22 de fevereiro de 2018

Resenha: Entre Irmãs

Ganhador do Prêmio de Ficção do Friends of American Writers e agora adaptado para o cinema, Entre irmãs é uma história de amor e lealdade, um romance arrebatador sobre a saga de uma família e de um país em transição.
Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.
Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.
Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.
Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.
Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.

Título Original: The Seamstress
Autora: Frances de Pontes Peebles
Páginas: 576
Tradução: Maria Helena Rouanet
Editora: Arqueiro
Livro recebido em parceria com a editora

Quando eu terminei de assistir Entre Irmãs — no formato de minissérie que passou na Globo —, fiquei tão mexida com a história das irmãs Luzia e Emília que não consegui parar de pensar na adaptação por muito tempo. Foi só um tempo depois que me toquei que o filme/minissérie foi baseado em um livro, publicado originalmente como A Costureira e o Cangaceiro, e que minha querida editora parceira havia relançado essa obra tão maravilhosa. Hoje, dias após ter finalizado a leitura, ainda penso nas melhores costureiras de Taquaritinga do Norte com um aperto no peito. 

Emília e Luzia são duas jovens do interior de Pernambuco que foram criadas pela tia Sofia após a morte precoce dos seus pais. As irmãs não podiam ser mais diferentes: além das características físicas totalmente opostas, enquanto o sonho de Emília é se casar um cavalheiro e se tornar uma dama da sociedade para ir embora de uma vez do lugar onde vive, Luzia já aceitou o seu destino desesperançoso. Após um acidente ainda criança, a jovem ficou com o braço deformado e, obviamente, para os padrões daquela época — a história se passa nas décadas de 20 e 30 —, não despertava o interesse de nenhum rapaz. 

Porém, a vida das irmãs toma um rumo totalmente diferente quando um bando de cangaceiros invadem Taquaritinga do Norte. Antônio, o Carcará e líder do grupo, se encanta com a personalidade de Luzia e resolve levá-la consigo. Não gosto muito de dizer que ela foi obrigada a acompanhar os cangaceiros, porque a todo momento Peebles deixa claro através dos pensamentos da personagem que ela foi por livre e espontânea vontade — até hoje não decidi se foi por medo de um dia ficar sozinha ou se foi porque ela  também se encantou pelo Carcará. 

Algum tempo depois da partida da irmã, tia Sofia acaba morrendo de desgosto. Sozinha e sem perspectiva nenhuma, Emília é "salva" por Degas Coelho, um estudante de Direito que mora em Recife e é da uma família extremamente respeitada na Capital. Assim, apesar de as coisas não acontecerem exatamente como ela imaginava, Emília se casa com Degas e, num piscar de olhos, se torna a sra. Coelho. Com uma narrativa em terceira pessoa que intercala os pontos de vista entre as duas protagonistas, vamos acompanhando os percalços de Emília para se integrar à sociedade ao mesmo tempo em que Luzia vai se tornando a primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. 

Frances de Pontes Peebles conseguiu, com maestria, intercalar o real com o ficcional. Isso porque, apesar de todos os personagens terem sido criados pela autora, ela inseriu fatos históricos que realmente aconteceram, como a Revolução de 1930 (movimento que chega ao poder encabeçado pelo político gaúcho Getúlio Vargas), o direito do voto feminino até mesmo a atividade da frenologia, uma teoria que dizia que era possível determinar o caráter e o grau de criminalidade das pessoas pela forma da cabeça. O mais legal de tudo é que em nenhum momento essas informações se tornaram cansativas, tudo era parte essencial da história de Luzia e Emília. 

E por falar nas protagonistas, é impossível falar delas sem citar da força que ambas carregam consigo. Luzia, de longe minha personagem preferida, enfrenta não só o machismo dos cangaceiros — em certo ponto, acaba conquistando o respeito de todos —, mas também a caatinga, que era tão impiedosa quanto os homens. Emília, apesar de não passar fome ou sede, acaba se vendo mais sozinha que nunca, pois o casamento não é nem um pouco o que ela esperava. Além disso, tem que enfrentar, a todo momento, uma sociedade hipócrita e cheia de segredos.

Preciso confessar que, no começo, achei muito estranho o fato de a editora ter alterado o nome da obra, principalmente por minhas partes preferidas serem as relacionadas à Costureira e o Carcará, mas o título Entre Irmãs é realmente muito mais pertinente. Apesar de estarem separadas, vivendo vidas totalmente opostas, Emília e Luzia nunca deixavam de pensar uma na outra. Era uma sensação diferente e emocionante vê-las acompanhando a vida de cada uma apenas através dos jornais. O amor, a preocupação, o sentimento de cumplicidade e confiança nunca deixaram de existir, e é justamente por isso que, ao meu ver, o livro  juntava a vida das duas.

No Brasil, o cangaço é considerado como um fenômeno de banditismo, por causa dos crimes e da violência extrema cometidas pelos bandos. Mas, pelos olhos de Luzia, eu só conseguia enxergar seres humanos tão frágeis quanto quaisquer outros, que sentiam fome, frio, dor e tristeza. Na maioria das vezes, eles só queriam justiça, e eu conseguia entendê-los. Apesar da matança e da crueldade, eu não conseguia ficar contra o bando de Carcará. Para ser sincera, eu sentia ódio dos políticos por caçarem o bando, ódio das pessoas que julgavam, ódio de quem queria medir a cabeça do Carcará, de Luzia e do resto dos seus seguidores para comprovar o mau-caratismo deles.

Apesar das quase 600 páginas, a leitura flui muito naturalmente. A escrita de Peebles é tão ágil que, quando a gente percebe, 100 páginas já se foram numa velocidade incrível. A história em si não foi nenhuma surpresa para mim — aliás, a adaptação de Breno Silveira segue quase fielmente a saga criada por Frances, o que eu amei —, mas ainda assim me surpreendi. A partir dos detalhes, Frances de Pontes Peebles apresenta uma trama tão bem alinhavada quanto as costuras de Emília e Luzia. 

16 comentários:

  1. Ana!
    Acho importante o passado nordestino e toda história do povo sofrido, ser retratada tão fielmente nesse livro, ainda mais em época tão conturbada como a revolução.
    Como nordestina sinto o maior orgulho!
    E acredito que além do drama e romance o mais importante são as convenções que a época impunha e o momeno polítio como pano de fundo.
    Deve ser um livro maravilhoso e quero assistir o filme também.
    “Acredite que você pode, assim você já está no meio do caminho.” (Theodore Roosevelt)
    cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA FEVEREIRO: 3 livros + vários kits, 5 ganhadores, participem!
    BLOG ALEGRIA DE VIVER E AMAR O QUE É BOM!

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  2. Infelizmente não consegui acompanhar a série, mas pelas chamadas eu pude perceber que se trata de uma história forte e muito bonita, e fiquei com vontade de ler.
    E essa resenha me faz ter certeza de que é uma boa história. Nunca li nada que aborda o cangaço, então é uma ótima oportunidade pra conhecer esse modo de vida.
    Confesso que Entre irmãs é um título que me agrada mais do que o original.

    Beijos

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  3. Oi Ana1 Gostei muito da sua resenha, assisti a alguns episódios da série e acredito que o livro seja ainda mais intenso.
    Beijos!

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  4. Não consegui ver a série que passou recentemente(não consigo ficar acordada),mas acompanhei muita coisa pela internet. Aliás, acho que a escolha das atrizes foi de uma grandeza enorme. Por tudo que fui lendo e vendo, foi um casamento perfeito!
    Já estou namorando o livro há tempos, desde que foi divulgado e não vejo a hora de poder conferir.
    Acredito que tudo que traga uma pitadinha do que foi e ainda é em muitas regiões nordestinas essa vida sofrida, é super válido a todos nós sabermos!
    Lerei com certeza!
    Beijo

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  5. Oi Ana,
    Já tinha lido criticas a respeito do filme, mas não sabia que havia sido adaptado de um livro. Entre irmãs é o tipo de drama que gosto de acompanhar, pois explora as relações familiares nos bons e maus momentos. O interessante desta história é ver como as dificuldades do sertão afetam cada uma e como elas irão atrás de um futuro diferente. A Luzia é bem corajosa, pois ir com os cangaceiros e viver esta vida regada de perigo não é para qualquer um. Mas fiquei um pouco em dúvida sobre seu motivo para ir com o Carcará e espero que isso tenha mais a ver com sentimentos de amor do que de solidão. Emília consegue o casamento que deseja, mas vive-lo, na certa, não será como sonhou. A história dessas irmãs pode ser uma grande aventura fictícia, mas cheia de realidade que poderia, facilmente, ser a história de qualquer pessoa.

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  6. Tinha visto primeiro o livro e achei que seria um filme pela capa. Fiquei surpreendida com ser uma minissérie. Não cheguei a ver, mas deu vontade de conhecer o livro. Gostei da premissa e parece ser muito bom acompanhar a historia delas. E pela época me chamou mais atenção ainda. Ver os problemas, como eram as coisas nesses tempos pra essas pessoas. E é legal ter coisas reais como um fundo da história também. Achei bem interessante poder ter uma nova visão do cangaço e de tudo isso, deve ser bem interessante entender as coisas pela visão da garota. Muito bom, gostei da trama desse livro.

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  7. Deve ser um livro muito interessante e importante, pelos fatos históricos nele apresentado, e sobre o cangaço, pensei que seriam do mal, mas gostei de saber desse lado deles, que são julgados sem nem a gente saber direito como são como vivem. Gostei da união das irmãs mesmo longe uma da outra.

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  8. 600 páginas? Meu Deus nunca li nada tão grande!
    Gostei de história, não sou muito chegada a dramas mas achei bem legal, um pouco da história do nosso país, uma forma de conhecer a vida dos cangaceiros que são tão rotulados como vilões, mas não vemos o outro lada para saber o que os levou a isso. A vida da elite que parece tão perfeita mas que esconde seus podres sob o tapete.
    Quero muito ler para poder ver a minissérie.

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  9. Oi Ana!
    Eu não consegui assistir a mini série, mais ainda quero, só vi elogios sobre essa adaptação. Quanto ao livro, dá para perceber o quanto ele traz de características brasileiras, esse foi um dos pontos que mais me chamam atenção, e claro, conhecer a história dessas duas irmãs que carregam consigo tantos sentimentos e força. Sem dúvidas é um livro muito bem escrito, e quero ler.
    Beijos

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  10. Olá Ana!
    Eu vi a série e fiquei apaixonada pela histórias dessas irmãs, história maravilhosa e mto emocionante, eu qro um dia ler o livro, sempre digo que o livro tem mais detalhes, preciso mto ler!
    Bjs!

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  11. OI Ana.
    Meu deus que cachamaço é esse? rsrs
    Eu não assistir a mini série, mas desde que vi o anúncio desse lançamento, já fiquei interessada na obra, eu gosto dessa titulo, acho que combina bem com a história e olha que ainda me li, já estou com o coração doendo por essas irmãs e não vejo a hora de conhecer suas história.
    Bjs.

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  12. O legal é que livro se passa aqui na minha cidade em Recife e eu amei o livro pessoas por ter um teor histórico o que me encanta muito em qualquer obra mas a relação entre irmãs que Óbvio é o que mais chama atenção no livro apesar de ainda não ter visto o filme eu vi que receberam ótimas críticas pela produção dele

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  13. Oi Ana, eu lembro de a série ter feito sucesso mas eu quase não assisto mais TV, só quando eu quero ver um filme e olha lá. Acho bem interessante o enredo e pelo visto foi bem desenvolvido, até porque tudo isso de pagina tem que contar um bom desenvolvimento kkk. O livro parece ser muito bom mesmo e eu ainda nem li mas já to com o coração apertado por tudo que essas duas irmãs vão passar. Vou dar um olhada nos sites pra poder conferir os preços. Obrigada pela resenha.

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  14. Oi, Ana.

    Para as duas irmãs, imagino que não foi fácil ter destinos e laços separados e diferentes.

    Afinal, depois da morte dos pais, elas só tinham uma à outra.


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  15. Oi Ana! Eu não assisti a série mas acho que você conseguiu passar muito bem sobre o que se trata a história. O cangaço é um fenômeno realmente interessante e com certeza é um reflexo da miséria, das injustiças, da vida terrível no interior do Nordeste. Imagino que a autora tenha conseguido inspirar em você a preferência pelo bando do livro pelo ponto de vista dela, o que acredito ser prova do talento dela. Muito interessante, gostei da dica.
    Beijos.

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  16. Oi, Ana!
    Infelizmente não consegui assistir a minissérie mas achei a história bem interessante é quero muito ler essa história dessas duas irmãs.
    Bjoss

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