O Sol é Para Todos | Harper Lee

O Sol é Para Todos é um dos maiores clássicos da literatura americana. Foi publicado em 1960, mas ainda faz sucesso no mundo inteiro por causa de sua trama atemporal, que gira em torno de um advogado branco que defende um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca nos Estados Unidos, em 1930. A história é narrada por Scout, filha mais nova do advogado. Apesar de ser contado sob o ponto de vista de uma criança, o tom da narrativa é extremamente crítico justamente por causa do tema central: racismo e injustiça social.

Antes de começar a falar de fato sobre o livro e o que eu senti enquanto lia, queria deixar claro que essa resenha estará repleta de spoiler. Para mim, é impossível discutir alguns pontos sem expor algumas partes muito importantes do enredo. Então, se vocês não conhecem, não sabem o que acontece e têm vontade de ler o livro em algum momento da vida, parem por aqui.

Harper Lee recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1961 por essa obra e digo que não foi em vão. Além de ser uma história extremamente bem construída, os personagens são inesquecíveis. Todos eles são, até os mais odiáveis e preconceituosos, até porque, infelizmente, a narrativa só reflete a sociedade da época — que não mudou tanto assim nesses últimos 60 anos. 

Se a sociedade da fictícia Maycomb é, de forma geral, detestável, a família Finch é o ponto fora da curva. Ainda assim, não gosto de pensar em Atticus — pai & advogado — como herói ou redentor. Por mais admirável que sua personalidade seja, para mim ele era apenas um homem de caráter e com o mínimo de senso, características que todos nós deveríamos ter. Mas é claro que o fato de ele não se omitir, mesmo sabendo das consequências, é um ponto importante. Vejam bem, se Atticus Finch aceita defender Tom Robinson mesmo sabendo que a causa era perdida, não foi por acaso.

— Em primeiro lugar, Scout — ele disse —, se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.
— É?
— Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas. (p. 43)

Nesse contexto, encaramos uma realidade muito triste, porque já era claro desde o começo que Tom era inocente — fato que foi comprovado, na minha opinião, durante o julgamento —, mas que seria declarado culpado por causa da cor da sua pele. Afinal, ele era apenas um negro, no fim das contas, e o que valia a palavra de um negro contra a palavra de uma pessoa branca, ainda que fosse mulher? Perceberam que a todo momento é possível fazer um link com a realidade que vivemos hoje?

E por falar nisso, fiquei muito pensativa e incomodada sobre a situação toda. Porque assim, eu sempre parto do pressuposto que uma mulher não tem motivos para mentir sobre ter sido estuprada. Então o tempo todo me senti num impasse, porque eu queria acreditar na personagem que estava acusando, mas todas as provas mostravam o contrário. Mas mesmo sabendo que ela estava mentindo para se proteger e proteger o pai, mesmo sentindo uma indignação muito grande, consegui entender o lado dela unicamente por causa da situação em que ela vivia. Imagino que ela tenha sentido muito medo, sabe? Só que percebam, eu disse que entendo, mas não que concordo.

Inclusive esse foi um tópico que gerou bastante discussão no clube do livro, mas conseguimos chegar a conclusão que O Sol é Para Todos é um livro sobre racismo e não sobre o papel da mulher, então acreditamos que essa foi a melhor forma que Harper Lee encontrou, na época, para descrever esse problema que acompanha a sociedade desde os seus primórdios.

A sociedade era e é muito injusta, e uma das coisas que eu mais gostei de acompanhar nesse livro foi como Scout e Jem, os filhos de Atticus, começaram a perceber isso. São dois personagens que só crescem durante a trama, porque é fácil perceber o que eles sentem de verdade ainda que reproduzam conceitos racistas propagados pelos adultos. Ou seja, além de tudo, só me fez ter certeza que nenhuma criança nasce preconceituosa, que somos nós que influenciamos nisso.

— [...] Ouvi quando ela disse que estava na hora de alguém dar uma lição neles, que estavam indo longe demais, daqui a pouco iam querer casar com brancos. Jem, como uma pessoa pode detestar tanto Hitler e depois falar isso de alguém daqui mesmo...? (p. 307)

Outro ponto que questionei bastante foi a tradução do título do livro para o Português brasileiro. Eu sei que há conexão com o discurso de Atticus Finch no tribunal, mas ainda assim sinto que O Sol é Para Todos passa uma ideia um tanto equivocada sobre o conteúdo da história... Isso porque o que acontece com Tom Robinson só prova que, na realidade, o sol não é para todos. Muito pelo contrário, né? A gente sabe muito bem o quanto o sol brilha apenas para uma pequena parcela da população. Além disso, acredito que To Kill a Mockingbird faça alusão à destruição da inocência, que é o que acontece com nossos personagens principais.

Eu não sou especialista em Direito e questões que envolvam Direito Penal ou qualquer coisa relacionada ao tema, já que não sou dessa área. Mas não precisa ser o maior entendedor de leis e do próprio sistema para entender que a trama criada por Harper Lee é um retrato do  judiciário e das pessoas que o compõe: como podemos esperar decisões justas sendo que a sociedade que nos representa é injusta? Fica aí a reflexão.

Título Original: To Kill a Mockingbird ✦ Autor: Harper Lee
Páginas: 364 ✦ Tradução: ✦ Editora: José Olympio

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13 Comentários

  1. Amei a resenha. Sou muito curiosa para ler esse livro, mas nunca me dei a oportunidade.
    Acho que é um livro que foi bem importante para a época, mas se fosse hoje em dia seria de fácil problematização.
    beijos
    https://www.dearlytay.com.br/

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  2. Algumas traduções de títulos de livros, algumas, perdem todo o sentido ou dão uma ideia errada da história do livro.
    Sobre o livro....como um livro escrito na década de 60 é tão atual? O meu questionamento é... Harper Lee visionária ou a sociedade ainda não evoluiu nessa questão????

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  3. Ana!
    Um tremendo clássico mesmo.
    Assisti o filme e pelo visto, é uma adaptação muito próxima ao livro, embora no filme a narração não seja pela garotinha.
    Concordo que o livro é atemporal, porque os preconceitos continuam em pleno século XXI, tremendo absurdo.
    O essencial é a leitura para a transformação desses preconceitos.
    cheirinhos
    Rudy

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  4. Um dos grandes clássicos da literatura mundial que ainda não consegui ler.
    Causou sim, uma certa polêmica por conta da maneira de escrever. Por toda a reflexão que nos apresenta e infelizmente, ser tão real até hoje, mesmo que o livro tenha sido escrito há tanto tempo ;/
    A injustiça é diária, o erro com o racismo e o preconceito é algo que está no nosso meio a todo momento e lamento que nessa pandemia, tudo ficou ainda mais relevante.
    Com certeza, é um livro que quero demais ler!!!!E sentir!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  5. Ana, amiga porque faz isso comigo!
    Mas uma resenha que nem vou ler direito porque tem spoiler e eu quero ler esse livro!
    Serio, amiga, você me odeia com certeza!

    Blog: Tempos Literários

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  6. Oi, Ana
    Não me importo com spoiler, aliás adoro.
    Ainda não li o livro, mas é um super desejado. Estou sempre de olho no preço para ver se consigo um desconto.
    O título é bonito, mas não passa de uma ilusão porque sabemos o que pessoas negras sofrem no mundo todo.
    Legal que vocês puderam ler juntas discutir sobre o livro, assim pode compreender melhor o livro.
    Beijos

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  7. Pelo título do livro, eu esperava algo totalmente diferente. Esse livro é um dos poucos clássicos que tenho vontade de ler. Obrigada por ter avisado sobre os spoilers!! Parece ser um livro forte e com muitos questionamentos mesmo.
    Beijos

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  8. Olá! Com certeza é um livro que mesmo sendo escrito há um tempo e sendo uma ficção, retrata muito bem a realidade que ainda vivemos nos dias hoje, o que é bastante triste, gosto dessa reflexão proporcionado pelo livro, e concordo: o título definitivamente não reflete o que de fato acontece em nossa sociedade.

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  9. Parabéns pela resenha. Particularmente, não gosto tanto do gênero (prefiro romances mais leves e/ou fantasia), mas gostei da forma como você abordou a história e deu sua opinião.

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  10. Esse livro virou um dos meus favoritos com uma facilidade que até me surpreendeu. Sempre vi menções a ele em outros livros ou séries que via e era muito curiosa pela história. Quando finalmente li fui surpreendida de tantas formas. Pelo tema, pelos personagens, pelo rumo da trama. Ele te deixa indignado com o final das coisas, com a injustiça. Abre teus olhos pra como essa sociedade faz o que bem entende por preconceito puro e cego. A inocência dos personagens indo embora é um alerta pra você, um detalhe que você se identifica porque quando se é criança é fácil acreditar no certo e errado e na justiça. Mas o mundo não é justo. Coisa interessante também é isso que falou do nome da história. Quando vi o original achei mais ligado ao real alerta da história mesmo, de um jeito que a tradução aqui meio que perdeu o sentido. Mas sempre pensei que o título daqui era mais uma alusão de esperança por tempos melhores, de uma lição forte a se aprender. Achei legal falar disso dos títulos. Afinal até o título dessa história te faz pensar!

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  11. Eu li a resenha por alto porque ainda quero ler o livro,eu sempre acho difícil leituras assim por se tratar de um assunto tão real e atual(infelizmente) como é o racismo... O sol é para todos é daqueles que todo mundo deveria ler eu inclusive só tô esperando adquirir o meu pra ler logo... Não tinha pensado ainda sobre essa questão de títulos como mudam quando vem pra cá,realmente não são todas as vezes que funcionam :/

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  12. Oi, Ana!!
    O sol é para todos é um dos clássicos que quero muito ler. Tenho até uma lista de clássicos que quero ler e esse livro faz parte dele e agora fiquei com mais vontade ainda depois de saber que o livro trata de um assunto tão sério como o rascimo.

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  13. Oi, Ana
    Ameeeei sua resenha. E é claro que ela me deixou com ainda mais vontade de lê-lo. Mas confesso que já comecei ele 2x e parei porque achei arrastado.
    Aai que história triste. É duro saber que esse homem foi acusado só por ser negro.
    Eu não concordo com a vítima mentir, mas é como você disse, olhar pelos olhos o medo que ela sentia nos faz pensar e não julgar, né.
    Vou tentar lê-lo mais uma vez.
    Bjs

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