15 de outubro de 2016

Resenha: Americanah

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero.

Título Original: Americanah
Autora: Chimamanda Ngozi Adichie
Páginas: 516
Tradução: Julia Romeu
Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora 

Chimamanda Ngozi Adichie é provavelmente uma das minhas escritoras/pessoas preferidas dos últimos tempos. Ela escreve exatamente o que eu quero ler, fala exatamente o que eu quero ouvir. A cada livro, texto, conferência, seja o que for, ela se torna um exemplo para mim. Não sei se o fato de eu ter gostado tanto de Americanah tem a ver com o fato de eu gostar tanto da autora — apesar que, parando para pensar, a gente sempre tende a defender os feitos dos autores que gostamos — ou simplesmente porque tem uma história com vida própria. 

Ifemelu é uma nigeriana bem sucedida que mora nos Estados Unidos, formada, com um blog de sucesso — em que fala sobre as dificuldades de ser uma imigrante num país como os Estados Unidos e várias outras experiências que passa no decorrer da sua estadia no país. É claro que sua vida nem sempre foi assim: bem no começo, ela trabalhava como babá para poder pagar suas despesas, a faculdade e em vários momentos podemos acompanhar o preconceito disfarçado de gentileza que sofria. Logo nas primeiras páginas, vemos a cultura americana por um olhar diferente, o que pode ser considerado meio sensacionalista por alguns leitores. Pessoalmente, eu li realidades. 

Chega um momento em que Ifemelu resolve retornar à sua terra natal. Convenhamos que nem sempre a fama, dinheiro e sucesso são essenciais para a felicidade das pessoas, não é mesmo? Apesar de tudo, ela estava longe de sua família e de Obinze, seu amor de adolescência, e não suporta mais ficar longe deles. Mas a verdade é que voltar fez com que ela se sentisse uma estranha em seu próprio país, pois, sem querer, se apropriou da cultura americana para se adaptar ao país. 

A única razão pela qual você diz que raça não é um problema é porque você gostaria que não fosse. Todos nós gostaríamos disso. Mas é uma mentira. Eu vim de um país onde raça não é um problema; e eu nunca me vi como uma negra, eu só me tornei negra quando vim para esse país.

É claro que Americanah é um soco no estômago dos leitores. Afinal, é muito fácil para uma pessoa branca, como eu, falar sobre o racismo. Difícil é falar sobre o racismo sentindo-o na pele. Difícil é não conseguir um emprego por causa da cor da sua pele, do seu tipo de cabelo. Difícil é falarem com você pausadamente e alto, por acharem que você não consegue entender o que falam. Falar é realmente muito fácil.  Ifemelu, em todo o livro, é tratada como um ser inferior, como se não fosse merecedora das mesmas coisas que os brancos recebem. É claro que Chimamanda também fala sobre outros temas de peso, como xenofobia e desigualdade de gênero de uma forma muito crua e sincera, o que fez com que eu me apaixonasse ainda mais por ela. 

Apesar de o livro ter mais de 500 páginas, seu tamanho não assusta. As páginas só não passam mais rápido que as horas. Os personagens são todos muito bem construídos, a ambientação, tudo parece muito real. Ah, não enxergamos o racismo só pelos olhos de Ifemelu, algumas partes são narradas por Obinze e mostram o que sofria na Inglaterra, só para confirmarmos o que já sabemos: nós, infelizmente, vivemos em uma sociedade racista. É triste, mas o racismo está impregnado em nós desde que nos entendemos por gente. 

O que mais me surpreendeu, no final, é que a autora não perde o ritmo da narrativa de forma alguma. Ela nunca se torna chata. Mas não consigo negar que Americanah foi escrito para causar incômodo — e não, não digo isso de forma pejorativa. Eu sempre achei que, quando lemos algo que nos incomoda, é porque está cumprindo seu papel de mostrar a verdade. E é isso que Chimamanda Ngozi Adichie mostra em todas as suas obras, sem exceção. 

Classificação final: 

12 comentários:

  1. Oi Ana ^^
    Poisé, é sempre difícil debater sobre o racismo quando não sentimos na pele, racismo é um assunto extremamente delicado e pesado para se ter em uma conversa, ambos os lados parecem sempre se exceder, prefiro evitar ao máximo tal assunto mesmo sabendo o quanto o povo africano sofreu/sofre. Acho ridículo a existência do racismo sendo que o que define a nossa cor de pele é nada menos do que a quantidade de melanina. Só. Os negros são as pessoas com a coloração melhor pois não sofrem c/ a excessiva exposição solar, só em casos isolados.
    Gosto muito de autores que venham escrachar em nossa cara a realidade das sociedades, que não camuflem os assuntos que são de vital importância para ser discutido e desmistificado.
    Sem sombras de dúvidas, Chimamanda me chamou a atenção. Xenofobia é outro assunto que deve-se ser discutido pois está tão infiltrado nos seres humanos q uma hora ou outra aflora.
    Ifemelu deve ter batalhado muito para ter a estabilidade merecida, fiquei bastante curioso para saber como ela vai lidar com o seu povo ao voltar para a terra natal.
    A capa do livro é muito linda! Gostei da sua sinceridade na resenha, Ana. Parabéns e que você tenha mais leituras da Chimamanda Ngozi Adichie.
    Bjs :*

    https://peregrinodanoite.blogspot.com.br/

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  2. Ana!
    Muito bom quando um livro nos incomoda e nos faz pensar sobre determinados temas, como aqui: o racismo.
    Infelizmente em pleno século XXI ainda existe tanto preconceito e de várias formas, não apenas racismo...
    E o pior (ou o melhor) é o livro mostrar o racismo em sua terra natal, já que ela tornou-se quase uma americana.
    Deve ser um livro maravilhoso de degustar cada uma das 400 páginas.
    “Prefiro os erros do entusiasmo à indiferença da sabedoria.” (Anatole France)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de OUTUBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  3. Oi!
    Gostei bastante do tema do livro, e fico sempre feliz por saber que existem pessoas que estão decididas a causar incômodo e uma revolução no modo de pensar das outras pessoas. Fiquei bastante curiosa para ler este livro e conhecer o trabalho desta autora que eu ainda não conheço. Adorei a resenha.
    Beijos

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  4. Oi, Ana!
    Faz tempo que não leio um livro que me toque ou incomode assim como imagino que Americanah faça durante sua leitura. Racismo, xenofobia e os outros pontos que a Chimamanda explora são delicados porém de extrema importância, vale muito discuti-los. E sabendo que a autora explora de modo a jogar essas verdades na cara de quem está lendo e nos fazer sentir não como brancos lendo sobre racismo, mas negros sentindo o racismo, me interessou bastante.

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  5. Amei sua resenha! Até agradeço-te por tantos detalhes da história porque eu, sinceramente, não fazia a mínima ideia do que se tratava o livro. Na verdade, pela capa, eu não imaginava que a história fosse tão "complexa" (eu achei um pouco) dessa maneira.
    Gostei bastante da primícia. Não seria um livro que eu me interessaria de cara, mas, por sua resenha, despertou-me curiosidade e interesse. Por se tratar de crítica social, deve, com certeza, conter questionamentos... E livros assim, deixam-me, realmente, interessada e animada para leitura.

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  6. Oi, tudo bem?
    Não conhecia o livro e nem a autora. Mas por tudo que você comentou a respeito da obra, parece ser uma leitura bem inteligente, polemica e reflexiva. Se tiver oportunidade, gostaria de ler. Até mesmo porque é um tema que nos leva a muitas reflexões e verdades. Dica anotada. Sua resenha está muito bem explicada. Obrigada.
    Beijos.

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  7. Quando comecei a ler a resenha já fui pensando, que tipo de livro é esse com um nome tão estranho? Não deve ser bom. No fim das contas, quando terminei, já estava querendo ler o livro o mais rápido possível. A história com certeza é muito interessante, cheia de críticas à nossa sociedade. Com certeza deve valer a leitura de mais de 500 páginas. Vai pra minha lista de desejados e vou ler assim que puder.

    Abraços :)

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  8. Oi Ana, estou nessa vibe de ler livros "pesados", sobre esses temas que precisam ser abordados, tipo: Racismo, homofobia, depressão. Todos deveriam ler esses livros pois são muito importantes. Americanah deve ser incrível. Beijos.

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  9. Oi Ana, estou nessa vibe de ler livros "pesados", sobre esses temas que precisam ser abordados, tipo: Racismo, homofobia, depressão. Todos deveriam ler esses livros pois são muito importantes. Americanah deve ser incrível. Beijos.

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  10. Deve ser um livro bem interessante para se ler e saber mais sobre o assunto, pois nunca sabemos tudo, que triste realidade essa do racismo e olha que quanto mais evoluímos ele continua presente, os outros assuntos abordados também são importante e saber como essa mulher passou por tudo isso, acabamos nos colocando no lugar dela.

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  11. Eu tenho muuuuito respeito pela autora, mas infelizmente eu ainda não consegui ler nada dela :/ Eu tenho expectativas bem altas pq eu sei que ela trata de assuntos q precisam ser falados e que escreve bem e de maneira clara....Como o racismo hehehe.

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  12. Olá!
    Gostei muito da sua resenha,me deu muita vontade de ler o livro

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