Vox | Christina Dalcher - Roendo Livros

29 de dezembro de 2018

Vox | Christina Dalcher

O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade.
Esse é só o começo...
Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir.
...mas não é o fim.
Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Título Original: Vox
Autora: Christina Dalcher
Páginas: 320
Tradução: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Livro recebido em parceria com a editora

Eu não me interessei por Vox logo de cara, tanto que só fui solicitar um tempo depois do lançamento. Eu vi a Denise do Seja Cult falando do livro no Instagram e me bateu uma curiosidade enorme, afinal, é uma distopia que pode realmente acontecer: as mulheres, uma minoria social declarada, irem perdendo os direitos até poderem falar apenas 100 palavras por dia. É assustador, não é? Mas essa é a premissa da história criada por Christina Dalcher, onde o governo dos Estados Unidos lança esse decreto macabro logo após as eleições democráticas.

Tudo aconteceu de maneira rápida e inimaginável. Quando a população dos Estados Unidos elegeu um governo de extrema-direita super conservador, ninguém imaginava que as minorias — mulheres, homossexuais, negros... — perderiam seus direitos (ou pelo menos fingiam que não imaginavam, rs). Todas as mulheres estão em negação e não podem fazer muita coisa, então, quando a Dra. Jean McClellan, uma neurologista de sucesso na época em que podia trabalhar, é convocada pelo governo para trabalhar em um projeto para curar o irmão do presidente que tem afasia (um distúrbio de linguagem que afeta a capacidade de comunicação da pessoa), ela vê uma oportunidade de voltar a dar voz à todas as mulheres que foram silenciadas.

Preciso ser sincera com vocês: eu senti muito, muito ódio enquanto lia esse livro. Primeiro porque me doeu demais ver todas as mulheres sem um pingo de direito e apoio, vivendo em um ambiente tão misógino e machista. O filho mais velho de Jean, por exemplo, é o desenho do homem hétero machista da atualidade — e eu só fiquei pensando que deve ser muito triste criar um filho com tanto amor pra toda vez que ele abrir a boca sair tanta merda, com o perdão da palavra. E segundo porque, apesar de extremista, não é uma realidade distante. Quer dizer, quantos pontos em comum entre a ficção e a realidade vocês conseguem listar só de ler essa resenha? Então Vox não é uma leitura fácil, principalmente para uma mulher com os ideais como os meus.

Apesar de o enredo ser sensacional e mostrar muitas coisas críveis, eu acho que Christina Dalcher acabou comprometendo a história com algumas escolhas, que é eletrizante no começo, mas vai perdendo sua força. Da metade do livro para a frente, as coisas simplesmente param de acontecer para, no final, a autora correr e enfiar goela abaixo do leitor várias soluções sem pé nem cabeça, como se ela tivesse esquecido o propósito do livro. Senti falta de muitas informações sobre o governo, sobre como as coisas chegam no ponto que chegaram e tudo mais, mas ao mesmo tempo tiveram várias coisas podiam ter ficado de fora da obra. Também achei que os personagens secundários, como o marido da Jean, por exemplo, foram muito mal aproveitados. 

Agora, preciso desabafar um ponto que me deixou muito incomodada a leitura inteira, e para isso serei obrigada a soltar um spoiler gigantesco. Então, se você tem intenção de ler esse livro ou simplesmente odeia esse tipo de coisa, salte esse parágrafo. Acontece o seguinte: Jean trai o marido desde o início da história e eu achei que o fato foi retratado como se a personagem estivesse certa nas atitudes dela. Ela não ama mais o marido, não pode se separar por causa das leis do governo, mas quem me conhece sabe que eu não concordo com esse tipo de atitude. Além do mais, eu não vi nenhum motivo para Jean não ter se separado de Patrick antes do atual regência, o que me deixou mais brava ainda. Além disso, o final que a autora deu para os dois só me deixou mais incomodada e com mais sensação de que "ok, está tudo bem trair uma pessoa, já que você não a ama mais". Gente, por favor, trair não é nem um pouco legal, empatia não é pra guardar no bolso e usar só quando convém, né...

Vox é interessante por expor o feminismo — mesmo com algumas atitudes super erradas da protagonista que contrariam e deslegitimam todo o movimento —, e o perigo de colocar pessoas erradas no poder, mas eu esperava uma trama bem mais política e menos romantizada. O final também não me agradou nem um pouco, muito forçado e abrupto. Não sou uma escritora, mas acredito que se a autora tivesse escrito mais umas 30 páginas, conseguiria um desfecho infinitas vezes mais satisfatório. Ainda assim é um livro que vale a leitura, um aviso descarado para continuarmos lutando para que nenhuma mulher seja silenciada.

11 comentários:

  1. Primeira resenha não tão positiva que leio deste livro, que aliás, é uma das minhas próximas leituras!
    Mas como não ligo com spoiler, li a resenha todinha e confesso que isso também me irrita profundamente.
    E também fiquei meio pé atrás com o desenrolar da história, que parece ter começado muito bom, se perdeu e talvez o final não tenha acompanhado tudo.
    Mesmo assim, lerei!!
    Beijo

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    1. É legal, mas acho que poderia ter sido melhor, sabe? Infelizmente teve muita coisa que me irritou e você sabe que não consigo ficar calada.

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  2. Gostei muito da ideia dele e vi muita gente elogiando. Deve ser horrível de ler e não se irritar mesmo pelas coisas ruins que acontecem com as mulheres nesse governo. Me lembrou de O conto da Aia, foi outra coisa que chamou atenção na história e deu vontade de ler. Agora, se tem umas coisas que passam da realidade e outras que fazem a trama decair de nível aí já fica um alerta pra quando for ler. Vou tentar não ir cheia de expectativa então. Mas no geral achei interessante porque é um alerta. Que mulher lê uma história assim e não fica pensando em um monte de coisas depois? Só por isso já vi graça nele. Quero conhecer.

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  3. Achei a premissa do livro ao mesmo tempo aterrorizante e próxima do atual momento do mundo. Imagina ficar limitada a 100 palavras por dia? E viver em uma sociedade assumidamente machista machista?
    Concordo plenamente com você no ponto levantado no penúltimo parágrafo.
    Uma pena que a autora se perdeu no meio do caminho e correu no final para dar solução as questões levantadas.

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  4. Me interessei por esse livro logo que foi lançado, mas é aquele desejado de 2018 que vou deixar para 2019.
    O fato de ser próximo da realidade assusta, e por isso quero ler. Quero sentir essa revolta que todos estão sentindo, acho que escrever algo que nos faça ter esse sentimento não é fácil. Confesso que não consigo imaginar a questão das 100 palavras.
    Uma coisa que venho reparando é que Vox tinha tudo para ser um livro 5 estrelas, mas pelo visto teve pontos negativos.
    E corri desse spoiler.

    Beijos

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  5. Muito boa sua resenha, aumentou minha vontade de ler!
    Quero muito lê-lo, mas tô com medo, depois dessa situação horrenda que passamos no Brasil (e ainda vem o pior), fico até com medo de ler sobre algo que não está tão distante assim de nós... complicado.
    Nossa bem chamo a protagonista trair o marido descaradamente assim. Feio mesmo. Detesto livros com traição, podem ser maravilhosos em tudo, se tiver traição, já perde pontos comigo.
    bjs

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    1. Fico feliz que tenha ficado com vontade de ler.
      Realmente, é impossível não assimilar os acontecimentos do livro com as coisas que nós podemos viver com o atual governo. Complicado demais.

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  6. Oi, Ana
    Graças ao seu spoiler que pude compreender porque muitas pessoas não gostaram das atitudes de Jean.
    Desde o seu lançamento quero muito esse livro, mesmo com esse as atitudes de Jean e o desfecho não ser tão satisfatório ainda é uma leitura valida para todos.
    É uma distopia, mas seria um absurdo se tornar real, nos calar e ainda ter que levar choques.
    Beijos

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  7. Eu gostei muito da proposta dessa distopia mulheres sendo limitadas a um determinado número de palavras a serem ditas por dia eu acho que no fundo traz uma mensagem bem poder adora e bem feminista fiquei muito empolgada quando ganhei esse livro de natal e eu já quero ler ele o mais rápido possível

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  8. Eu também não tenho vontade de ler esse livro, rs. Estou dando um descanso da política, porque me chateio facilmente com ela.

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  9. Oi, Ana!!
    Acho a história bem interessante e pois gosto bastante de livros de distopias. Mas sinceramente não concordo com as atitudes da Jean em trair o marido só por que não gosta mais dele, enfim não sei se vou dar prioridade para um livro que não vou gostando tanto assim.
    Bjos

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