14 de outubro de 2017

Resenha: Ninguém Nasce Herói

Num futuro em que o Brasil é liderado por um fundamentalista religioso, o Escolhido, o simples ato de distribuir livros na rua é visto como rebeldia. Esse foi o jeito que Chuvisco encontrou para resistir e tentar mudar a sua realidade, um pouquinho que seja: ele e os amigos entregam exemplares proibidos pelo governo a quem passa pela praça Roosevelt, no centro de São Paulo, sempre atentos para o caso de algum policial aparecer. Outro perigo que precisam enfrentar enquanto tentam viver sua juventude são as milícias urbanas, como a Guarda Branca: seus integrantes perseguem diversas minorias, incentivados pelo governo. É esse grupo que Chuvisco encontra espancando um garoto nos arredores da rua Augusta. A situação obriga o jovem a agir como um verdadeiro super-herói para tentar ajudá-lo — e esse é só o começo. Aos poucos, Chuvisco percebe que terá de fazer mais do que apenas distribuir livros se quiser mudar seu futuro e o do país.

Título Original: Ninguém Nasce Herói
Autor: Eric Novello
Páginas: 384
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

A realidade de Ninguém Nasce Herói é absurdamente assustadora, mas, infelizmente, parece cada vez mais possível. Afinal, o que impede o nascimento de um governo totalitário baseado em um fundamentalismo religioso no país quando os extremos estão tão exacerbados? O ódio, afinal, está por toda a parte, gratuito e irracional, contra todo aquele que não se enquadra num "padrão" aceitável. Foi essa a razão que me levou a escolher o livro para leitura e Eric Novello conseguiu criar um enredo bem amarrado e rico, cuja realidade, embora não esteja concretizada, poderia ser real um dia.

O protagonista da trama, Chuvisco, sente que está fazendo sua parte para mudar o mundo ao distribuir livros banidos pelo governo. Quando ele encontra um garoto atacado por uma das milícias urbanas incentivadas pelo governo, sabe que a única coisa certa a fazer é salvá-lo. Chuvisco percebe, então, que distribuir livros pode não ser suficiente para mudar o país, mas qual será o preço disso? Colocar seus amigos e a si mesmo em risco pode resolver as coisas?

Narrado em primeira pessoa, o livro traz questionamentos importantes sobre aderir a um sistema em que não se acredita por medo e a coragem de enfrentar as injustiças, ainda que seja por pequenos gestos. A forma como o autor construiu a aura de medo que os personagens enfrentam foi meticulosa, tanto que consegui sentir a tensão como se estivesse naquele momento político, e a crítica velada sobre as pessoas que fingem não ver as atrocidades para se protegerem se assemelhou bastante às demais ditaduras que já vivenciamos no país.

A verdade é que ninguém nasce herói.
Mas isso não nos impede de salvar o mundo de vez em quando.

Em minha opinião, o aspecto político do livro foi seu ponto alto, pois trouxe reflexões relevantes sobre opressão, violência, preconceito e a inversão do papel do Estado, que ao invés de defender e proteger, agride seus cidadãos. Aliás, a realidade do livro não difere tanto assim do que o país vivencia hoje, mas mostra quão pior pode ser se deixarmos intolerantes ocuparem papéis tão importantes no poder.

Outro ponto interessante da leitura e que foi bem trabalhado pelo autor foi a diversidade de seus personagens. Gays, negros, transexuais, todos estavam representados no livro e o mais fascinante sobre isso é que o autor conseguiu inseri-los sem pender para um lado preconceituoso nem caricato. Eram pessoas comuns, pessoas incríveis, e, na verdade, o que menos importava neles era como aparentavam ou suas opções sexuais. 

Meu único problema durante a leitura foram as catarses criativas de Chuvisco. O personagem sofre de algum tipo de distúrbio em que confunde fantasia com realidade e, nos momentos mais tensos da trama, a catarse tomava grandes proporções, a ponto de o garoto narrar os acontecimentos como se fosse um super-herói com armadura e tudo o mais. O fato de essas fantasias acontecerem somente na mente de Chuvisco torna a  trama confusa, pois ele descreve situações que não acontecem de verdade. Em alguns pontos, é difícil distinguir o que é realidade ou não - e eu entendo que essa confusão aconteça também na mente do personagem -, mas isso tornou a leitura cansativa para mim a ponto de eu levar dias para concluir um único capítulo. Sei que essa característica do personagem teve relevância para sua construção e para o enredo, mas, no meu caso, foi o grande problema do livro, e sinto que teria gostado muito mais sem esses momentos fantasiosos.

Ninguém Nasce Herói, apesar de confuso em alguns momentos, foi uma boa leitura, que mostrou a importância de lutar por aquilo em que se acredita e que não é preciso ter grandes poderes para ser herói na vida de alguém.

18 comentários:

  1. Tinha visto uma resenha desse livro que me deixou bem interessada. É bom ver algo a mais reforçando o que já vi sendo dito. É um livro que tem uma graça exatamente por explorar o que seria uma política com as pessoas erradas no poder, com o preconceito e a opressão tomando conta de tudo e como todas essas coisas ruins juntas poderiam destruir ainda mais um país. É horrível, mas não foge muito da realidade. Um exagero que causa medo mas que a gente consegue imaginar porque não é impossível não é? O personagem do Chuvisco chama atenção pelos riscos que toma e por essa confusão mental dele. Deve ser meio louco ler e ficar ali tentando entender o que é de verdade e o que é fantasia, mas essa confusão até me chama atenção porque deve dar pra gente ter um ideia melhor do que o personagem sente vivendo um momento desses, o que ele gostaria de estar fazendo ou quer fazer sabe? Acaba fazendo a gente pensar, sei lá. Me passou essa ideia. E é legal que os outros personagens tenham essa diversidade também. Acaba sendo uma crítica bacana de acompanhar por mostrar como existem pessoas diferentes nesse meio e como tudo isso os afeta. É um livro que faz a gente refletir, acho. Por isso gostei dele.

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  2. Adorei a premissa.
    Uma situação tão próxima da que estamos nos encaminhando.
    Jovens resistentes que usam o conhecimento como armas, são meu orgulho.
    ótimo saber da diversidade ´presente no livro. Realmente, esse vai entrar para a minha lista de desejados.
    Obrigada por me apresentar tal obra.

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  3. Olá, o que mais me fascina em distopias é o fato que nenhuma nação está isenta de ser comandada por um governo semelhante ao que encontramos nesse gênero literário. Nessa obra o autor, além entregar uma trama assustadoramente criativa, chama atenção, pois não costumamos encontrar um livro nacional desse gênero. Fiquei curioso para adentrar nesse Brasil paralelo. Beijos.

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  4. Ju!
    Muito bom ver que o autor criou uma nova realidade para nosso país, que diga-se de passagem, não gostei nadinha, e a analogia com as crises que vivemos, torna o livro até crível, embora seja uma fantasia bem alucinatória, não é não?
    Sempre bom conhecer um novo escritor nacional e que escreve com qualidade.
    Um final de semana alegre e feliz!
    “Não há nada que faça um homem suspeitar tanto como o fato de saber pouco.” (Francis Bacon)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  5. Triste constatar que esta história que se passa no futuro já aconteceu no passado; alguns detalhes da história me lembraram muito o que aconteceu nas Guerras Mundiais, e como a resistência agia.
    Também é doloroso admitir que há possibilidades desse futuro se tornar real.
    Uma leitura importante, com críticas sociais, políticas... Mas há um consolo em saber que se algum dia algo parecido acontecer (rezo para que não), teremos muitos heróis para mudar essa realidade.

    Beijos

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  6. Oi ju.
    É triste ver que apesar de se tratar de uma fantasia, essa realidade descrita não está muito longe da nossa realidade, isso como você falou, só mostra que pode piorar.
    Achei uma pena o fato de que em alguns momentos a escrita do autor te prender a tanto e te entendo, dependendo da maneira como é feita, pode ser realmente confuso.
    Enfim eu quero ler o livro com toda certeza.
    Bjs.

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  7. Gostei bastante da sinopse, achei bem diferente a trama
    Ainda não li, porém achei que muitos aspectos do livro parecem ser realidade mesmo.
    Já estou querendo ler.

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  8. Sem dúvidas a realidade deste livro é bem assustadora.
    Não costumo muito ler livros que tenham assuntos envolvendo política, mas lendo um pouco mais sobre a história deste livro na sinopse e em sua resenha, percebi que é um livro bem interessante de ser lido, com uma história que faz o leitor refletir.
    Adicionei Ninguém Nasce Herói em minha lista de leituras, e espero conseguir ler este livro em breve.

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  9. Tenho muita vontade de ler este livro, exatamente por retrata a luta pelas questões que nos interessa ou por aquilo que acreditamos. Uma pena que o autor não conseguiu diferenciar a realidade da fantasia, fazendo com a leitura se tornasse confusa, porém curti muito a premissa deste livro, e por isto pretendo sim apesar de alguns pontos negativos ainda gostei muito desta estória.

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  10. Olá Ju!
    Gosto de livros que trazem um toque de realidade, apesar de não curtir mto livros que trazem política este me aprece bacana...
    Bjs!

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  11. Oi Ju!

    Que resenha, hem?!

    Tenho muita vontade de ler este livro e por falta de oportunidade ainda não o li. A cada crítica fico eufórico para ler o quanto antes rsrs

    Grande abraço!
    www.cafeidilico.com

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  12. Oi Ju, eu gostei do livro no geral, porém fiquei um pouco decepcionada com relação a parte histórica e política, para mim tudo poderia ser bem mais aprofundado e estruturado, apesar de ter sido bem retratado a meu ver faltou base. As catarses tbm foram um problema para mim, mas não achei o livro ruim

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  13. Parece ser um livro muito interessante, devido aos temas abordados que são bem atuais e reis, o autor mostra o que a população sente o medo de fazer diferente, de ajudar mesmo que tenha que ir contra o governo e a própria sociedade, pena essa parte da catarse ter ficado confusa a leitura.

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  14. Oi Ju,
    Distopias sempre nos trazem um cenário possível, mas uma que se passa no Brasil faz com que essa possibilidade seja mais real e impactante. Ninguém nasce herói se difere e destaca por sua grande representatividade das minorias, algo ainda difícil de ver em livros, principalmente em uma história tão importante como esta. Chuvisco é a representação de muitas pessoas que através de pequenos gestos fazem a diferença e agem por instinto quando alguma injustiça acontece. Seus pensamentos hora confusos e fantasiosos podem dificultar a leitura e fazer o leitor duvidar das cenas, mas entendo que o autor quis explorar com isso, não somente a possibilidade de uma doença, mas as inúmeras vezes que alguém se imaginou como um herói e salvando o mundo. Eu já havia ficado interessada neste livro quando foi lançado, mas a cada resenha que leio fico mais ansiosa para saber o rumo desta história.

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  15. Só por ser uma obra nacional e que se passa num futuro distópico aqui no Brasil já me deixou mais que interessado. Apesar de ter esses pontos confusos, quero muito ler tanto também pela mensagem muito importante sobre lutar por seus objetivos. Abraços!

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  16. Creio que seja a segunda resenha que leio sobre este livro, e ambas foram bem positivas em relação a proposta do livro, até por não ser um tema tão normal para livros,e também me lembro do comentário assim como o seu sobre a narração e desenvolvimento da história, creio que seja um livro super bacana de se ler, mas para se realizar de uma forma mais lenta para entendermos bem a historia. 

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  17. Oi!
    A premissa do livro é bem interessante, aonde o Brasil tem uma Ditadura Fundamentalista e Religiosa e como a sociedade convive com isso. Mas sinto que não irei gostar da leitura. Então, dessa vez eu passo a dica.
    Beijos.

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  18. Oi, Ju!!
    Gostei muito da indicação desse livro, achei bem bacana a premissa do livro pois fala de um país distópico e fiquei mais empolgada ainda quando vi que esse país era o Brasil, sem dúvida vou anotar esse livro como dica agora para BF!!
    Bjoss

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