21 de agosto de 2019

Por Que Falamos de Cultura do Estupro?


Quando julgamos e avaliamos crimes, de forma geral, nós ― quando eu digo "nós", me refiro à sociedade como um todo ― sempre condenamos o agressor, afinal, foi uma escolha dele. Porém, caso vocês nunca tenham reparado, essa premissa não é válida quando um homem estupra uma mulher. Obviamente é um crime, também foi escolha do agressor, mas todo mundo sempre arranja um jeito de culpabilizar a vítima: "ah, mas andando sozinha a essa hora da noite, queria o quê?", "usando essa roupa curta também, tava pedindo", "se não tivesse bêbada, não teria acontecido".

Esse tipo de argumento está associado à cultura do estupro que, segundo o movimento HeForShe Brasil, "é um termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima, isso significa que existe uma cultura do estupro." Tudo isso é consequência da neutralização e normalização de comportamentos e atos machistas, sexistas e misóginos, que atiçam todo tipo de violência contra a mulher. 

Qualquer argumento sobre comportamento ou conduta da vítima tira o foco de que há um agressor, que agiu por escolha e contra a vontade da mulher em uma situação em que ela estava vulnerável. Ora, nenhum argumento ― repito, nenhum ―, deveria justificar, muito menos normalizar, um crime tão bárbaro quanto o estupro. Não são as mulheres que devem "se dar ao respeito", são os homens que TÊM que parar de estuprar. 


No Brasil, segundo o 12º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, só em 2017 foram registrados cerca 60 mil casos de estupro, levando em consideração que apenas 8% dos casos são denunciados aqui no nosso país. Está aí mais uma consequência da cultura do estupro, já que a vítima sente medo e tem vergonha de denunciar. Eis uma triste realidade: esse número altíssimo de casos registrados e também as subnotificações só afirmam que o Brasil não apenas tolera quanto incentiva a cultura do estupro. 

É por causa de todas as informações anteriores que julgo Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro, de Sohaila Abdulali, um livro extremamente necessário. A autora, que sobreviveu a um estupro coletivo aos 17 anos de idade em Bombaim, fala de forma muito simples sobre a necessidade de combater a violência sexual e a cultura do estupro. A obra é cheia de exemplos que confirmam tudo o que ela afirma, exemplos tão absurdos que têm a capacidade de deixar o leitor, na falta de uma expressão melhor, deveras indignado.

Por exemplo, vocês sabiam que na Índia, Gana, Jordânia e diversos outros lugares, a partir do momento em que uma mulher se casa com um homem, ela automaticamente transfere os direitos sobre o seu corpo ao marido. A lei afirma que o casamento significa acesso pleno, a mulher não precisa dar consentimento. Ou seja, estupro marital, que é uma realidade em qualquer país, não é minimamente considerado. Se seguir a vida já é difícil após um estupro, imaginem vocês continuar morando no mesmo teto que seu abusador. 

Usar saia curta, usar maquiagem, saber dirigir, deixar seu hijab (conjunto de vestimentas preconizado pela doutrina islâmica) em casa. Ter nascido mulher. Somos culpadas por tudo isso e muito mais; então, é claro que acabamos internalizando esse sentimento. (p. 74)

Sohaila Abdulali está no seu lugar de fala não só pelo sofrimento que foi submetida, mas também por ser mulher. A abordagem da autora, ainda que simples e natural ― o que pode, inclusive, causar certo estranhamento ―, é um alerta sobre a forma que enxergamos o estupro. Abdulali conversa sobre tudo, desde como a vítima é encarada na sociedade até como os agressores são tratados nos tribunais (se é que eles chegam até lá, não é mesmo?). 

Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro é o tipo de livro que mexe com a gente, que causa revolta, que abre os nossos olhos. Me fez entender que não devemos aceitar o silêncio que ronda o estupro. Precisamos ter voz, precisamos escutar. Esse livro é só primeiro passo para entender essa tal cultura a que estamos inserido, porque nós precisamos transformá-la.

Título Original: What We Talk About When We Talk About Rape
Autora: Sohaila Abdulali
Páginas: 256
Tradução: Luis Reyes Gil
Editora: Vestígio
Livro recebido em parceria com a editora

Depois de sobreviver a um estupro coletivo aos 17 anos em Bombaim, Sohaila Abdulali ficou indignada com o silêncio ensurdecedor que se seguiu e escreveu uma coluna inflamada sobre a percepção acerca do estupro – e de suas vítimas – para uma revista feminina. Trinta anos depois, sem aviso, seu artigo voltou à tona e viralizou, na esteira do estupro coletivo ocorrido em Nova Deli, em 2012 (que resultou na morte da vítima), incentivando Abdulali a escrever outro artigo para o New York Times – que circulou amplamente – sobre o processo de cura de um abuso sexual. Agora, a autora apresenta Do que estamos falando quando falamos de estupro: um olhar profundo, generoso e inflexível sobre o estupro e a cultura do estupro.
Partindo de sua própria experiência, bem como de seu trabalho atendendo centenas de vítimas nos Estados Unidos, além de três décadas de trabalho intelectual feminista, Abdulali encara algumas das questões mais espinhosas sobre o tema. Em entrevistas com sobreviventes do mundo todo, ouvimos relatos emocionantes de força encontrada na adversidade, no humor e na sabedoria que contam, em conjunto, uma história maior sobre o significado do estupro e como a cura pode advir.
Abdulali também aponta questões sobre as quais não conversamos: Um estupro é sempre um evento que define uma vida inteira? Um estupro é pior do que outro? Um mundo sem estupros é possível?
Do que estamos falando quando falamos de estupro é um livro para a época de movimentos como #MeToo, #TimesUp e #MeuPrimeiroAssédio, que vai permanecer com seus leitores – tanto homens quanto mulheres – por muito, muito tempo.

17 comentários:

  1. Uma reflexão muito interessante e relevante! Parabéns por tocar na ferida de forma forte e emponderada, sem "mimimis", feminino como deve ser.

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  2. Sem dúvida é um tema que embrulha o estômago mas que precisa ser discutido. O Silêncio nesses casos é ensurdecedor.
    Há muito o que ser aprendido sobre a cultura do estupro. Para que nos sintamos protegidas, para dar suporte as vítimas, para que não aconteça mais, para que parem de culpar a vítima, para que só a palavra dela baste, para que o agressor seja penalizado.
    Abdulali é uma sobrevivente! Usa sua experiência para educar e ajudar.

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  3. Infelizmente é a mais pura verdade tudo o que você escreveu, "temos" tendência a culpar a mulher em casos de estupro. A mulher tem total liberdade de sair para onde e como quiser, assim como qualquer homem. Toda escolha é unicamente dela. Ouvir pela voz de alguém que passou pela por essa experiência, como a autora, é importante para esse amadurecimento que todos precisamos ter.

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  4. Esse post. 💖
    Precisamos tanto permanecer falando sobre esse assunto, e esse livro só vem para agregar.
    Necessário, forte e enriquecedor; vou querer ler.

    Beijos

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  5. Olá! Que livro necessário!
    Esse é um tema que revolta e choca, mas é de extrema importância que a gente discuta sobre ele.
    Precisamos combater a Cultura do estupro e a violência sexual. A culpa não é de maneira nenhuma da vítima, nós mulheres temos o direito de tomar nossas próprias escolhas, o direito de usarmos as roupas que quisermos e sairmos para o lugar que desejarmos.
    Dói e revolta demais saber que existem lugares em que as mulheres são propriedades dos maridos, onde a mulher não precisa dar consentimento. Que horror! Eu não consigo nem imaginar o quão terrível deve ser conviver todos os dias ao lado de seu próprio estuprador.
    Com certeza vou fazer essa leitura! Muito obrigada pela indicação, eu ainda não conhecia esse livro.
    E parabéns pelo post, ficou ótimo! É um dos melhores que já li aqui no Blog!
    Beijos! ♡

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  6. Só de ler tudo acima, fiquei um tanto nauseada. Apesar de saber que tudo isso é tão real e está muito perto de nós, ainda dá este nó na garganta em saber que tantas mulheres passam por isso a cada segundo e o pior, em muitos casos, dentro de suas próprias casas.
    Confesso que fiquei assustada com isso que acontece na Índia, sobre o marido ter direito a sua esposa desta forma. Não como uma forma de amor, mas como posse, dominação e que pode sim, a violentar a hora que bem entender.
    Cara, dói na alma pensar que isso não é ficção.
    Mais livros, mais filmes, mais matérias, mais informações como esta que está no blog hoje deveriam ser gritadas todos os dias, para que a gente abra nossos olhos e paremos de condenar nossas próprias irmãs. Que passemos a nos ajudar, a nos protegermos e sim, lutar por uma vida mais digna e justa a mulheres de outros países!
    Um post dolorido, mas essencial.
    Parabéns!!!
    Beijo

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  7. Esse assunto é muito pesado e me causa muita revolta, ainda mais pelas justificativas podres que a sociedade ainda tem para casos assim. Não sei se conseguiria ler, mesmo sendo tão relevante. São situações que me deixam com raiva, enojada e meu Deus, só de imaginar coisas como isso do estupro no casamento ser considerado normal em outros lugares, que a lei não olhe pra casos assim...ah, esse tipo de informação acaba comigo. Não consigo nem começar a imaginar o que essa autora passou, tão jovem e sofrer um crime como esse, uma brutalidade dessas. É um assunto a ser discutido, mas me deixa com muitos sentimentos ruins. Não é fácil ler algo assim.

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  8. Só tenho a dizer: muito obrigada por esse texto. Foi maravilhoso. E triste ainda ter que abordar esses assuntos, mas é de uma importância que não cabe em palavras. Ótimo video tbm, simples e curto, mas bem claro. Não é nem de perto o tipo de leitura q eu gosto, mas com certeza vou dar uma pesquisa e talvez ler esse livro. Obrigada de novo :)

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  9. Oiii ❤ Dói tanto saber que a sociedade sempre culpa as vítimas nos casos de estupro, a culpa é sempre da vestimenta, ou melhor, da mulher, nunca do estuprador.
    O descaso com as vítimas, é muito grande, muitas vezes são desestimuladas a denunciar, e quando denunciam, não são levadas a sério.
    Eu não entendo, como uma pessoa pode achar que é dona do corpo de outra?! Um casamento não deve significar nunca que a mulher pertence ao marido. Mulheres não são objetos! O casamento nunca poderá ser uma justificativa para o sexo sem consentimento.
    Por isso e muitos outros motivos, acho que ler esse livro é de extrema importância. Livros desse tipo deveriam ter mais divulgação.
    Com certeza, vou querer fazer essa leitura.
    Obrigada pela publicação incrível, se todo mundo pensasse assim...❤
    Beijos ❤

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  10. Este é um livro necessário para a nossa realidade que trata a mulher de uma forma tão objetificada. Realmente, é estarrecedora a crescente violência sexual contra as mulheres e, além disso, as vítimas costumam ser culpadas pelo ocorrido e, muitas vezes, são constrangidas pelas autoridades policiais, que na maioria são homens.
    Achei muito interessante as perguntas que autora responde no livro e a naturalidade com que trata o tema, embora tenha sido vítima de estrupo coletivo, ainda na adolescência. Com certeza, a resiliência de Abdulali é de se admirar.

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  11. Dói saber que esse livro não é uma ficção e que isso é algum comum na nossa sociedade. Pra mim, esse é o tipo de livro que todo mundo deve ler ou ao menos ter conhecimento da existência dele - já que é um livro delicado. Eu sabia que existia alguns países onde, infelizmente, o marido tem direito sobre o corpo de sua esposa mas não sabia que a Índia estava incluso neles. Ninguém além do dono do corpo deveria ter direito sobre ele. Nada justifica o estupro, nem o fato de duas pessoas estarem casadas ou muito menos a roupa que a vítima está usando.
    Apesar de não ser o estilo de livro que eu estou acostumado a ler, com toda certeza eu vou pesquisar sobre.

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  12. Olá!
    Esse é um tema bastante complicado para ser debatido, alguns acreditasse que a culpada sempre e a mulheres, outros os homens. Gostei bastante da resenha, foi uma maneira incrível se trata esse tema, é claro que fiquei curiosa pelo livro.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  13. Oi Ana ;)
    Todos os livros/filmes (e claro, histórias reais também) que falam sobre esse tipo de crime me tocam muito, sempre fico sensibilizada.
    Confesso que não sei se teria coragem de ler "Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro", pois livros fortes assim me deixam mal de verdade. Mas entendo porque é uma leitura tão necessária, principalmente para informar.
    Acho o movimento HeForShe bem legal, é de pessoas assim engajadas que precisamos!
    Bjos

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  14. Que temática forte e necessária para o mundo que vivemos. Não conseguiria ler esse livro, mas é um assunto que ninguém deveria se calar.

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  15. Oi, Ana
    Ainda não li o livro e quero muito ler em breve.
    É um tema que causa certa indignação mas é necessário que todos tenham acesso ao livro, conversar sobre o assunto.
    Conheço mulheres na minha cidade que foram violentadas pelos seus próprios maridos e isso é um absurdo, imagina nascer numa cultura onde dão posse ao corpo da mulher ao marido sendo como um objeto e não uma pessoa para amar e construir um lar.
    Beijos

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  16. Oi, Ana
    Não conhecia esse livro, mas quero pra ontem!
    Concordo com tudo o que você disse.
    Infelizmente a cultura do estupro é muito real, e no Brasil acontece o tempo todo.
    É horrível passar por isso, é horrível saber que isso pode acontecer com qualquer uma de nós. Sinceramente, tenho medo o tempo todo, ser mulher nesse mundo não é fácil não.
    É importantíssimo lermos mais e compreendermos qual a melhor forma de acabar com essa cultura e como ajudar as vítimas.
    Sempre ajudar e nunca julgar.
    bjs

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  17. Oi, Ana!!
    Que indicação perfeita, infelizmente os casos de estupro tem aumentado cada vez mais e lamentavelmente a culpa do estupro na maioria das vezes recai sobre a vitima é não no agressor.
    Bjs

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