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24 de junho de 2024

Recursão, de Blake Crouch: uma história sobre memórias e identidade


Se você é leitor, você provavelmente já ouviu falar em Blake Crouch. Autor de livros renomados da ficção científica contemporânea, como Matéria Escura, Recursão, Upgrade e Forward, Blake tem lançado sucesso atrás de sucesso e seus livros já tem chamado a atenção de grandes produtoras de filmes e séries. Depois de ler Matéria Escura e me encantar com a escrita do autor, decidi encarar Recusão também. E, apesar de estar um pouco atrasada, já que Recursão foi lançado no Brasil pela Intrínseca em 2020, valeu muito a pena pegar esse livro pra ler agora.

Em Recursão acompanhamos dois protagonistas: Barry, detetive divorciado que perdeu a filha adolescente e que se vê envolvido num caso bastante peculiar, e Helena, cientista que desenvolve pesquisas no campo da memória, motivada principalmente pelo desejo de ajudar a sua mãe que tem Alzheimer. As histórias de Barry e Helena não são paralelas. Na verdade, 11 anos separam uma narrativa da outra. A narrativa da Helena começa em 2007, enquanto a de Barry se inicia em 2018.

O primeiro capítulo do livro já conseguiu me fisgar. Barry recebe um chamado para ir até um prédio onde uma mulher está prestes a se jogar. Chegando lá, Barry e a mulher tem um breve dialogo em que ela conta para ele que está doente. Segundo a mulher, ela sofre de uma doença chamada Síndrome da Falsa Memória, ou SFM, uma doença que faz com que suas vítimas tenham lembranças vívidas e detalhadas de vidas que elas não viveram, como se a memória da pessoa se bifurcasse e ela passa a se lembrar de duas vidas diferentes. Acontece que, para essa mulher, a vida que não existiu, das memórias falsas, é muito melhor do que sua vida real e ela não suporta a dor de não estar vivendo aquela vida.

É fácil perceber que o tema da memória conecta esses dois personagens. Helena estuda isso, enquanto Barry lida com um caso envolvendo alterações de memória. Esse é o primeiro grande mistério do livro: de que forma as histórias de Helena e Barry irão se conectar? Essa pergunta é respondida em torno da página 100 e, diferentemente do que aconteceu em Matéria Escura, que eu achei que o autor demorou demais para fazer seus personagens entenderem o que estava acontecendo, porque era óbvio, em Recursão eu acho que tudo acontece no tempo certo. O leitor vive a história junto com os personagens, fazendo as descobertas ao mesmo tempo que eles, sem gerar aquela frustração de já saber algo que o personagem ainda não sabe ou vice-versa.

Ambas as histórias são muito interessantes e eu não tive aquele problema de querer ficar voltando para outro narrativa. Na verdade, eu consegui me envolver com as duas e curtir a leitura integralmente. Os capítulos de Barry nos remetem ao gênero thriller, já que ele fica obcecado em investigar o caso da moça que ele conheceu no início do livro e tentando conectar pontas soltas. Em determinado momento, Barry contrai a SFM e, a partir daí, o ritmo do livro fica mais rápido e a narrativa mais intrigante. Enquanto isso, acompanhamos Helena em seus estudos e vemos sua pesquisa tomar um rumo inesperado que pode mudar tudo.

Memória é sempre um tema que me chama a atenção e eu adoro histórias que falam sobre o assunto porque é impossível falar de memória sem falar de identidade e personalidade. A sua personalidade é a combinação de todas as suas memórias. Tudo que você viveu forma a sua identidade. Então, se, de um dia para o outro, você se lembra de eventos diferentes, quem você é também muda. Inclusive, no início do livro tem uma frase do escritor Nabokov que diz "O tempo não passa de memórias sendo escritas" e essa frase se conecta perfeitamente com a história.

Assim como fez em Matéria Escura, Blake Crouch consegue trabalhar conceitos científico complexos em Recursão de uma forma acessível para qualquer pessoa, fornecendo explicações claras e pontuais, sem fazer com que o livro parece um livro didático ou técnico. Isso foi uma das coisas que eu mais gostei na escrita do autor: ele entende que seus leitores não são cientistas e que, portanto, precisam de explicações, mas também presume que não somos burros ao ponto de precisar de uma aula ilustrada. Ao longo das explicações, o autor insere conceitos mais simples e populares para ajudar nas explicações, como os déjà-vus e o Efeito Mandela, deixando tudo ainda mais dinâmico e interessante.

Recursão é dividido em cinco livros, além do Epílogo. No Livro Um, o leitor ainda não entendeu exatamente o que está acontecendo e a revelação é feita no final dessa primeira parte. O Livro Dois é absurdamente bom, talvez o meu preferido, cheio de conceitos, explicações complexas, diálogos riquíssimos e cenas de doer o coração. A palavra Recursão pode ser definida como o ato de repetir a mesma coisa de maneira similar e é nesse Livro Dois que entendemos o porquê de esse ser o nome do livro, quando as coisas começam a se repetir de um jeito muito intrigante na história. É a partir do Livro Três que as histórias de Helena e Barry se encontram finalmente e o livro assume um ritmo mais acelerado. O Livro Quatro é o suco do caos e debates morais complementam a história. Dá pra mexer no tempo e manipular a história do mundo só em pontos específicos para tornar o mundo melhor? Ou o efeito borboleta é inevitável? Cada um dos cinco livros termina com uma reviravolta que provoca o leitor e o instiga a continuar lendo sem parar.

Hollywood já nos deu incontáveis histórias para provar que mexer com o tempo não é uma boa ideia. Porém, outra qualidade de Blake Crouch é pegar um tema batido e conseguir criar algo novo, que ninguém fez antes. O autor consegue lançar um olhar novo sobre algo que parecia esgotado. A mente desse homem me surpreender e hoje eu tenho certeza que ele merece todo o sucesso que vem conquistando. Leiam Recursão. Leiam Blake Crouch.

Título Original: Recursion ✦ Autor: Blake Crouch  
Páginas: 320 ✦ Tradução: Sheila Louzada ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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2 comentários :

  1. O gênero sci fi, ficção científica, não é um gênero que ou assista filmes.
    Mas o mundinho literário ama Crouch, seus livros fazem sucesso e as histórias são bem intrigantes.
    A temática de Recursão é muito interessante, a gente fica traçando teorias....quem sabe um dia eu me arrisque e leia?!

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  2. Fiquei lendo a resenha desse livro e olhando meu exemplar parado na estante há tantos anos.
    Puxa, eu acho que estou perdendo tempo em não o ler, ainda mais com essa não/relação entre os personagens e esse estilo de narrativa que conquista o leitor.
    Com toda certeza do mundo, irei desencalhar o meu livro!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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