29 de julho de 2016

Resenha: Voltar Para Casa

"Vamos, meu irmão. Vamos voltar para casa.". Frank Money volta da Guerra da Coreia com mais do que cicatrizes visíveis em seu corpo. Veterano como tantos outros, vive em profundo conflito com seus fantasmas, perturbado pela enorme culpa de ser um sobrevivente e pelas atrocidades que cometeu. Ao se deparar com um país racista e segregado, ele reluta em voltar à sua cidade natal na Geórgia, onde deixou dolorosas memórias de infância e a pessoa que lhe é mais querida, a irmã Ycidra. Ci sobreviveu como pode aos anos de ausência do irmão, numa sociedade machista e opressiva em que as mulheres não têm vez, são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Ainda que não seja um soldado, é com imperativos que a menina foi criada: "Amarre o sapato, largue essa boneca de trapo e pegue a vassoura descruze as pernas vá tirar as ervas daninhas daquele jardim endireite as costas não me responda". O ambiente nos Estados Unidos dos anos 1950 é tão hostil — que se diferencia muito de um campo de batalha —, especialmente para uma mulher. Nesse mundo desfigurado, ao se reencontrarem no caminho de volta para casa, os irmãos poderão enfim ressignificar seu passado e voltar a ver com esperança o futuro. Afinal, o que é o lar, senão o lugar onde estão os nossos afetos? É no retorno à casa e no amor fraterno que Frank poderá entender sua experiência traumática na guerra e reencontrar uma força que já não acreditava ter. Um das mais celebradas romancistas dos Estados Unidos, a Nobel de literatura Toni Morrison expande seu olhar a história norte-americana do século XX com esta narrativa de violência, amor e redenção.

Título Original: Home
Autora: Toni Morrison
Páginas: 135
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora.

Voltar Para Casa é a história de dois irmãos: Frank e Ycidra — que carinhosamente é apelidada por Ci. Sim, sabemos. Mas são dois irmãos que viveram anos separados por um motivo triste, porém, preciso: Frank teve que enfrentar a Guerra na Coreia, por isso abandonara a irmã em sua cidade natal, na Geórgia.

O livro começa com Frank e seus dizeres de lembranças não tão generosas que passara em cada batalha. Para falar a verdade, a narrativa se constrói de forma mista: o passado e o presente do jovem se confundem, mas isso não faz com que o leitor se perca em cada página. Pelo contrário, a autora Toni Morrisson "abusa dessa técnica" para que, realmente, o leitor tenha a curiosidade de saber mais, a cada página.

Embora esse método seja envolvente, o livro é inteiramente entregue às tristezas de cada personagem — o que não só remete à vida de Frank e de Ci — é, caro leitor, há menos expectativas como encontramos em fábulas do que nesta história. O que é notável é a cumplicidade que ambos têm com um ao outro, mesmo distantes. Ok, confesso, há amor, mas um amor confuso, que exige explicações de porquês que a vida não lhe apresentaram.

Nos percursos de voltar para casa para resgatar a irmã, que se esquecia do valor impagável por ser uma menina-mulher sensacional, Frank enfrentou maus bocados. Fome, frio, sede, raiva, saudade, angústia, nostalgia, tesão. Tudo. Tudo o que já passara em batalhas. Mas o que o fazia sobreviver era salvar a irmã. A única que brincava com ele pelos quintais alheios.

O que me chamou a atenção ao ler este livro foi a cada carta — digamos assim — que se enquadra em fonte itálica antecedendo cada capítulo da história escrito pela Toni Morrison. São cartas que Frank Money confessa à autora as sensações que tivera, e desses sentimentos, a escritora transformava em narrações ligadas fielmente à literatura.

E embora às vezes, quando estava perto de Lily, fosse mais difícil respirar, ele não tinha nenhuma certeza de que conseguiria viver sem ela. Não era só na hora de fazer amor, de entrar naquilo que que ele chamava do reino entre as pernas dela. Quando acordava com ela, seu primeiro pensamento não era o bem-vindo ardor do uíque. Mais importante: ele não sentia mais atração por outras mulheres — quer estivessem abertamente flertando ou se expondo para seu próprio prazer particular. Ele não as punha no mesmo nível de Lily; apenas as via como gente comum. Só com Lily as imagens se apagavam, iam para trás de um painel em seu cérebro, pálidas, mas à espera, à espera e acusadoras. (p. 23)

Frank também amou. E amou muito. A Lily. Assim como a Ci amou um garotão que a convidara a fugir com ele. Como eu já tinha dito, e repito: existia amor nas histórias de cada um. Mas não um amor duradouro, a não ser o amor entre os irmãos Money.

De fato, é livro que te carrega todo tipo de sentimento e te faz ficar de queixo caído com as surpresas que aparecem. A Toni Morrison acertou a mão em cada descrição de cada lugar, de cada sentido, de cada pessoa. E de como voltar para casa deixando as mágoas para trás e começar do zero a lidar com os novos sentimentos.

Classificação final:  

3 comentários:

  1. Amo esses tipos de temas sobre amor incondicional entre irmãos.Mesmo sendo triste também faz com que o livro seja envolvente e nos faz refletir sobre a vida e o amor no Século XX.Primeira vez que conheço esse livro e já acho que todos deveriam conhecer kkk pois apenas com a sua resenha eu vejo que a história parece ser maravilhosa.Estou super curiosa para saber o final dos irmãos Money.Ótima resenha,bjss!

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  2. Oii Ellen

    O livro traz uma temática todo diferente, que foge do que geralmente encontramos aos montes nas prateleiras e isso é um ponto positivo. Me parece interessante e pela sua resenha se nota que vc gostou muito. Certamente se um dia tiver uma oportunidade adoraria conferir essa leitura. Fica anotadinho aqui

    Beijos

    http://unbloglitteraire.blogspot.com.br/

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  3. Oi miga,

    Primeiro: só queria dizer que achei que Toni Morrison fosse um homem, desculpa a vergonha que passei. Fico feliz que tenha gostado do livro, sério.

    Beijo!

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