SOCIAL MEDIA

5 de maio de 2022

Hamnet | Maggie O'Farrell

Apesar de ser considerado um dos maiores autores e dramaturgos de todos os tempos, pouco se sabe a respeito da vida de William Shakespeare. Nascido em 1564, o poeta escreveu algumas das histórias mais conhecidas e amadas do mundo, como Romeu e Julieta, A Tempestade, Rei Lear, Macbeth, Sonho de uma Noite de Verão e Hamlet. Este último, parece ter sido inspirado em seu filho, Hamnet, que dá nome ao romance de Maggie O'Farrell, vencedor do Women's Fiction Award no Reino Unido e eleito um dos melhores livros de 2020. No Brasil, a obra foi lançada em 2021, tendo sido publicada primeiramente pelo Clube Intrínsecos.

O'Farrell preenche as lacunas na história de Shakespeare e se concentra em um dos episódios mais tristes da vida dessa família: a morte prematura de Hamnet, filho de Shakespeare e Agnes, irmão gêmeo de Judith e irmão mais novo de Susanna. Como a morte do filho pode ter influenciado Shakespeare? Como esse acontecimento trágico atingiu Agnes?

Num primeiro momento, o que mais me surpreendeu nesse livro foi a narrativa de Maggie O'Farrell, que consegue a proeza de ser poética e fluida ao mesmo tempo, profunda e rápida. As primeiras páginas ja conseguem prender o leitor pela ambientação e apresentação dos personagens. Quando Agnes é apresentada é impossível não se apaixonar por ela. Olhem que lindamente triste é esse trecho:

Ela cresce se sentindo errada, inadequada, morena demais, alta demais, demasiado indomável, demasiado obstinada, calada demais, esquisita demais. Cresce com a consciência de ser meramente tolerada, irritante, inútil, de não merecer amor, de precisar mudar de forma drástica, subjugar sua natureza, a fim de conseguir se casar. Cresce também com a lembrança do que significa ser amada de verdade, pelo que se é e não pelo que se deveria ser.

Agnes é forte, selvagem e sábia, mas sabe que essas características não eram as mais desejadas e admiradas em uma mulher. Esse livro é muito mais sobre Agnes do que sobre Shakespeare. Na verdade, o autor não é nominalmente citado nenhuma vez ao longo de todo o livro. As referências a ele são como "o pai", "o marido", "o filho" e assim por diante. E isso é incrível, pois demonstra que essa história não se apoia unicamente na fama do dramaturgo, pois realmente tem muito mais a oferecer.

O primeiro capítulo do livro mostra Hamnet procurando um adulto pela casa, pois sua irmã gêmea, Judith, não esta se sentindo bem. O tema que será pano de fundo para essa história já dá os primeiros sinais aqui: a peste bubônica. Tema este que, por si só, já é assustador. A atmosfera de tensão do livro é muito bem trabalhada através do medo das pessoas. Afinal, estar com a peste ou ver alguém que você ama com a doença era um verdadeiro pesadelo.

No segundo capítulo, voltamos alguns anos e acompanhamos Shakespeare e Agnes se conhecendo, enquanto somos apresentados aos pais e familiares de ambos também. E assim o livro segue, alternando capítulos que mostram o início do relacionamento dos pais de Hamnet e a vida do garoto já aos 10/11 anos de idade.

O leitor já sabe que o garoto que dá nome ao livro irá morrer, mas o livro demora para chegar nesse acontecimento. A princípio, isso me incomodou, mas depois eu entendi que a intenção da autora é fazer com que o leitor se afeiçoe a esse personagem, o veja nascer, crescer e se tornar o menino doce e amoroso que aparece no primeiro capítulo. Acompanhamos não apenas a vida de Hamnet, mas também o que a precede: o amor entre seus pais, as dificuldades enfrentadas por eles, as excentricidades de Agnes, a determinação de Shakespeare e o amor incondicional que eles sentem pelos filhos.

Todos os personagens desse livro são muito bem construídos, complexos e reais, mas preciso dizer que a Agnes e o Hamnet ganharam meu coração. Agnes com seus dons (que vocês só vão descobrir se lerem o livro) e Hamnet com sua delicadeza. Esse livro transborda amor em todos os momentos. E como é duro ver pessoas que se amam tanto perdendo umas às outras. O capítulo que narra a morte de Hamnet é de arrepiar. E a dor de Agnes é tão forte que deixou meu coração apertado.

Tentaria de tudo, faria de tudo. Abriria as próprias veias, rasgaram o próprio corpo e daria ao filho seu sangue, seu coração, seus órgãos, se de alguma coisa adiantasse.

O romance é dividido em duas partes e é a morte de Hamnet que marca essa divisão. A partir desse ponto, o livro passa a ser sobre luto, sobre perder um filho, um irmão, um sobrinho, um neto, sobre enterrar uma criança. E, gente, que difícil. Eu, que nunca pensei em ter filho, me peguei sentindo a dor da Agnes pela injustiça daquela situação, porque uma mãe jamais deveria ter de velar o corpo inerte de um filho.

O livro também é sobre o poder da arte. Poder capaz de trazer os mortos de volta, capaz de ressignificar tragédias e acalmar sofrimentos. Shakespeare lidou com a morte do filho do único jeito que sabia lidar com qualquer outra coisa: transformando em arte. Mas não apenas isso. Afinal, o livro explora diferentes formas de viver o luto. Cada pessoa encara esse momento de uma forma e O'Farrell soube explorar isso muito bem.

A edição da Intrínseca é um dos livros mais lindos da minha estante. A capa é lindíssima e tem uma textura diferente, áspera, como um tecido. As letras e margens grandes tornam o livro gostoso de ler. Amei que a fonte das letras é diferente. Eu nunca tinha lido um livro com essa fonte. Infelizmente, eu encontrei vários erros ao longo do livro, desde palavras escritas erradas até palavras faltando. Mas nada que prejudique a leitura e nada que não possa ser resolvido com uma revisão mais cuidadosa.

Recomendo demais esse livro. É bem o meu tipo de livro, que transborda sentimento e mexe com o leitor. Impossível fazer essa leitura e não sentir nada. Se você também ama leituras que mexem com a alma e o coração, você vai amar Hamnet.

Título Original: Hamnet ✦ Autora: Maggie O'Farrell
Páginas: 384 ✦ Tradução: Regina Lyra ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
Ajude o blog comprando o livro através do nosso link! 

9 comentários :

  1. Não sabia essa história por trás de Hamlet, parece que Maggie fez um ótimo trabalho nessa obra, e sua resenha me deixou curiosa.

    ResponderExcluir
  2. Queria reler Hamlet, pois quando li ainda não tinha uma leitura muito madura, e sinto que acabei não absorvendo o suficiente da história.
    Imagino o quanto a Maggie teve que estudar sobre essa família e sobre a obra para escrever esse livro.

    Danielle Medeiros de Souza
    danibsb030501@yahoo.com.br

    ResponderExcluir
  3. ola
    Achava que esse livro tinha sido lançado há mais tempo .Não sabia da historia pos detras de um livro ,Parece ser uma leitura triste ,pois trata de um tema super sofrido que é a perda de um filho.E hoje em dia vemos muitos país enterrando seus jovens filhos por causa da violencia e tambem por causa do coronavirus.

    ResponderExcluir
  4. Oi!
    Eu tinha visto que esse livro veio junto em uma caixinha do Intrínsecos e fiquei interessada, mas tinha me esquecido totalmente dele já que não vi resenhas sobre. Gostei de saber qual parte da vida do Shakespeare que é contada e vou conferir a amostra do livro na Amazon para ver se o tipo de escrita poética da autora funciona comigo.

    ResponderExcluir
  5. Sem dúvida uma leitura densa que, ao mesmo tempo que, dá uma visão sobre esse mestre da literatura, nos mostra uma família comum, apaixonada entre si e que irá enfrentar uma dor terrível

    ResponderExcluir
  6. Quando esse livro chegou na caixinha de sonhos, eu não dava nada por ele, até as resenhas começarem!
    E não li nenhuma,mas nenhuma mesmo que fosse negativa. Pelo contrário, igual a sua, tecem elogios do começo ao fim.
    Uma história trágica que traz esse se afeiçoar ao personagem, mesmo sabendo do que irá acontecer.
    É um livro que desejo muito ler!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

    ResponderExcluir
  7. Olá! Nossa que livrão, desconhecia esses fatos sobre a vida de Shakespeare, sua resenha me deixou bem curiosa para conhecer o livro, mesmo ciente desses acontecimentos trágicos, realmente não há como mensurar o quanto doloroso é a perda de um filho.

    ResponderExcluir
  8. To bem curiosa em ler essa historia, e sim, acho que é bem meu tipo de leitura também, que acho facil que vou gostar, espero que isso aconteça mesmo. Espero também que eu consiga ler em breve. Fiquei curiosa em ver a fonte do livro, a diagramaçao.

    ResponderExcluir
  9. Priscila!
    Interessante ver um livro que fala sobre a história de Shakespeare e ainda assim, não cita seu nome, porque se trata da família e não dele especificamente.
    Confesso que não sabia sobre a história que teve esposa e filho.
    Parece um livro adorável para leitura.
    cheirinhos
    Rudy

    ResponderExcluir