As Afinidades Eletivas | Goethe - Roendo Livros

27 de abril de 2019

As Afinidades Eletivas | Goethe

Eduard e Charlotte formam um casal elegante e aristocrático que vive numa propriedade rural idílica, porém perigosamente próxima do fastio. Mas a relativa paz de sua existência é posta à prova quando a presença de dois visitantes - o Capitão e Ottilie - faz despertarem reservas magmáticas de atração sexual e amor proibido.
Com o título inspirado pelo princípio da química a respeito de certos elementos que são atraídos para outros, e com uma temática calcada na própria biografia sentimental (e conflituosa) de Goethe, este romance é um dos triunfos supremos do romantismo. Permanece, mais de duzentos anos depois de sua publicação original, como um estudo profundo sobre amor e destino.
Esta edição permite conhecer (ou revisitar) a obra que é uma das pedras fundamentais do romance do século XIX. Um objeto literário encantador e meditativo sobre como somos arrastados pelas paixões.

Título Original: Die Wahlverwandtschaften 
Autor: Goethe
Páginas: 328
Tradução: Tercio Redondo
Editora: Penguin
Livro recebido em parceria com a editora

A vida que Eduard e Charlotte levavam era tranquila e satisfatória, até o dia em que Eduard decidiu trazer seu amigo, o Capitão, para passar um tempo morando com eles. Mesmo com a insatisfação de Charlotte frente a essa proposta, Eduard, acostumado a sempre ter seus desejos atendidos com prontidão, traz o amigo para o convívio do casal.

Aproveitando a ocasião e tendo sido vencida pelas vontades do marido, Charlotte traz sua sobrinha (filha por consideração) para também viver com eles. Ottilie, que antes vivia em um pensionato, mas que não tem obtido bons resultados nos estudos, vem para ajudar nos afazeres da casa.

O que antes eram dois, agora são quatro, convivendo e interagindo. A rotina do casal é afetada e as relações se tornam mais confusas. Eduard se sente imediatamente atraído por Ottilie. A jovem garota, com sua mentalidade mais infantil, encanta Eduard. Vale lembrar que era costume que homens mais velhos se juntassem a moças mais jovens. Inclusive, no livro, fica claro que o nível de maturidade de Eduard combina mais com o de Ottilie do que com o de Charlotte, que tem a mesma idade que ele e que, portanto, é considerada velha demais para ele. 

Dessa forma, Eduard encontra em Ottilie essa figura com quem ele consegue se vincular e interagir com naturalidade. E por mais que o leitor tenha todas essas explicações que supostamente justificam a atração que Eduard sente por Ottilie, é inevitável nos sentirmos enojados com essa relação que nos remete não apenas a incesto, como também a pedofilia. Lembrando que a idade de Ottilie não é revelada em nenhum momento, mas tudo indica que ela seja muito nova. 

Assim se dá o envolvimento de Eduard e Ottilie. No entanto, bem mais confuso e difícil de explicar é o envolvimento de Charlotte com o Capitão. Ambos são bem mais maduros e contidos em seus impulsos. Fato é que ambos também passam a se gostar e as relações ficam bastante confusas. Há no livro um momento em que os personagens conversam sobre Química e o título do livro é explicado. Esse foi um dos capítulos que eu mais gostei de todo o livro. A conexão que Goethe fez entre o princípio da Química e as relações humanas é realmente genial e encanta qualquer leitor. 

Com toda essa genialidade, confesso que eu esperava que o livro fosse partir de uma premissa simples para gerar reflexões mais profundas. Porém, não há tanta profundidade assim. Ao longo do livro, vamos acompanhando os desdobramentos dessa situação e todos os efeitos gerados pela intervenção dessas duas pessoas dentro desse relacionamento. 

Me incomoda a forma como Eduard e Charlotte são retratados como vítimas passivas, como se eles não tivessem culpa alguma pelas coisas que acontecem. Como se a responsabilidade fosse apenas de Ottilie e do Capitão. Eduard é completamente detestável, ele é mimado, imaturo e egoísta. Felizmente, hoje, homens como Eduard não são mais enaltecidos. É interessante ver como essa imaturidade masculina era naturalizada antigamente (não tão antigamente assim). O papel dos homens nessa obra é o de causar estragos. É difícil saber quais eram as reais intenções do autor quando ele escreveu essa obra. Afinal, o romance foi escrito no começo de 1800, na Alemanha, contexto que pouco conhecemos.

A obra funciona muito bem como um retrato da época, como uma forma de entrarmos em contato com os valores e os costumes estabelecidos nessa sociedade. Goethe é mestre em retratar sociedades de forma muito vívida e transportar o leitor para seus cenários. Aqui não é diferente. Houve momentos em que eu precisei parar a leitura para respirar e me acalmar da raiva e do nojo que eu estava sentindo pelo Eduard. 

O papel exercido pelas mulheres na obra é de extrema passividade. São raros os momentos em que elas tentam se posicionar e, mesmo quando isso acontece, suas vontades não são respeitadas. Por outro lado, a força feminina também é retratada na obra. Há momentos em que vemos Charlotte é Ottilie precisando agir sozinhas, sem nenhum apoio. Esses momentos me lembraram outra obra fantástica, E o Vento Levou, justamente por mostrar mulheres sendo fortes mesmo sem nada a favor delas. 

Eu adoro a escrita do autor e dessa vez não foi diferente. A leitura fluiu muito bem, o livro conseguiu despertar emoções intensas em mim, me revoltou e me causou angústia. Apesar de ser revoltante algumas coisas, não posso ignorar que o livro foi escrito em um contexto completamente diferente do atual. E é justamente por isso que a leitura vale a pena, porque ela nos coloca em contato com outra realidade. E eu defendo o argumento de que se um livro consegue fazer você sentir com intensidade é porque o livro é bom (independentemente de qual emoção ele te desperta).

A edição segue o padrão da Penguin, que eu particularmente adoro. Não é um livro grande, os capítulos são curtos e a quantidade de texto por página é boa. As Afinidades Eletivas é uma leitura gostosa e rápida que dificilmente será esquecida. Não é o meu favorito do autor. O favorito continua sendo Os Sofrimentos do Jovem Werther. Porém, certamente é uma boa leitura.

12 comentários:

  1. Um livro de um autor clássico e renomado que retrata não só a sociedade da época como também o comportamento do homem e da mulher nessa sociedade.
    Afinidades Eletivas é uma leitura repleta de subjetividade, drama e idealismo.

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  2. Oi, Priscilla
    Ainda não tenho contato com a escrita de Goethe, mas seus livros são clássicos que pretendo ler.
    Mesmo sendo um livro que retrata a sociedade da época podemos ver muitas coisas que ainda nos dias atuais acontece.
    Em comparar nossas relações seja de amor ou amizade com a química foi surpreendente, deve ser uma leitura fascinante. Gostei da capa que lembra as conexões que temos com os elementos ou pessoas.
    Beijos

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  3. Ainda não li nada do Goethe; confesso que tenho pouca informação sobre suas obras.
    Achei a premissa instigante, gostei de saber dos sentimentos que a leitura te causou.

    Beijos

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  4. É muito doido você ler uma coisa assim, dessas relações de antes com caras mais velhos e garotas mais novas. Só de ver isso no livro, esse encanto que o homem tem na menina já fico de rosto torcido. Parece ter aquelas coisas que me causam birra nos livros de época assim. Mas ao mesmo tempo tem também uma reflexão e visão da época, é interessante por isso. Esse relacionamento confuso dos quatro é bem confuso mesmo. Mas parece que a escrita e os sentimentos que consegue passar valem a pena. Um livro que seria bem interessante de ler por tudo que faz sentir e pensar.

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  5. Priscila!
    Achei também que seria mais filosófico e interessante.
    Mas de qualquer forma, retrata a sociedade da época, seus conflitos e relcionamentos, ao menos por curiosidade, talveez valha a pena ler.
    cheirinhos
    Rudy

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  6. Oi Priscilla,
    Nunca tinha ouvido falar dessa obra e, para ser honesta, é aquele tipo de livro que sem grandes recomendações não iria conhecer. A história toda em um geral me parece muito confusa ao mesmo tempo que parece simples. É um romance e há uma troca de casais, até aí tudo bem, mas quanto mais fui lendo sobre a trama mais fui percebendo o quanto ela tem assuntos importantes que mereciam grandes discussões. O que mais me incomodou foi saber da relação de Eduard e Ottilie, entendo como funcionavam as coisas na época, mas ainda assim toda a situação é inapropriada. Não conheço a escrita de Goethe e por mais que eu fique curiosa para conhecer novos autores, não fiquei muito interessada nessa obra.

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  7. Oi, Priscila!!
    Ainda não tive o prazer nenhum livro do Goethe, achei a história bem complicada pois falar sobre relações humanas é um assunto difícil mesmo atualmente. Espero ter oportunidade de conferir essa história.
    Bjos

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  8. Quanto tempo eu não via ou lia o nome de Goethe! Um dos grandes nomes mundiais da literatura que infelizmente, é desconhecido para muitos(mesmo com tanto tempo)
    Esta obra do autor eu não conhecia, mas gostei demais de tudo que li acima, pro trazer costumes, tabus e claro, o jeito todo peculiar desta época, onde as mulheres eram tão submissas, tão controladas.
    O comportamento masculino também é algo a ser mencionado, já que felizmente, muita coisa mudou!
    Com certeza se tiver oportunidade, quero sim, conferir!
    Beijo

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  9. Infelizmente ainda não li nada do Goethe. Mas é muito bom poder conhecer um pouco da sua obra. Apesar desse não ser considerado o melhor livro do autor eu me interessei bastante. Claro que sei que se ler vou sentir um ódio mortal do Eduard mas a gente sempre precisa lembrar da época e das diferenças que existiam.
    Quero muito fazer essa leitura.

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  10. Nunca li nada do autor, mas quero.
    Agora esse achei bem perturbador.
    Que raiva desse Eduard. Aiii, nojento, traíra, né!!
    Livros sobre traição, pedofilia, manipulação, essas coisas sempre são difíceis para eu ler. Não consigo.
    bjs

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  11. Oi, Priscilla!
    Não curto livros sobre traição e pedofilia, sem falar que achei muito negativo a forma como Eduard e Charlotte são retratados - como vítimas passivas... E o que falar do Eduard?! Meu estômago embrulha só de imaginar o que ele faz a Ottilie... por isso dificilmente eu arriscaria a leitura de As Afinidades Eletivas, não por duvidar da qualidade da obra mas sim por não fazer o meu estilo de leitura. Abraços!

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  12. Embora fosse costume da época, não gosto dessa romantização entre um homem mais velho e uma menina, ainda mais sendo o Eduard um homem detestável e egoísta. Contudo, o paralelo que Goethe traça em relação à Química e às relações humanas me parece muito interessante.

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