos conduz por outros caminhos, muito mais emocionantes e sensíveis. Com certeza essa é uma ótima leitura e bem rapidinha, que tem a maior chance de conquistar novos e velhos leitores. Como disse, as ilustrações são lindas e o texto é bom, o que contribui para a fluidez. Indicação mais do que especial para esse mês de Halloween 🖤🎃

Título Original: M Is for Monster ✦ Autora: Talia Dutton
Páginas: 224 ✦ Tradução: Helen Pandolfi ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora

12 de outubro de 2023

Uma história de amor e de dor: O Clube da Meia-Noite, de Christopher Pike, não é um livro de terror


Essa foi mais uma história que veio pra minha vida por causa da série adaptada de mesmo nome. Como amo o trabalho do diretor Mike Flanagan, já sabia que ia gostar de O Clube da Meia-Noite assim que foi anunciado e não me enganei. A série é ótima e foi uma das únicas coisas que me fez pular e gritar de susto em anos. Foi pesquisando mais sobre que descobri que na verdade, existe um livro do Christopher Pike que deu origem a ela.

Christopher Pike é na verdade o pseudônimo de Kevin Christopher McFadden. Por muito tempo ele escrevia romances adultos que não tinham tanto sucesso, mas seguindo o conselho de seu editor e seus amigos, ele transformou uma dessas histórias em um romance adolescente. É assim que O Clube da Meia-Noite surgiu e se tornou um sucesso.

A série da Netflix é de terror, mas o livro não. E essa foi a primeira coisa que se destacou para mim. Eu já sabia que uma coisa não seria igual a outra e na verdade fico bem feliz por isso. O livro é um drama, daqueles bem tristes e bonitos que fazem a gente pensar por horas.

Nós acompanhamos a vida (ou o fim dela) de adolescentes que se mudam para a Rotterham Home, uma casa muito bonita e bem cuidada, que trata paliativamente pacientes jovens com doenças terminais. Lá Ilonka, a protagonista, faz amigos e cria laços profundos. Conforme essas amizades foram criadas, nasceu também o clube da meia-noite, onde Ilonka, Kevin, Spence, Sandra e Anya se revezavam contando histórias uns aos outros. Não só de terror, mas qualquer tipo de histórias que eles conseguissem pensar. Verdadeiras ou inventadas, não importa — desde que eles se reúnam todos os dias que lhes resta.

Uma noite, no meio de uma história, Spence sugere que o primeiro a morrer faça esforços para contatar os outros, para saber que a pessoa ainda estava bem. E quando um deles morre, a busca pelos sinais do outro lado começam.

— É uma pena que o primeiro de nós a ir não possa voltar e nos contar como é.
Sandra fez uma careta.
— Essa é uma ideia horrível.

Como eu disse, essa é uma história triste e bonita. Você sabe que os personagens apresentados vão morrer, mas se apega à eles e pensa com positividade para que nada de ruim aconteça. Isso acontece também com Ilonka, que continua com esperança de que seus amigos se curem e que ela mesma possa sair dali e viver plenamente. Ela nunca beijou alguém, nunca fez amor com alguém. Não viveu uma porção de coisas que gostaria e isso aflige muito tanto ela, quanto o leitor. Ao mesmo tempo que vemos a perseverança de Ilonka, vemos o quanto sua saúde piora e como não tem escapatória. Um por um eles se vão e um pedacinho do nosso coração se vai também

— Sei que o Kevin está em cada uma das suas histórias sobre vidas passadas. Acho que ele também sabe [...] Bons sonhos minha querida — Anya disse suavemente.

Recomendo muito a leitura desse livro. É uma leitura que te faz refletir bastante sobre muitos assuntos profundos ou até mesmo superficiais, que te faz apreciar um pouquinho mais o dia a dia. Eu também vou recomendar a série que é excelente, mas já aviso que tem muitos sustos (e mesmo assim é maravilhosa). Se vocês quiserem posso voltar aqui e explicar algumas das maiores diferenças entre os dois, nunca vou me cansar de revisitar essa(s) história(s).

Título Original: The Midnight Club ✦ Autor: Christopher Pike
Páginas: 192 ✦ Tradução: Tully B. Ehlers de Oliveira  ✦ Editora: Principis
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24 de junho de 2023

TUDUM 2023


A primeira edição do Tudum aconteceu em janeiro de 2020 e foi icônica. Inclusive tem post aqui sobre ele, e lendo você consegue ter uma ideia do quanto o festival já era enorme e divertido desde aquela época. Ele chegou a acontecer online também, por causa da pandemia. Mas a gente tava com saudade de um eventinho presencial né? E a edição de 2023 (que aconteceu do dia 16 ao dia 18 no Ibirapuera) veio aí pra provar que conseguiria sim ser ainda maior e melhor!

Lógico que eu precisava dar aquela conferida e trazer um post cheio de fotos e informações do festival da Netflix, um evento brasileiro gratuito que se tornou mundialmente famoso por trazer atores internacionais, novidades, ativações e conteúdos incríveis das séries que a gente mais gosta.

Já começa lindo pela fachada!

Falando assim parece até publi, mas vou contar a verdade sobre o festival. A primeira coisa é que os ingressos foram distribuídos pelo Sympla de forma gratuita, e isso gerou fraude. Cada pessoa poderia retirar um ingresso por CPF, até três ingressos por conta, mas vimos muitas pessoas vendendo esses ingressos, o que é ilegal e gerou confusão, claro.

Depois que, mesmo com ingresso você não tinha a garantia de entrada no evento. Como assim? O pavilhão estava sujeito à lotação, e quando isso acontece, só entra uma pessoa quando outra sair e assim por diante. Mas como tinha muita coisa pra fazer e o evento acontecia das 12h até as 21h, a gente sabia que as pessoas não sairiam dali rapidinho. Prevendo um caos no sábado, a gente chegou as 8h30 da manhã kkkk e valeu a pena! Então vou contar tudo que a gente conseguiu fazer e estandes que não tivemos coragem de chegar perto.

Já chegamos ganhando o copo do festival. Lá tinha bebedouro disponível e pipoca grátis sempre que você quisesse, o que eu achei incrível (e é algo que já tinha em 2020 e eles mantiveram).

Assim que entramos fomos direto para o segundo andar. A ideia era fazer ou agendar as coisas mais concorridas assim que a gente entrasse e eram lá que estavam todas elas. Sabíamos que depois seria impossível chegar perto de algumas atrações, mesmo com agendamento. E eu estava certa, a fila depois ficou ridícula, em todas elas!

Todos os brindes que pegamos nos estantes: posters, bottons e rolou até cervejinha!

Então de primeira fomos para Heartstopper. O quarto do Charlie estava sem fila, assim como o fliperama, então entramos direto. Eles deixavam a gente subir na cama, mexer na bateria, nos livros, nas roupas. Simplesmente perfeito, quartinho de milhões. Já no fliperama a gente podia jogar na garrinha pra conseguir um donut igual na série! Não tive sorte no donut, mas ganhamos um bottom. Aliás! Todos os estandes tinham brindes, seja bottom, poster, pin!

É óbvio que não ia deixar de tirar uma fotinha no quarto do Charlie, protagonista de Heartstopper, uma das minhas séries preferidas da atualidade

Depois fomos para o Koreatown, que tinha vários cenários de muitos dramas, além de uma área de alimentação com comida coreana. All of Us Are Dead, A Advogada Extraordinária, Round 6... Sim, você podia jogar Batatinha Frita 1, 2, 3, cabo de guerra, tirar fotos nos cenários, em cabines, enfim! Muito fofo. Eu não sou uma pessoa que curte muito drama, mas faz parte do meu trabalho (pra quem não sabe, eu trabalho com eventos de cultura coreana aqui em SP também ), então foi muito gratificante ver esse espaço lindo.

A entrada pro Koreatown, com várias atrações muito legais!

Aí seguimos para o espaço do Cobra Kai. Esse foi INCRÍVEL! Eu tava meio assim de entrar no espaço por pura vergonha haha mas as pessoas que estavam trabalhando ali eram muito fofas e acolhedoras. Eu não tirei foto pois era um estande totalmente imersivo, mas vou deixar meu vídeo aqui para vocês verem um pedacinho da experiência. Você podia pintar a cerquinha do senhor Miyagi, entrar no Miyagi-Do e fazer um teste de equilíbrio, bater muito nos bobs (os bonecos que são utilizados para praticar luta em academia) no Cobra Kai e no Presas de Águia a gente não chegou a entrar pois estávamos atrasadas para... Wandinha!

Esse foi o primeiro agendamento que eu fiz correndo, já sabendo que iria lotar. A área contava com o pátio da escola Nevermore, a pista de dança do baile (em que você podia fazer a dancinha da Wandinha com staffs muito queridos e talentosos), o quarto da Enid e Wandinha e também a parte escondida, que só era liberada se você estralasse os dedinhos. Lá o atelier do Xavier aparecia, cheio dos desenhos dele. Do lado de fora do quarto uma atriz caracterizada de Wandinha tocava violoncelo, e logo do lado tinha até a moto do Tio Chico, com o próprio, para mais momentos de fotos. Nesse eu entrei sozinha e uma das Wandinhas me ajudou tirando as fotos, depois de eu ter prometido que ela poderia me torturar kkkk gente, esse foi perfeito!

Detalhes do quarto da Enid e da Wandinha

Entramos no estande da Bud Zero que tinha degustação e espaço de atrações de Round 6 e Sintonia. Aliás, esse espaço só era acessível para maiores de 18 anos, e era muito legal! Infelizmente só fiz videozinho dele também, pois foi tudo rapidinho. Ganhamos duas Buds temáticas das duas séries numa sacolinha fofíssima.

Fomos ainda no quarto da Aimee de Sex Education. Tinha o cenário do posto (aquele, daquele momento esperado, que não vou dar spoilers), mas acabamos não entrando, por causa da fila. Depois passamos no corredor dos armários de Eu Nunca (#TeamBen) e subimos novamente para ir andar no roller de Stranger Things. Desse eu não tenho foto, só vídeozinho, mas logo atrás tinha o cenário do cemitério, em que a gente podia escontrar a Max, e lápides um tanto quanto emocionantes. Quem viveu sabe!

Cenários de quarto dos personagens pisam demais! Esse aqui é o da Aimee, de Sex Education. Que saudade dessa série, gente!

Com licença, só dou moral para quem é #TeamBen, beijos.

O cenário do cemitério de Stranger Things. Adorei tirar essas fotos!

Fotinho na carruagem Bridgerton pois impossível não pensar
na Ana, né?

Conseguimos ainda entrar numa parte do estande de One Piece para ver os figurinos e props usados nas filmagens do Live Action, e na carruagem de Bridgerton. De fora vimos o resto das atrações que estavam lindas, tanto a fachada do castelo quanto o pomar da Rainha. Ainda tinha uma praça de alimentação gigante e lugares para descanso (o que é bem importante, depois de tanta dança, luta, patins e correria).

Estandes que não conseguimos entrar por causa da fila ou que decidimos nem tentar foram os de Bridgerton, Sandman (pois era o mesmo cenário da CCXP que já tínhamos tirado fotos em dezembro), You, Emily em Paris, Casamento às Cegas (que você podia arrumar até um date), o navio de One Piece, The Witcher, Resgate 2 e Agente Stone.

Num geral posso dizer que foi um eventão incrível. Isso que nem falei das atrações internacionais que estiveram aqui como Henry Cavill, Gal Gadot, Chris Hemsworth, Maitreyi Ramakrishnan, India Amarteifio, Corey Mylchreest e Nicola Coughlan, entre muitos outros!

Apesar do frio e das filas, é um evento que curto muito e pretendo voltar sempre que possível. E aí, você foi no Tudum também? O que mais gostou e o que mais sentiu falta no evento?

10 de junho de 2023

A Última Missão de Gwendy, a melancólica conclusão da trilogia escrita por Stephen King & Richard Chizmar

Este é o terceiro e último livro da saga A Pequena Caixa de Gwendy, então cuidado com possíveis spoilers dos volumes anteriores. Se você quiser ler a resenha do segundo livro, pode clicar aqui e depois voltar para esse post!

Nesse livro acompanhamos Gwendy em sua velhice. Quando era apenas uma criança, foi lhe oferecida uma caixa com botões coloridos que podiam tornar seus desejos em realidade. Mas o truque era que eles podiam também dar vida aos maiores pesadelos e destruições possíveis. Já adulta e bem sucedida, Gwendy se vê no mesmo dilema, quando a caixa volta para as suas mãos. E finalmente aqui, vemos a protagonista já idosa e experiente, atuando como Senadora dos Estados Unidos, tentando manter esse poder tão grande distante das forças malignas que tentam se apossar da caixa.

A questão que ela tenta responder é simples e complexa ao mesmo tempo. Ela precisa esconder a caixa, mas qual seria o local adequado para conter tal poder? Existe um meio de acabar com isso de uma vez por todas?

Pode ser que para algumas pessoas o começo do livro seja meio caótico e desorganizado, mas eu curti. King volta a dividir a escrita com Chizmar, o que fez o livro ficar mais equilibrado novamente e sinceramente, gostei bastante disso. A trama fica bem mais complexa e senti um maior aprofundamento nos personagens. Uma outra coisa muito legal desse volume é que temos menções de outras obras do King. Sem spoilers, mas que são legais para quem já acompanha o autor.

Além disso, A Última Missão de Gwendy mostra o lado político do King, provavelmente compartilhado com Chizmar. Quem conhece o autor sabe muito bem as opiniões dele sobre o ex-presidente norte-americano. Sendo ele próprio muito politizado, sem medo de se posicionar, é óbvio que as questões políticas têm um papel muito importante nessa história.

Fiquei com uma sensação boa de ter visto várias etapas da vida de Gwendy, seu amadurecimento e crescimento, suas escolhas no passar dos anos (e livros). É uma trilogia que fala bastante sobre ação e consequência, e que faz a gente pensar bastante sobre o que faria com tanto poder em mãos, tendo ainda mais simpatia pela protagonista — que usa sim a caixa, mas que sofre por isso. Também é uma trilogia que não acaba felizinha. Na verdade ela nunca teve esse tom, mas com o passar dos livros ficou ainda mais sombria, e é por isso que o final pode soar melancólico e diferente do esperado.

No final, recomendo a série como um todo. É diferente do que Stephen King costuma trazer para suas obras, mas ainda tem o toque de genialidade do autor, misturada à escrita do Richard Chizmar que casou perfeitamente com a proposta dos livros. Acho que os autores conseguiram entrar em um consenso que funcionou extremamente bem.

Título Original: Gwendy's Final Task ✦ Autor: Stephen King & Richard Chizmar
Páginas: 424 ✦ Tradução: Regiane Winarski ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora

18 de maio de 2023

Nevasca, das autoras do best-seller Blackout: um clichê natalino juvenil com protagonismo preto

Nevasca, das autoras do best-seller Blackout, é um livro de romance juvenil. Com o sucesso e qualidade do livro anterior veio também a expectativa de que esse fosse tão bom quanto, mas será que entregou o que os leitores esperavam?

Quatro dias antes do Natal a cidade de Atlanta está coberta de neve, e a previsão é de que a tempestade seja das grandes. Mas isso não pode impedir Stevie de reconquistar sua namorada Sola, afinal, seu prazo é até a meia-noite Juntando seus amigos e toda sua criatividade, já que ela pisou feio na bola, Stevie planeja um grande gesto que poderá resolver tudo. É daí que a narrativa parte, com a história das duas de plano de fundo, enquanto vemos os amigos delas enfrentando seus próprios dilemas.

Dessa forma, assim como em Blackout, temos histórias de amor curtas protagonizadas por personagens negros, que estão ligados de uma forma ou de outra. No caso do primeiro livro, o fio que unia os personagens foi o verão que casou um apagão em Nova York; aqui, o enredo envolve essa nevasca de proporções tão inimagináveis que Atlanta entrou em pane. 

Stevie não é uma garota cheia de gestos carinhosos e também nem um pouco romântica, enquanto Sola é o oposto. E a cada capítulo que passa, a cada amigo que conhecemos, vamos também adentrando em suas próprias histórias. O ponto em comum, além do casal principal e do protagonismo negro, é a amizade. Outro tema bastante abordado são os relacionamentos LGBTQIAP+, de forma tranquila ao invés de trágica, como normalmente acontece. 

Dito isso acho que é possível perceber que a história não é muito complexa, assim como os personagens. Isso não significa que não sejam importantes, afinal, eles representam uma enorme parte da população. Mas é um romance juvenil, então as problemáticas são bem mais simples, é uma leitura bem mais leve, o que eu particularmente gosto muito, já que minha vida é basicamente um romance sáfico e todas as dificuldades que isso acarreta no caminho. Então livros como Nevasca e Última Parada são alívio do cotidiano muitas vezes.

Porém minha leitura não fluiu como eu esperava. Estava super ansiosa por essa narrativa e acho que criei muita expectativa. Os capítulos são muito longos, isso me fez perder um pouco a atenção e embalo de leitura, e mesmo assim algumas histórias parecem inacabadas, ou sem tempo suficiente para que fossem um pouco mais aprofundadas. Além disso, confesso que não curti muito a Stevie... Eu adoro personagens inteligentes, mas odeio personagens que sabem que são inteligentes e fazem questão de mostrar isso para todo mundo, rs. 

No entanto, justamente por ele ser muito levinho, é o tipo de livro que super cai bem para leitores adolescentes, principalmente jovens pretos, que podem acabar se identificando muito mais com os personagens. A questão da amizade também me pegou muito, porque é muito fofo ver até onde as pessoas podem chegar para ajudar as pessoas que amam de verdade. Além do mais, Nevasca toca muito em um ponto importantíssimo, que é o pertencimento. E convenhamos, nada é tão gostoso quanto um clichê de Natal fofinho né?

Título Original: Whiteout: A Novel 
Autoras: Angie Thomas, Ashley Woodfolk, Dhonielle Clayton, Nic Stone, Nicola Yoon e Tiffany D. Jackson
Páginas: 320 ✦ Tradução: Karine Ribeiro ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora
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3 de maio de 2023

Um verão italiano pode mudar tudo? Novo livro de Rebecca Serle traz reflexões sobre luto e autoconhecimento

Carol é uma mãe incrível para Katy. Faz comidas deliciosas, escolhe roupas para ela e seu marido, é uma decoradora de mão cheia e ótima amiga. Era a pessoa que tinha solução e resposta para tudo, mas que se foi e não ensinou a filha como viver sem ela. A pior parte nisso tudo é que as duas tinham feito planos de visitarem Positano na Itália, antes de tudo acontecer, e é assim que Katy parte sozinha para essa viagem.

Não somente ela sente falta de Carol, todos a sua volta estão inconsoláveis e isso a sufoca. De maneira muito egoísta Katy resolve se afastar. Afinal, era sua mãe, sua melhor amiga, sua alma gêmea. É claro que o sentimento dela é mais forte, mais importante. Então Positano foi o modo como ela achou para fugir de tudo que está ruindo, seu pai sozinho, Eric a esperando em casa, sua vida.

Mas para a surpresa de Katy, assim que chega no hotel Poseidon, já na Costa Amalfitana, ela vê Carol. Não sua mãe com aparência doente, como esteve nos últimos tempos, mas uma jovem que tem mais ou menos uns trinta anos, bronzeada e feliz. Ela sabe que é sua mãe, mas como isso é possível? Katy vê uma oportunidade de estar na cidade que a mãe tanto amava, com sua companhia.

Assim, a protagonista fica amiga de Carol e vai aprendendo muitas coisas com essa versão inexplorada da mulher, ainda livre e sem responsabilidades como mãe e esposa, uma versão diferente da pessoa que conviveu por tantos anos. Katy aprendeu receitas de família, notou que alguns hábitos sempre estiveram presentes, descobriu de onde veio o amor por Positano e decoração...

Ela também conhece Adam — um charmoso americano que está tentando comprar o hotel em que está hospedada e a encanta imediatamente —, Tony, Nika, Remo... Pessoas que a fazem repensar em tudo que já viveu até aqui, como é possível estar vivendo tudo isso ao mesmo tempo, e se vai mesmo voltar para casa, para Eric.

Um dos mais importantes desafios da vida é decidir a que se apegar e do que abrir mão. Não se engane acreditando que não sabe qual é qual. Siga seu coração, siga seu coração e ele levará você para casa — Rebecca Serle, pág. 263.

Apesar desse ser um livro sobre se encontrar, Um Verão Italiano é um livro também sobre luto. Sobre como as pessoas encaram isso de maneiras totalmente diferentes, mas que fazem sentido para cada um. Eu, por exemplo, achei Katy muito dependente da mãe e isso a torna meio babaca até, levando a protagonista a atos extremamente egoístas. Na visão de Katy ninguém sofre mais que ela nesse momento, nem o próprio pai que acaba de perder a esposa. Acho que isso foi o que mais me irritou, o modo descabido como ela enfrenta a situação.

Só que ao mesmo tempo eu entendi que isso é particular dela também. Com o passar dos dias em Positano, a própria Katy compreende que algumas coisas podem ter sido um exagero. E ela também enfrenta a mulher que a Carol foi antes da maternidade, com suas qualidades e defeitos, coisas que ela nem sabia que faziam parte da personalidade da mãe. Isso muda seu jeito de ver as coisas, mas até que isso acontece demora bastante e, por isso, não gostei tanto da protagonista. Dito isto, senti que a autora não conseguiu entregar com a profundidade merecida as questões sobre o luto, os relacionamentos, e até mesmo a jornada da Katy, justamente por causa de ações e escolhas da personagem.

Acredito que o ponto alto de Um Verão Italiano é a ambientação. Inclusive deu vontade de ir para Positano, já fiz até um roteirinho de viagem! A cidade parece mesmo muito bonita e mágica, e se você for lendo e vendo as fotos do lugares, com certeza vai entender o encanto que a Costa Amalfitana tem. Num geral achei um livro fácil de ler, não é um cinco estrelas, principalmente por causa do plot um tanto abrupto, mas certamente me marcou de uma forma gentil. 

Título Original: One Italian Summer ✦ Autor: Rebecca Serle
Páginas: 264 ✦ Tradução: Lígia Azevedo ✦ Editora: Paralela
Livro recebido em parceria com a editora