17 de setembro de 2014

Resenha: Ana Terra

Título: Ana Terra
Autor: Erico Veríssimo
Páginas: 112
Editora: Companhia das Letras

"Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando", costuma dizer Ana Terra, que reside com os pais e os dois irmãos numa estância erma do interior gaúcho, na segunda metade do século XVIII. O cotidiano dos Terras é duro, penoso, arriscado. Tiram sustento da colheita. Calculam a passagem do tempo observando a natureza. Vivem sob o perigo de ataques de índios ou de renegados castelhanos, estes últimos recentemente expulsos do Continente de São Pedro. Ana Terra, única filha mulher, é impedida de comprar um espelho, "coisa do diabo", objeto fútil nesse ambiente austero. Sem ter onde mirar-se, só pode contemplar sua figura na superfície do regato onde lava a roupa da família. É nesse regato que ela depara com Pedro Missioneiro, ferido à bala. Mestiço de índio nascido numa missão jesuítica, Pedro lutara ao lado dos estancieiros pela expulsão dos castelhanos. Após restabelecer a saúde, pouco a pouco vence a desconfiança dos Terras e a repulsa de Ana, para quem sua "presença era tão desagradável como a de uma cobra". Sem perceber, a moça enamora-se de Pedro, uma atração trágica e irresistível que muda a vida da família Terra para sempre. Marcada por uma beleza áspera, com personagens fortemente ligados à natureza que os sustenta e os agride, "Ana Terra" faz parte da saga "O Tempo e o Vento", obra-prima de Erico Verissimo.

Minha mãe vivia me dizendo que eu precisava ler esse livro a qualquer custo. Ela tanto disse que minha curiosidade só ficava maior. Um dia, passeando pelo Extra, vi que o livro estava em promoção e mamãe acabou me dando de presente. Se preparem, porque nunca vi tanta tristeza em tão poucas páginas.

Ana Terra mora com seus pais e os dois irmãos em uma pequena estância no interior do Rio Grande do Sul. A família tinha uma vida bastante sofrida e a única coisa que faziam era trabalhar. Foi em um desses dias de trabalho duro que, enquanto lavava roupa, Ana encontra Pedro Missioneiro ferido na beira do rio. 

Desde as primeiras páginas do livro percebemos o desejo de Ana de se mudar para um lugar onde haja moças da sua idade, comércio, rapazes... Em outras palavras, para um lugar onde exista espaço para todos os seus desejos e anseios, desejos esses que foram crescendo desde a chegada de Pedro.

Ana sentia um misto de fascinação, ódio, nojo e, é claro, vontade. É óbvio que toda essa repulsa é só um pretexto para esconder o desejo carnal que sentia pelo homem, já que naquela época não era permitido para as mulheres ter contado com os homens, que diria então ser tocadas (ou amadas) por eles. Não é difícil imaginar o que acontece em seguida.

No fim das contas, que era mesmo que ela sentia por Pedro? Amor? Nojo? Ódio? Pena? Às vezes surpreendia a querer que ele morresse de repente, ou então que fosse embora, deixando-a em paz. Talvez fosse melhor que aquilo não tivesse acontecido... Ou melhor, que Pedro nunca tivesse aparecido na estância.

Como a história se passa em meados do século XVIII, o livro mostra também, de forma bem triste, diga-se de passagem, a disputa pelo território brasileiro. Essa disputa se revela mais cruel ainda na medida que os castelhanos passam por todos os vilarejos destruindo tudo o que podiam e matando pessoas. 

O romance de Erico Veríssimo é incrível não só pela contextualização histórica em que a narrativa é construída, mas também pelo foco no sofrimento da população naquela época. Se os homens sofriam, conseguem imaginar o que as mulheres sentiam? Veríssimo conseguiu, através de Ana, a triste realidade de todas as mulheres que não tinham o direito nem da felicidade. 

Apesar de ser bastante curta, a história é dotada de bastante emoção e reflexão, que chama atenção pela simplicidade e realidade em que os fatos acontecem. Mostra o dia-a-dia de um povo que dá duro para conseguir o próprio sustento, que sonha e tem ambições e, mesmo na dificuldade, encontra meios para seguir em frente. 

Classificação final: 

8 comentários:

  1. OI Ana, eu fiquei muito curiosa para ler essa história depois de ver o filme baseado nela. Sei que o filme não chega nem aos pés, já que já li um livro do Veríssimo e já conheço sua escrita fantástica, mas valeu por incentivar a conhecer essa história que, ainda que seja triste, é a nossa história.

    Beijos

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  2. Agora to ansioso para ver o filme, mesmo não sendo tão bom como o livro.

    http://criativare-leitura.blogspot.com.br/

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  3. Oi, Ana!

    Já vi algumas coisas da história de Ana Terra no filme "O Tempo e o Vento" e realmente, achei muito triste! Entretanto, tenho muita vontade em ler a obra do Erico Veríssimo! Ótima resenha! :)

    Abraços

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  4. Essa época é realmente cruel, posso imaginar como essa moça sofreu. Ainda bem que vivemos em uma época bem mais flexível. Mesmo sendo um livro triste, acho que seria bem emocionante ler.
    Beijos!
    Monólogo de Julieta

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  5. Adoro os livros do Érico Veríssimo, já li O Tempo e o Vento, Olhai os Lírios do Campo, e vários outros. A história de Ana Terra é muito triste mesmo...

    Adorei o blog! Estou seguindo.

    Ficarei feliz com uma visita sua ao meu blog!
    www.meuslivrosesonhos.blogspot.com.br

    Um abraço!

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  6. Oi Ana,
    Só li "Olhai os lirios do campo" do Érico e nao gostei muito. Desde então n me animei para conferir as outras obras do autor. Tenho vontade de ler o tempo e o vento, mas no momento já estou com mtas pendencias de leitura em virtude de séries, então "Ana Terra" pode ser uma boa opção.
    Abraço,
    Alê
    www.alemdacontracapa.blogspot.com

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  7. Em primeiro lugar adorei o nome do seu blog hehehe, muito original e intuitivo.
    Um visual bem clean e chamativo :)
    Gostei muito da sua resenha, bem detalhado e escrito. Marquei como desejado no skoob rs mais livros na fila de espera para compras.

    www.livreando.com.br

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  8. Aiiiiii, sabe que meu autor favorito é o Érico Veríssimo, então eu sou apaixonada por Ana Terra e tudo o que envolve história. Quando li ele e depois a continuação que é Um certo Capitão Rodrigo, me apaixonei demais. Ela sofre muito e mesmo assim é bastante determinada. É lindo demais!

    Beijos

    Greice Negrini

    Blogando Livros
    www.amigasemulheres.com

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