27 de fevereiro de 2017

Resenha: Ainda Estou Aqui

Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.

Título Original: Ainda estou aqui
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Páginas: 296
Editora: Alfaguara
Livro recebido em parceria com a editora

Não sou grande fã de ler biografias. Talvez seja ignorância minha, mas eu me entedio fácil e é difícil livros desse gênero conseguirem me prender. Por outro lado, sempre quis ler algo de Marcelo Rubens Paiva, em especial seu tão conhecido Feliz ano velho, mas, até agora, não tive oportunidade. Por isso escolhi Ainda Estou Aqui para resenha e, apesar do receio inicial que as tão temidas biografias trazem à minha vida, mergulhei inteiramente na leitura e o livro se tornou, desde já, inesquecível.

Marcelo Rubens Paiva tem uma narrativa não linear que envolve o leitor: em um momento, relembra sua infância cheia de brincadeiras e ainda não marcada pelos traumas; pouco depois, tenta rever determinado acontecimento pela perspectiva de seus pais; e, em seguida, tece reflexões aleatórias sobre o que entende hoje ter acontecido tanto tempo atrás, tudo em um mesmo capítulo. Essa construção pode parecer confusa, mas não é. É ela quem dá corpo a um texto que intercala memórias, reflexões e fatos, retomando as percepções do passado sob outro viés, a partir do entendimento presente. E as memórias, como bem destaca o autor, não seguem padrões.

A memória não é a capacidade de organizar e classificar recordações em arquivos. Não existem arquivos. A acumulação do passado sobre o passado prossegue até o nosso fim, memória sobre memória, através de memórias que se misturam, deturpadas, bloqueadas, recorrentes ou escondidas, ou reprimidas, ou blindadas por um instinto de sobrevivência. Uma fogueira no alto ajudaria. Mas ela se apaga com o tempo. E não conseguimos navegar de volta para casa.

Nesse mar de lembranças, Marcelo conta a história de seu pai, preso em janeiro de 1971, torturado e desaparecido na ditadura militar. Só mais tarde, décadas mais tarde, foi confirmada a morte de Rubens Paiva e esclarecidos os detalhes. O corpo nunca foi encontrado. Conta também a história de sua mãe, Eunice Paiva, presa e interrogada na mesma época, que teve que se reinventar e reconstruir após o desaparecimento do marido para cuidar de seus cinco filhos.

Mais do que tratar das crueldades e mentiras tecidas pela ditadura, confirmadas por transcrições de matérias jornalísticas e depoimentos reais, o livro demonstra a luta de Eunice para fazer a verdade ser reconhecida. Uma mulher que, para não se deixar abater diante de um sensacionalismo que queria mostrá-la frágil e oprimida pelo sistema, pôs um sorriso no rosto e foi à luta. Uma mulher que, depois de uma vida de tanto sofrimento, foi ainda diagnosticada com Alzheimer.


[...] É uma confusão recorrente de quem tem um parente com Alzheimer: falar dele no passado. Antes, eu sentia uma culpa sem fim por enterrar na conjugação verbal alguém que está vivíssimo e presente. Parecia um golpe do inconsciente, um lapso proposital, um desejo reprimido.

Quem tem Alzheimer em estado avançado está lá, mas não está, é a pessoa, mas não é. Pensa de uma forma peculiar; talvez tais pensamentos façam algum sentido, talvez ela tenha se acostumado com a confusão deles; ou talvez deixe de pensar, já que eles não se concluem.

O livro não é sobre uma coisa só: é sobre a ditadura, é sobre a perda de um pai, é sobre a infância, é sobre Alzheimer e sobre tantas outras coisas que fica difícil listar aqui. É sobre vida, afinal, e a vida não se resume a um aspecto apenas. Acho que foi essa forma de mostrar a complexidade de tudo que me fez gostar tanto do livro. Tratar de uma biografia de forma linear é desenhar a realidade de forma falaciosa, e Marcelo não fez isso. Ele fez bagunça com tantos temas e, sinceramente, a inconstância de suas reflexões me levou junto com ele nesse mergulho pelo passado.

Foi interessante ainda ver aspectos históricos e políticos do nosso país debatidos de maneira tão fluida, especialmente por se tratar de alguém que vivenciou aquilo. Para mim, que sou fascinada por História, em especial a do Brasil, percebi o livro como uma ótima oportunidade de compreender um pouco mais sobre essa época tão nebulosa que foi a ditadura, e a riqueza de detalhes é impressionante. Também pudera, Marcelo é jornalista, escritor e dramaturgo, e é nítido, pela quantidade de informações externas que trouxe para o livro, o quanto buscou a verdade sobre seu pai e sobre o regime.

Ainda Estou Aqui é sim uma biografia, mas não se contenta em narrar os acontecimentos da vida de alguém. A obra é rica em reflexões, estudos e contextualização política e, para aqueles que têm interesse em ler um relato realista e sincero sobre os mais diversos aspectos da vida, não tenham receio de apostar nesse livro.

9 comentários:

  1. O nome Ainda estou aqui me fez lembra a musica de Sandy e Tiago Iorc. Mas isso não vem ao caso hahaah, até porque a historia não tem nada haver com conteúdo da musica. Sobre a resenha, essa obra contem um mistura de varias coisas. Primeiro sobre a infância em um tempo totalmente do atual, nos qual os princípios diferente. Segundo sobre ditadura, um fato da historia do Brasil, no qual gosto de adquirir conhecimento. Já que trouxe varias mudanças. Acho bastante legal essa mistura quando o escrito sabe organiza bem os tempos, e isso acontece no Ainda estou Aqui, o que gostei bastante

    ResponderExcluir
  2. Oi, Ju!!
    Não sou muito fã de biografias, mas pela primeira vez fiquei instigada a ler uma!! Achei interessante essa obra que fala sobre a perda de um ente querido para a ditadura, como uma mulher teve que se inventar e cuidar dos seus cinco filhos!! Amei a indicação!!
    Beijoss

    ResponderExcluir
  3. Olá, li Feliz Ano Velho há muito tempo atrás, e mesmo não sendo um fã de biografias adorei a escrita do autor, é como se ele estivesse do nosso lado contando a história. Como gostei do primeiro livro estou muito ansioso para começar esse ainda mais por ter referências a um período marcante na sociedade brasileira. Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Ju!
    Já li Feliz Ano Velho do mesmo autor e foi um livro que me ajudou muito em época de dificuldade.
    Quero ler esse porque mainha tem Alzheimer e quero poder acompanhar a luta com sua mãe e como ele consegue conviver com isso, sem contar que fala sobre a ditadura, uma época importante para nosso país.
    Bom carnaval e moderação, hein?
    “Não basta saber, é preferível saber aplicar. Não é o bastante querer, é preciso saber querer.” (Johann Goethe)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  5. Não tenho paciência com biografias, mas essa é interessante, trata de muito sofrimento para uma família, uma luta de sobrevivência para essa mãe e seus filhos depois da morte do marido, deve ser um grande exemplo de perseverança e garra.

    ResponderExcluir
  6. Também não leio tantas biografias, e queria me inserir de verdade no gênero, por isso adorei conferir suas impressões sobre sua experiência. Vou dar uma chance para este livro e ver se consigo me adaptar a esse tipo de história. Gostei dele colocar a complexidade de maneira natural, mostrando aspectos da vida. Adorei o fato dele tratar sobre a História, debatendo e argumentando, certamente um livro que precisa ser lido.

    ResponderExcluir
  7. Oi!
    Quero muito ler esse livro, li Feliz Ano Velho e deu para conhecer um pouco do Marcelo Rubens Paiva, mas achei interessante como esse livro foca mais na sua família e todo esse momento dificil que eles tiveram que passar, estou bem curiosa sobre esse livro, também não gosto muito de biografias, porém o primeiro livro do autor me conquistou e fiquei curiosa para poder conferir esse !!

    ResponderExcluir
  8. Li hoje mesmo uma resenha desse livro e olha não gostei não, esse genero não me chama a atenção nem um pouco. A cama achei simples e linda, compraria somente por ela, não pela história (sim, sou o tipo que ama as capas)

    ResponderExcluir
  9. Tenho o mesmo problema com biografias.... as que tentei ler me entediaram. Acho que vc ter uma curiosidade pelo Marcelo antes facilitou a leitura, mas eu ainda não sei se leria

    ResponderExcluir

 
Layout feito por Vinícios Costa editado por Silviane Casemiro | Todos os direitos reservados ©