10 de agosto de 2016

Resenha: Lua de Vinil

Em 1973, a ditadura militar comandava o Brasil. O Pink Floyd lançava o aguardado disco The Dark Side of the Moon. E Giba passava os dias jogando futebol de botão com os amigos do prédio, suspirando por Leila, sua vizinha irreverente e descolada. Ele tentava ignorar o estado grave de seu pai, internado no hospital, e não sabia que a violência do governo estava muito mais perto da sua casa na Vila Mariana do que ele imaginava. Até que, num dia tranquilo de março, ele acaba causando um acidente e se vê obrigado a lidar com um dilema moral que o fará abandonar a inocência dos dezesseis anos para sempre.

Título Original: Lua de Vinil
Autor: Oscar Pilagallo
Páginas: 168
Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

Não sei o que me fez querer ler Lua de Vinil, de Oscar Pilagallo. Não sei mesmo. Talvez o fato de contar uma parte da história do Brasil que eu pouco li em livros. Talvez o fato de parecer um livro despretensioso, ainda que tratasse do assunto sério como foi a ditadura militar. Mesmo sem saber o porquê, eu solicitei o livro, que não se mostrou um livro sensacional, mas que definitivamente estava bem longe do que eu imaginava.

O livro, que possui pouquíssimas páginas, conta a história de Giba (ou Giges, se preferir), um adolescente como a maioria: desligado e despreocupado, que gasta a maior parte do seu tempo de boas. As primeiras páginas contam apenas o nada que afigura-se a vida do garoto, e descreve coisas que não parecem ter relevância alguma, como o cabelo de esfregão, a origem de seu apelido, as características de seus vizinhos de prédio e o tal disco do Pink Floyd.

The lunatic is in my head... Meu inglês não era lá essas coisas, mas essa parte da letra do Roger Waters dava para entender. "O lunático está na minha cabeça." Eles cantavam para mim. Não gostava quando minha mãe me chamava de lunático. Mas o Pink Floyd não soava como crítica. Eles cantavam num tom, sei lá, solidário. E depois o cara da música não era lunático; o lunático é que estava na cabeça dele. É diferente. 

Com o decorrer da história, no entanto, o autor consegue mostrar que a indiferença de Giba é, na verdade, um modo de se proteger, tanto da dor de ter seu pai internado e da certeza de que ele não voltará para casa, quanto dos problemas e inseguranças da própria adolescência. Em determinado momento, Giba precisa também lidar com seus próprios dilemas morais, o que o faz, finalmente, amadurecer.

Quando li na sinopse que o protagonista "se vê obrigado a lidar com um dilema moral que o fará abandonar a inocência dos dezesseis anos para sempre", considerando o contexto da ditadura militar, imaginei que o garoto se meteria em problemas sérios com a justiça. Só que não cheguei nem perto de imaginar o que realmente aconteceria, especialmente porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. E isso, por si só, já foi uma grande surpresa durante a leitura.

Ainda que o dilema inicial não estivesse relacionado à situação política vivida na época, não foi menos interessante acompanhar as consequências das decisões de Giba e sua forma de lidar com os problemas que criou. Achei curiosa a forma como o autor conseguiu dar corpo ao embate mental que Giba travou consigo mesmo e torná-lo um monólogo interessante de ser acompanhado.

Não sei por quanto tempo permaneci estirado no chão, um réptil inerte e frio. Deve ter sido um átimo. Mas hoje ao tentar reconstituir o que ocorreu três meses atrás, sinto como se o tempo tivesse desacelerado naquele instante, se arrastado tão devagar que, quanto eu despertasse do transe, haveria tanto pó sobre o meu corpo quanto no carpete do quarto, sujo havia meses.

Também, mesmo que a ditadura militar não fosse a responsável direta pelos problemas do protagonista, ela se fez presente e teve um papel fundamental no amadurecimento do personagem. Isso porque, quando Giba deixou de lado o conforto de seu quarto e dos muros de seu condomínio e percebeu o que realmente acontecia lá fora, ele precisou tomar uma decisão sobre quem desejava ser, e acho que não poderia ter tomado decisão melhor.

Lua de Vinil não será, para mim, um livro memorável, mas preciso admitir que fiquei vidrada enquanto fazia a leitura. Mesmo naquele mundo bobo e alienado de Giba, senti-me impulsionada a saber o que aconteceria, e fui bem recompensada por isso.

Classificação final: 

14 comentários:

  1. Quando vi o lançamento deste livro fiquei interessada pela história por acreditar que os conflitos do personagem tinham algo a ver com a situação politica do país na época, mas pelo que li aqui não é exatamente assim. Ainda assim estou tentada a ler o livro, o que me incomoda um pouco é essa morosidade do personagem, mas talvez isso seja irrelevante na história diante de tudo o que o autor tem para contar.

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  2. Interessante. Preciso admitir que se vc falasse que o tema ditadura estava mais presente eu teria me atraído mais pela obra. Acho que pensei o mesmo que vc... Interessante, ler algo relacionado a nossa história é tal...
    Bem, o fato de ter sido uma surpresa boa conta pontos, claro. Ficarei de olho na obra. Valeu a dica.

    >> Vida Complicada <<

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  3. Não é um livro que me interesse muito. Geralmente não gosto de ler obras que falam do passado político e econômico. Mas já que voce disse que tem poucas páginas, talvez eu acabe lendo só pra matar a curiosidade, pois sua resenha me deixou um pouquinho curiosa.

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  4. Olá,
    Não costumo gostar muito de livros que retratem sobre história. Odeio tal matéria assim como geografia. Mas fiquei intrigada por se tratar do período da ditadura.
    Gostei bastante da resenha e acredito que procurarei para ler.

    https://leitoradescontrolada.blogspot.com.br

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  5. Oi, mesmo gostando de livros que retratam algum periodo da historia, esse não conseguiu prender a minha atenção, não conseguindo me cativar, por isso, não leria, pois não se senti ligada ao enredo ou aos personagens, por isso, passo a dica.
    bjus

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  6. Oieee...confesso que esse é um tipo de livro que não leria. Até achei interessante ele falar um pouco da história do Brasil, mas mesmo assim não chamou a minha atenção. A sua resenha ficou bem construída. Gostei!! Mas deixo passar o livro.
    Bjss

    http://livrosemarshmallows.blogspot.com.br/

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  7. Oi Ju, tudo bem?
    Eu vi a capa desse livro, mas não fazia ideia do que se tratava, fiquei surpresa em saber que tem a ditadura militar presente mesmo que seja em segundo plano. Acho interessante livros que retratem o contexto histórico de uma determinada época e nesse caso mesmo não sendo o tema central parece que ainda assim o livro tem um bom desenvolvimento. Vou deixar a dica anotada aqui.
    Beijos

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  8. Oi!
    Realmente, temos poucos livros históricos que falem sobre esse período tão delicado e marcante que ocorreu no Brasil. Apesar de esse aparentemente não ser o meu tipo de livro a sua resenha me deixou curiosa para saber por qual situação o Giba irá passar, de verdade. Parabéns pela ótima resenha!
    Abraços,
    Andy - StarBooks

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  9. Oi Ju!
    Confesso a vc que, quando comecei a ler a sinopse, a história me chamou um pouco a atenção. Mas comecei a ler a resenha e tive certeza de que não é um livro que iria me apetecer. Não por conta dos fatores históricos inseridos na trama (acho muito interessante livros que abordam a ditadura militar), mas sim por achar que falta algo ali pra me prender.
    Pode até ser que, um dia quem sabe, sinta curiosidade em ler. Mas por enquanto, deixo passar.
    Beijos

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  10. Oi Ju, sua linda, tudo bem?
    Confesso que a história não chamou minha atenção apesar de ter ficado curiosa para descobrir que dilema foi esse que ele enfrentou. Mas parece um bom livro para quem gosta do gênero. Gostei muito da sua resenha.
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  11. Oiii ju, como vai?
    Menina eu leria esse livro só porque tem Floyd na história, não sou muito chegada em futebol, mas de certa forma me atraiu e sua resenha está incrível.
    Beijinhos

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  12. Oi Ju, tudo jóia?
    Estou curiosíssima com o que pode ter sido o dilema moral, já criei mil hipóteses na minha cabeça hahaha
    Não sei se o livro seria para mim também, a temática da ditadura não é pra mim, mas, por outro lado, AMO personagens com um grande e significativo desenvolvimento, parece que fazem tudo valer a pena.
    Pelo que você falou, foi exatamente isso que aconteceu com o Giba!
    Excelente resenha, parabéns!
    Beijos!

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  13. Eu li poucas obras que tinham ditadura militar como ambientação, então eu achei demais saber mais sobre essa obra. Pena saber que mesmo com um assunto tão importante a leitura não foi muito satisfatória, mas acho que vale a pena conferir mesmo assim, né?
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  14. Acho que qualquer livro que traz um pouco da ditadura militar é bom para gente. Pena que para você não foi memorável :/ Não conhecia o autor nem a obra, mas me interessei um pouco. Adicionado na lista de desejados
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com

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