S. Bernardo | Graciliano Ramos - Roendo Livros

24 de agosto de 2019

S. Bernardo | Graciliano Ramos


A nova edição de um dos maiores romances de Graciliano Ramos. No declínio de um atribulado percurso de vida, Paulo Honório, poderoso fazendeiro do sertão alagoano, conta a sua história. O narrador revisita dramas da sua vida e conflitos internos que permanecem inexplicáveis até o momento em que suas memórias estão sendo escritas. Nem a fazenda S. Bernardo, que Paulo Honório comprou por preço irrisório, nem a professora Madalena, a quem contratou para alfabetizar as crianças do seu empreendimento rural e com quem acaba se casando, deram-lhe o sossego que tanto buscava. A escrita, então, é o que lhe resta, na tentativa de ter de volta a paz desejada. Da elaborada teia existencial desenvolvida ao longo da trama – com os conflitos entre as visões de mundo incorporadas pelos personagens –, destaca-se um texto riquíssimo, principalmente nas falas de Paulo Honório, construído em metáforas surpreendentes, ainda que disfarçadas pela concretude das palavras.

Título Original: S. Bernardo
Autor: Graciliano Ramos
Páginas: 288
Editora: Record
Livro recebido em parceria com a editora
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Eu nunca fui muito fissurada por clássicos, fossem eles nacionais ou internacionais. Tenho que admitir que eu fico com um pouco de preguiça, já que, na maioria das vezes, a linguagem é rebuscada demais para o meu gosto. S. Bernardo, por exemplo, foi lançado lá pela década de 30 e desde então vem ganhando novas edições, como essa de 2019 da Editora Record. Confesso que se eu não tivesse recebido esse livro, provavelmente morreria sem conhecer as memórias de Paulo Honório.

Tenho a leve impressão que Graciliano Ramos não gostava de exalar otimismo em suas histórias, visto que em meu segundo contato com o escritor ― o primeiro foi com Vidas Secas, quando eu ainda estava no ensino médio ― tive o mesmo sentimento de falta de esperança. Aqui, conhecemos a vida de Paulo Honório, um filho do sertão alagoano que sonha em conquistar o mundo, custe o que custar. Logo de cara percebemos que tem um caráter um tanto duvidoso: é frio, calculista, machista e bastante violento. 

Mesmo conquistando a fazenda S. Bernardo, lugar onde trabalhou e sofreu por uma vida inteira, Paulo Honório só queria saber de acumular mais riquezas e, posteriormente, arranjar um herdeiro que cuidasse de tudo. Assim, tendo em vista a forma árida como tratava todos ao seu redor, não é difícil imaginar como era o seu relacionamento com a esposa, Madalena, uma professora inteligente e humilde ― e com os dois pés no socialismo, diga-se de passagem ―, com pensamentos totalmente opostos aos seus. 

Apesar de ser um casamento arranjado e sem amor, Paulo Honório começa a desenvolver um ciúme doentio por Madalena e é a partir desse ponto que conhecemos a verdadeira face desse homem. Como S. Bernardo é narrado em primeira pessoa sob o ponto de vista do protagonista, temos acesso à todos os pensamentos dele, todos os sentimentos, todas as opiniões. O mais "engraçado" de tudo é que, ainda que seja uma história que se passa na década de 30, é impossível não comparar Paulo Honório aos "homens de bem" da atualidade. 

A linguagem utilizada por Graciliano Ramos é carregada de regionalismos, o que pode causar certo estranhamento no início da leitura, mas é bem fácil se acostumar. Por incrível que pareça, não sei se foi para eu pagar língua, o desenvolvimento da narrativa é bem fluido, principalmente porque os capítulos são curtos, tornando a leitura bem mais direta. Outro ponto positivo é que não existem descrições cansativas, tudo aqui é muito objetivo. 

S. Bernardo é um livro totalmente político e social. O final não surpreende ― na realidade, foi justamente o que eu esperava, infelizmente ―, mas acredito que demonstra com fidelidade a sociedade da época, uma classe burguesa que, de forma ou de outra, ainda prevalece no Brasil, e olha que estamos no século XXI...

18 comentários:

  1. Meu contato com Graciliano é também com Vidas Secas e Angústia e mesmo com esta linguagem rebuscada e difícil, eu gosto muito. Apesar que oh, concordo com você na falta de esperança que o autor sempre apresenta em seus enredos. Sei lá, penso eu que pela época, pelo sofrimento do povo e até esta certa violência que sim, existia em maior quantidade na época. A submissão, a falta de comida, de moradia, de fé.
    Ele retrata muito bem tudo isso em suas histórias e como eu não conhecia este livro do autor, fiquei muito curiosa em relação ao enredo e gostei de saber sobre estas roupagens novas.
    Espero que coração que mais clássicos sejam ressuscitados!rs
    Beijo

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  2. Tenho q confessar q o q está me fazendo comprar e ler alguns dos clássicos são os relançamentos com capas novas... eu sei q não devemos julgar um livro pela capa kkkkkkk mas quando eu vejo um livro q eu sei q é importante, mas q nao tinha tanto interesse em ler, com edições tão lindas, dá um incentivo sim kkkkk. Esse livro eu li durante o ensino médio e foi um dos poucos q eu "nao odiei".

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  3. Gosto muito de clássicos e mesmo com essa linguagem mais dificil procuro tentar ler o que der, é sempre interessante. Já tinha visto mais daquele outro dele mesmo, esse não lembro de muitas menções. Bem, tem um personagem que já não inspira muita simpatia e pelo jeito iria passar tanta raiva ao ler. Mas gostei disso do tom de atualidade pelo caráter dele... infelizmente parece que por mais que a gente tente e o mundo evolua umas coisas nunca mudam. Serve como mais um alerta e ainda mostra a realidade dos tempos. Seria uma leitura no minimo desafiadora pra mim.

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    1. Você é muito top, confesso que ainda tenho aquele preconceito no coraçãozinho. rs
      Sim menina, o livro é bem atual, se levarmos em conta o protagonista. Vale demais a leitura.

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  4. Lembro que também li Vidas Secas na época da escola, e naquele momento a leitura foi cansativa com ares de obrigatoriedade. Desde então, não li nada de Graciliano Ramos.
    Que vida teve Paulo Honório! Sua ambição desmedida o leva a fazer coisas cruéis, a cometer crimes. Ele é autoritário, machista, ignorante.
    S. Bernardo é um clássico da nossa literatura, escrito por um dos mais importantes escritores do Modernismo mas apesar disso, o livro não me atrai

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  5. Não me recordo de ter lido nenhum livro do Graciliano Ramos, mas isso não me surpreende. Eu não sou muito ligado com a literatura clássica nacional - na verdade nenhum pouco, acho que o único clássico que li por completo foi O Cortiço. Lendo a resenha fiquei um pouco interessado pra ver como é o desenvolvimento da história e de saber o que se passa na cabeça desses "homens de bem". Caso eu tenha a oportunidade, tentarei dar uma chance para S. Bernando.

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    1. Acho que a literatura nacional, principalmente a clássica, acaba assustando muito a gente, sabe? Porque tipo, tem muita coisa que a gente é meio que obrigado a ler né, na escola e tudo mais. Acho que afasta a gente demais. Mas é legal, de verdade. Às vezes a gente tem que abrir o coração.

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  6. Olá! ♡ Eu gosto de clássicos, mas não sou fã do Graciliano Ramos, não tive uma experiência muito boa com Vidas Secas, achei a escrita muito rebuscada, com expressões que eu não fazia ideia do que significavam, apesar de que a crítica que ele faz é bem interessante. Me incomoda um pouco essa falta de esperança em seus livros.
    Gostei de saber que a narrativa deste livro é bem fluída, sem descrições cansativas, são dois pontos que me agradam muito e me fazem querer dar uma chance a esse livro.
    Gostei da crítica que o autor faz nesse livro, vou dar uma segunda chance aos livros do autor, acho que vale a pena.
    Obrigada pela indicação! Beijos! ♡

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  7. Me envergonho em dizer que até hoje não li nada dos clássicos brasileiros, e também não conhecia esse do Graciliano.
    Eu gosto dessa linguagem regional, gosto de leituras que abordam esse tema político e social, então essa resenha foi bem-vinda.

    Beijos

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  8. Oiii ❤ Meu primeiro contato com o Graciliano Ramos também foi com Vidas Secas, e tenho que confessar que não foi uma experiência muito boa, já que todos os personagens, menos a Baleia, me irritavam com o seu comodismo e falta de vontade de ter uma vida melhor.
    Já de cara, já sei que Paulo Honório vai entrar para a lista de personagens que não gosto do autor. Realmente, esse homem parece com muitos outros do século XXI, que apenas parecem ser de boa índole, já que a realidade é outra...
    Gosto bastante da crítica social presente nas obras do autor, mas ainda não me decidi se quero dar outra chance a seus livros.
    Beijos ❤

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  9. Os clássicos realmente assustam. Acho que a obrigatoriedade das leituras durante o ensino médio são culpadas em boa parte por isso. Deveriam fazer um trabalho mais dinâmico para que enxergássemos o verdadeiro valor das obras. Já tive boas surpresas com alguns livros também. Esse parece uma leitura bem atraentemente, principalmente por ter capítulos mais curtos. Os autores sempre faziam esse jogo da narrativa na voz de um personagem, sempre nos deixando na dúvida sobre alguns pontos, como no caso de Dom Casmurro. Quero ler.

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  10. Olá!
    Acredite que li esse livro para um trabalho escolar no ensino médio e li dentro de três dias. História é interessante, um tanto que fiquei perdida e não gostei muito da leitura, talvez seja por conta da época que li. Mas espero muito ler em algum outro momento e entender mais a história dele.

    Meu blog:
    Tempos Literários

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  11. Olá Ana ;)
    Assim como você tive meu primeiro (e único) contato com o autor em Vidas Secas, também no Ensino Médio.
    Esse ano de 2019 tentei ler alguns clássicos que sempre me chamaram a atenção, e infelizmente nenhum deles deixou uma marca em mim. Ou não gostei ou achei mais ou menos.
    E quanto à narrativa do autor, ele realmente parece ter esse tom melancólico em todos os seus livros, já notei isso.
    Não sinto vontade em ler essa obra :/

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    1. Poxa, espero que você encontre algum clássico que te faça suspirar!

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  12. Oi, Ana
    Confesso que não li os clássicos brasileiros, começava um livro e não conseguia ler pela linguagem e pela minha maturidade na época não conseguia entender e parava a leitura. Para fazer provas e trabalhos lia os resumos dos livros.
    Mas agora estou pensando em começar ver se consigo ler esses clássicos.
    Paulo Honório é um homem cruel e muito ambicioso e enredo ainda tem muito em comum com nossa realidade.
    Beijos

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  13. Oi, Ana
    eu li esse livro no último ano do ensino médico, 7 anos já, e sinceramente, lembro muito pouco.
    O que me lembro é de ter ficado chocada em como o Paulo Honório é mau e tirando, e ter sofrido muito com o final da Madalena.
    Ai muito triste.
    Quero reler, mas estou sem coragem, rsrs
    bjs

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  14. Oi, Ana!!
    Também não leio muito clássicos nacionais ou internacionais, mas esse ano comecei a dar uma chance a esses livros ainda não li nenhum dos livros do Graciliano Ramos mas ainda quero muito dar essa oportunidade a essa história.
    Bjs

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  15. Lia muitos livros clàssicos na minha adolescência, e me acrescentaram muito. Lembro da història desse livro e das dificuldades para entender. Mas esse livro vai além de uma história, e deve ser por isso que muitos não entendem. Gostaria muito de ter a coragem para ler de novo.

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