21 de janeiro de 2018

Resenha: A Pérola que Rompeu a Concha

Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar. Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre. Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul. A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos.

Título Original: The pearl that broke its shell
Autora: Nadia Hashimi
Páginas: 448
Tradução: Simone Reisner
Editora: Arqueiro
Livro recebido em parceria com a editora

Em A Pérola que Rompeu a Concha, conhecemos Shekiba e Rahima, duas mulheres que viveram em épocas diferentes, mas vivem uma situação muito parecida. Shekiba é a trisavó de Rahima e viveu no Afeganistão do início do século XX, quando Habibullah Khan era o rei e depois foi substituído por seu filho Amanullah Khan quando foi assassinado. Nesse contexto, as mulheres não tinham direito algum, eram tratadas da forma que melhor servisse aos homens, não podiam sair desacompanhadas de casa (quando o faziam tinha de ser escondido e era considerado uma vergonha para a família).

Rahima vive no Afeganistão após a queda dos talibãs, assim, seu país está todo destruído após a guerra (a personagem descreve seu cenário como extremamente monótono e sem cores), as mulheres conquistaram algumas coisas, mas ainda são tratadas como objetos. A diferença do cenário das duas personagens é perceptível, mas em relação aos direitos das mulheres, pouco foi conquistado. Tanto é que, como Rahima só tem irmãs, ela precisa se tornar uma bacha posh, que é um costume dos afegãos que só têm filhas mulheres, então uma delas se veste e age como um menino.

Quando solicitei A Pérola que Rompeu a Concha, eu já tinha uma pequena noção da cultura afegã por causa de um livro que li para a escola há alguns anos. Então, como gostei do livro na época, imaginei que esse também seria interessante, mas acabei me surpreendendo bastante. Como o livro que eu havia lido era indicado para um público mais novo, os detalhes e os acontecimentos não eram retratados com tanta brutalidade nem tanta clareza quanto a descrição de Nadia Hashimi. A surpresa que esse livro me causou não foi de forma alguma negativa, mas sim um colírio para os olhos.

Os pais da autora são afegãos que foram para os Estados Unidos em 1970, então, mesmo ela não sendo natural do Afeganistão, tem muito contato com a cultura e pesquisou bastante antes de escrever o livro (conforme entrevista ao final do mesmo). Logo, a história soa muito como um relato, fato que nos faz envolver ainda mais com a narrativa. A leitura, para mim, foi muito pesada, já que apesar de saber um pouco da cultura desse povo, nunca tinha lido nada parecido nem procurado saber mais.

Em alguns capítulos eu simplesmente tinha que parar e dar um tempo para absorver todo o conteúdo, principalmente porque a cultura deles é completamente diferente da nossa e eu ficava irritada ao ler certas coisas. A escrita de Nadia é tão detalhada que sentimos quase como se estivéssemos junto dos personagens, o que fez com que fosse ainda mais impossível ler muitos capítulos de uma só vez.

Outra coisa que me chamou muito a atenção foi o fato da autora mesclar algumas palavras, eu não pretendo aprender a língua, mas a forma como um prefixo ou sufixo indica respeito e posição social é muito interessante. No começo fiquei um pouco perdida, pois para alguns nomes a autora não dá muitas explicações, mas com o passar das páginas é fácil compreender o significado de cada um. O que me leva aos nomes, Amanullah, Habibullah, Abdullah, qualquer coisa llah são muito comuns. Algumas vezes tive que ler o nome mais de uma vez para perceber que não eram iguais (risos). Alguns personagens são reais (como Amanullah e Habibullah, que foram ambos reis do Afeganistão) e outros foram criados pela autora, mas como eu já disse, a obra é tão realista que parece um relato.

Acompanhar a trajetória das personagens e perceber a semelhança entre Shekiba e Rahima é muito interessante. Ver como Rahima se apaixona por um colega sem perceber, mas não pode ficar perto dele porque tem que voltar a ser menina e é prometida em casamento para outro é de partir o coração. São detalhes que não estão descritos mas podem ser subentendidos.

Apesar do peso do livro, eu o considero um livro que todos deveriam ler. Com uma perspectiva diferente, aprendemos um pouco mais sobre a cultura afegã e sobre uma realidade que parece estar muito distante de nós. A Pérola que Rompeu a Concha se tornou um dos meus livros preferidos, acredito que, apesar de estarmos apenas no começo do ano, será o melhor livro que li.

21 comentários:

  1. Que bacana...
    Vi muitos comentários positivos sobre este livro, mas é a primeira vez que leio uma resenha.
    Gostei muito. Nunca li nada da cultura do Afeganistão, então é uma chance de conhecer.
    Parece uma história forte, intensa, essas personagens são bem interessantes. Espero ter a chance de ler.

    Beijos

    ResponderExcluir
  2. Olá, acredito que a obra deve causar um choque inicial nos leitores, afinal o contraste de culturas desafia nosso senso comum a desafiar o certo do errado e vice e versa. Gosto bastante de obras com pesquisas feitas pelo autor, que as deixam mais ricas e interessantes. Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Acho legal livros que mostrem outras culturas, mas quando a gente vê umas coisas que são pesadas ou não consegue entender....ai ai. É interessante saber como vivem em outros lugares, a coisa da linguagem, dos hábitos e tal. Leria só por isso porque acho bom ter esse tipo de conhecimento ao ler alguma história assim. Tem muita injustiça na história e umas coisas bem tristes, só de ler a sinopse já dá pra ter uma ideia que vai ser um livro que vai me deixar com uma coisa aqui dentro. Mas deu vontade de ler sim.

    ResponderExcluir
  4. Oi Ale, pela sinopse e pela resenha a historia que se passa no livro é o que acontece ainda nos dias de hoje mulheres que são privadas de tudo e que não podem se quer sair sozinhas ou ter sua independência. Que bom que escritora consegue retratar bem cada conteúdo dessa cultura e desse país mesmo as partes mais pesadas acho que assim o leitor entra mais a fundo e entende mais a historia que esta sendo contada, com certeza vou ler esse livro acho que vai ser uma leitura emocionante e que ira me fazer refletir obrigada pela dica bjs.

    ResponderExcluir
  5. Olá Alê! Essa é uma leitura bem desafiadora pois a cultura dos países do oriente médio é muito diferente da nossa e certos costumes são bem chocantes. Eu gostei de premissa do livro e estou curiosa para conhecer as personagens e os empecilhos que elas enfrentam. O título me chamou muito a atenção. Espero poder ler a obra um dia. Beijos

    ResponderExcluir
  6. Eu não conhecia este livro e ainda não li nada da cultura do Afeganistão, mas após ler sua resenha sobre a história deste livro acabei ficando curiosa para ler ele, a história parece ser forte e acho que seria um livro interessante de se ler, como você citou em sua resenha, é uma história com uma perspectiva diferente e com ela aprendemos um pouco mais sobre a cultura afegã. Adicionei A Pérola que Rompeu a Concha em minha lista de leituras.

    ResponderExcluir
  7. Ooi, já tinha ouvido falar desse livro, e tenho muita curiosidade para ler, até porque não sei nada da cultura desse povo, então acho que seria bem interessante ler um livro assim.
    Parece ser uma leitura bem pesada e interessante.

    ResponderExcluir
  8. Primeira resenha que leio deste livro e juro que quando vi a capa pela primeira vez, achava ser uma história da Lucinda. Não sei os motivos, mas a capa me remetia aos livros dela.rs
    Amo livros que trazem a cultura deste povo. Do sofrimento, das leis, das diferenças tão claras entre homens e mulheres.
    Por mais que se leia sobre o assunto, sempre tem um ponto ou outro que a gente desconhece e acaba ficando até estarrecido quando lê.
    O livro já está na minha lista de desejados e espero muito poder conferir!
    Beijo

    ResponderExcluir
  9. Oi, Anna.

    O livro nos mostra a realidade de vida de duas mulheres que têm suas histórias de um certo modo, entrelaçadas, que servem como exemplo, e nos faz conhecer um pouco sobre a cultura afegã. Embora, para nós, talvez seja algo fora do comum, e com coisas inaceitáveis.

    Duas mulheres que acham uma saída, uma maneira de serem livres, de crescerem com liberdade, que estavam em busca dela.

    Sem sombras de dúvidas, isso é fantástico!

    ResponderExcluir
  10. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  11. É a primeira vez que ouço falar do livro e confesso que o livro parece ser muuito interessante, nunca tive muito interesse na cultura afegã e nunca li nada a respeito, mas agora sabendo um pouquinho por cima parece ser algo bem dificil e por conta disso mesmo o livro parece bem pesado!! não sei se é uma obra que eu leria, mas deve trazer uma carga emocional muito grande
    o fato de nós mulheres sermos tratadas como objeto desde que nos entendemos por gente já nos dói, agora imagina ter que se vestir de homem para poder sair sozinha de casa,pelo menos assim elas acharam uma forma de ao menos tentarem ser um pouco livres! adoro livro onde as protagonista são fortes e dão o seu máximo para conquistar aquilo que quer msm sofrendo!!Quem sabe uma hora eu leia esse livro, mas por enquanto não sei se aguentaria ler o livro principalmente por que a autora é muito detalhista em relação ao assunto do livro.

    ResponderExcluir
  12. Nunca li nada parecido com a cultura do Afegalistão, é legal descobrir mais sobre a cultura de um país com o qual ainda não sei muito. Fiquei muito curiosa para ler o livro, ainda mais por se tratar de duas épocas diferentes.

    http://garotaeraumavez.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  13. Deve ser uma leitura muito boa, essa cultura pelo visto é bem diferente da nossa e estranhamos quando lemos algo assim, é de ficar horrorizada com as coisas que as mulheres não podem fazer e com o que elas tem que fazer. Deve nos incomodar e muito a leitura, mas é muito bom saber como são as coisas em outros lugares e a dificuldade que elas passam lutando por algum direito.

    ResponderExcluir
  14. Oi Alê! Adoro livros que nos apresentam novas perspectivas culturais, mesmo com o choque inevitável que sempre acontece. Acho que é sempre muito saudável a gente sair um pouco do nosso universo e conhecer coisas novas, aprender, entender as diferenças. Gostei muito da sua resenha, parece um livro bem pesado, mas bem emocionante também.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  15. Alê!
    Devo concordar com você quando diz que todos devemos ler o livro, primeiro porque mostra uma cultura totalmente diferenciada da nossa, onde as mulheres valem menos do que qualquer coisa e ainda tem a questão dos talibãs e toda opressão do país. Sem contar que amo os detalhes, principalmente em livros como esse quando não conhecemos quase nada...
    Já anotei aqui.
    Desejo uma semana produtiva e abençoada!
    “Bem aventurados os que mudam suas atitudes sem esperar um ano novo.” (Desconhecido)
    cheirinhos
    Rudy
    1º TOP COMENTARISTA do ano 3 livros + Kit de papelaria, 3 ganhadores, participem!

    ResponderExcluir
  16. Oi Alê!
    Não conhecia o livro, mais pelo pouco que sei sobre o Afeganistão, creio que as histórias contadas não sejam tão diferentes do que as mulheres que vivem lá ainda passam hoje. Acredito que o mais interessante do livro é conhecer a cultura deles, o que pregam e o que acreditam, mas também tem um lado bem triste isso tudo, de saber que mesmo com alguns direitos conquistados, a vida delas ainda é bem ruim. Acredito que seja uma leitura bem emocionante.
    Beijos

    ResponderExcluir
  17. Achei legal livre se passar no Taliban já li um livro parecido com os filhos que foram criados com pais drogados que eram bem intensos a leitura foi tão boa que eu tentei ler esse livro mas empacou no meio do caminho mas eu não achei ele ruim só achei exageradamente dramático em algumas partes

    ResponderExcluir
  18. Oi Alê,
    Não conheço muito sobre a cultura afegã, mas o pouco que sei me deixa muito desconfortável, principalmente no que se refere as mulheres. A Pérola que Rompeu a Concha é uma história que trás a realidade dentro de uma ficção e isto é o tipo de característica que adoro em um livro. Sei que não é a minha realidade, mas gosto de ler um livro onde consigo ver um objetivo claro por trás da trama, onde o autor expõe verdades e nos choca com elas. As protagonistas podem ter um século que as separe, mas na cultura que vivem isso não faz nenhuma diferença e é aflitivo ver que em meio a tantas evoluções, certos costumes não são modificados nunca.

    ResponderExcluir
  19. Achei esse titulo muito bem bolado. Eu adoro livros que apresentam outras culturas e ainda mais narrados pela visão de mulheres não tem como eu não identificar. Acho livros que mostram uma realidade diferente da nossa incríveis eles expandem nossa visão do mundo e nos fazem olhar "fora da concha". Pretendo ler em breve.
    Obrigada pela resenha!! :D

    ResponderExcluir
  20. Sempre tenho medo de ler esse tipo de livro, pois eles trazem uma carga emocional tão grande que se não estamos preparados acabamos ficando mal e absorvendo muita coisa. Achei a história bem triste principalmente pela Rahima que não pode ficar com quem gosta, mas é o costume da região.

    ResponderExcluir
  21. Oi, Alê!!
    Nunca li nada sobre a cultura afegã, mas fiquei bem curiosa para descobrir mais sobre essa história tão interessante. Certamente é um livro que traz uma cultura que pouco conhecemos e que é muito diferente da nossa. Adorei a indicação.
    Bjoss

    ResponderExcluir

 
Layout feito por Vinícios Costa editado por Silviane Casemiro | Todos os direitos reservados ©