17 de outubro de 2017

Resenha: O Ódio Que Você Semeia

Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa. Angie Thomas, numa narrativa muito dinâmica, divertida, mas ainda assim, direta e firme, fala de racismo de uma forma nova para jovens leitores. Este é um livro que não se pode ignorar.

Título Original: The Hate U Give
Autora: Angie Thomas
Páginas: 378
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Galera
Livro recebido em parceria com a editora

No Brasil, um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos. Em agosto de 2014, Michael Brown foi morto, aos 18 anos, por um policial branco em Ferguson (Missouri). Ele não portava armas e não possuía antecedentes criminais. O júri decidiu não processar Darren Wilson "porque considerou que não existem provas suficientes para processá-lo pelo assassinato". Seis tiros tiraram a vida de Brown. Em julho do mesmo ano, Eric Garner foi asfixiado por um policial branco por cerca de 15 segundos que foram suficientes para matá-lo. O assassinato aconteceu em Nova Iorque. Eric Garner era negro. O policial que cometeu o crime também foi inocentado pelo júri. 

O Ódio Que Você Semeia foi inspirado na história desses dois jovens, que deram voz ao movimento global Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). O BLM começou nos Estados Unidos, onde ativistas saíam em favor às vítimas da violência policial. Assim como aconteceu com Brown e Garner, Khalil, melhor amigo da protagonista Starr, foi morto à tiros por um policial branco. Starr presenciou tudo. Khalil não estava fazendo nada de errado, não portava armas, era só um adolescente de 16 anos. A partir dessa experiência tão horrível, Starr começa a pensar sobre o que é justiça, se ela realmente existe e, o mais importante, se é válida. 

Nesta história, Angie Thomas aborda vários temas importantes para todo mundo, como racismo, injustiça, lutas diárias, privilégios e muitas outras questões que, sinceramente, precisam ser discutidas. Eu, como pessoa branca, não consigo explicar para nenhum de vocês de forma satisfatória o que foi ler a história de Starr. Quer dizer, meus pais nunca precisaram me ensinar o que fazer se eu fosse parada pela polícia em uma blitz. Eu nunca vi nenhuma pessoa sendo morta. Eu não tenho a mínima ideia de como é o barulho de um tiro. O livro traz, o tempo todo, esse tipo de reflexão e as coisas foram jogadas na minha cara de uma forma que tudo o que eu conseguia pensar é o quão privilegiada sou por não presenciar ou sofrer tanta coisa absurda simplesmente por ser branca, e eu realmente me senti péssima por isso.

Também somos inseridos no dia a dia de Starr, uma adolescente negra que estuda em um colégio branco, filha de um ex-presidiário que deu a volta por cima. Justamente pelo fato de frequentar um colégio fora do seu bairro, a gente consegue mais do que nunca enxergar o choque de duas realidades totalmente diferentes, opostas. Eu não consigo pensar em outra coisa para falar sobre O Ódio Que Você Semeia a não ser o quanto ele é importante e bom. A história é sensacional e, o melhor de tudo, real. A narrativa é sem comparações. Os personagens são incríveis. Tudo, tudo é digno nesse livro. 

Eu não sei como a história de Khalil e Starr chegará para outras pessoas, mas provavelmente vai ficar na minha cabeça por muito tempo. Cada capítulo me proporcionou uma emoção diferente e é isso o que eu quero sentir sempre que estou lendo um livro. Eu chorei porque é muito difícil saber de todos os meus privilégios enquanto tantas outras pessoas estão em outros lugares sofrendo, vendo pessoas queridas morrerem, sendo julgadas. 

O Ódio Que Você Semeia é um livro difícil, pouco confortável — não digo isso em um sentido pejorativo, e sim porque é uma história extremamente dolorosa —, mas necessário para mostrar que coisas ruins acontecem o tempo todo, mesmo que não aconteçam comigo. Às vezes tudo o que a gente precisa são histórias que nos mostrem a realidade, ainda que não sejam fáceis. 

15 comentários:

  1. Caramba, Ana, que resenha...
    É a primeira resenha que leio sobre este livro, e posso dizer que quero muito ler este livro.
    Realmente é uma leitura necessária (deveria ser obrigatório nas escolas); ainda mais nos dias de hoje onde o preconceito é velado. É importante que de alguma maneira possamos ver melhor essa realidade, e ver o quanto o ódio por algo tão banal como o tom de pele pode destruir vidas.
    Fico imaginando como Starr passou por esta situação... com certeza será uma leitura difícil.
    E vi que vai virar filme, com a mesma atriz de Tudo e todas as coisas.

    Beijos

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  2. Fiquei bastante interessada no livro. Fiquei sabendo dele infelizmente através de uma situação de racismo passada por uma funcionária da editora em questão.
    Lamentável!
    No momento em que vivemos, é sem sombra de dúvidas uma leitura indispensável.

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  3. Ual Ana, que livro é este...
    Enredo forte e marcante, infelizmente ainda nos deparamos com esse assunto né...
    Qro ler pra ontem!
    Espero conseguir em breve.
    Bjs e parabéns pela resenha escolhida!

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  4. Desde da primeira vez que vi este livro entre a vitrine de lançamento da editora, que a temática me interessou. Por mais que lutemos contra o racismo, a violência esta sempre presente, provando que isto ainda esta instaurado em nossa sociedade. E pela sua descrição vejo que a estória retrata exatamente isto, a forma como estes jovens negros estão sempre sendo suspeitos, apenas pela cor de pele, como se isto dissesse da sua moral. Enfim, já quero ler a obra, tenho certeza que vou gostas.

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  5. Tá aí um livro que adoraria ler e parece pra lá de bom mesmo. O melhor dele é essa capacidade de dar um choque na gente, de mostrar uma realidade pela qual ainda fechamos os olhos ou temos um certo descaso por não entender. Eu fico fula, mas fula com qualquer tipo de injustiça e preconceito e acho que iria passar uma raiva danada ao ler esse livro, mas também iria poder ver as coisas com novos olhos, digamos assim. Tem muita coisa que é um absurdo ainda acontecer nos tempos de hoje, mas essa é mais uma luta que não vai acabar nem tão cedo. É triste, mas é a realidade e tudo que a gente pode fazer é tentar entender e aprender com as coisas erradas que vemos por aí.

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  6. Desde o lançamento eu sabia que esse livro seria muuito bom!
    Ainda não li, então não poderei dar minha opinião, porém eu já vi muitas resenhas positivas para essa história.
    Parece ser uma história bem impactante, reflexiva e real. Estou ansiosa para começar a leitura.

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  7. Olá, livros que abordam temas relevantes e atuais, além de sempre entregarem uma mensagem interessante, trazem consigo reflexões. A obra causa sentimento de revolta nos leitores, pois como se trata de fatos reais, ficamos tristes de saber que apesar das evoluções, a triste esfera do preconceito ainda se sobrepõe. Beijos.

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  8. Oi Ana,
    Por mais que a gente queira acreditar que o preconceito vai acabar um dia, hoje ele ainda é muito presente na sociedade e as vezes se manisfesta nas coisas mais simples e rotineiras. E junto a ele temos a injustiça que faz com que cada luta perca o sentido. O ódio que você semeia me parece ser um livro para abrir os olhos e nos mostrar uma realidade presente, mas que muitos preferem ignorar. É um livro que vai direto para minha lista de desejados.

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  9. Esse promete ser um livro que nos faça pensar e analisar a nossa sociedade e ações. Tenho ouvido falar muito bem sobre a obra e quero muito ler e refletir sobre as questões abordadas. Curti muito a resenha, abraços!

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  10. Ana!
    Tremendo absurdo tanto preconceito em pleno século XXI, não admito.
    O mais importante é que o livro traz anális de fatos reais e imagino o quanto deve mesmo chocar, principalmente através dos detalhes.
    Fiquei bem interessada em poder ler.
    Semaninha de muita luz e paz!
    “Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.” (Johann Goethe)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE OUTUBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  11. Oi Ana.
    Eu adoro livros que meche comigo de uma forma profunda, justamente por se tratra de um livro que me leva a refletir a respeito de uma situação que é uma constante em nossa sociedade.
    Enfim, ver esses dados estatísticos é triste e saber que isso acontece diariamente é ainda pior, eu curtir bastante a premissa, chorar por algo tão triste é justificado isso é realmente de partir o coração, sinto que preciso ler esse livro, talvez para aprender a ser um pouco mais agradecida pelo que tenho e para revee minhas atitudes em relação a algumas situações.
    Bjs.

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  12. Este é aquele tipo de livro que vemos a capa e imaginamos o tipo de historia, mas fui mega surpreendida pelo desenvolvimento da historia e por ser baseada em um triste e real fato. Imagino que seja um livro tocante, ainda mais por ser de um tema tão atual, e a realidade de muitas pessoas. Sem dúvida um livro que deve ser lido, para abrir nossa cabeça sobre este assunto.

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  13. Oi, Ana!!
    Que livro mais interessante e incrível deve ser uma leitura bem bacana e instigante. Já tinha ouvido falar dele mas ainda não tinha lido nenhuma resenha dele, acho que a Starr vai passar muito coisa nessa escola e também acho que ela sofreu muito por perder uma amigo querido do nada. Adorei a resenha.
    Bjoss

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  14. Oi!
    Esse é um tipo de livro que todos deveriam ler e filtrar suas palavras. É um assunto tão tabu em nossa sociedade que em pleno século 21 ainda existe preconceito pela a cor da pele. Como pode? Fico indignada com isso!
    Deve ser um livro bem tocante de se ler, com uma historia incrível e reflexões.
    Amei sua resenha, beijos.

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  15. Eu não conhecia este livro, mas achei interessante ele abordar o racismo, injustiça, lutas diárias, privilégios e outras questões que precisar ser discutidas, achei bem legal este livro ter sido inspirado na história de dois jovens que deram voz ao movimento global Black Lives Matter, pretendo ler O Ódio Que Você Semeia.

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