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12 de outubro de 2022

Eu Beijei Shara Wheeler, de Casey McQuiston, e as dificuldades de ser uma pessoa LGBTQIAP+ em um ambiente conservador

Comecei a ler Eu Beijei Shara Wheeler sem a mínima noção do que esperar da história. Não sou muito de ler sinopses, vocês sabem, mas acho esperava algo diferente, ainda que eu não saiba explicar exatamente o quê. No fim das contas fui surpreendida, porque apesar de ser um clichê digno de Sessão da Tarde, Casey McQuiston abordou um tema importantíssimo e muito corriqueiro na comunidade LGBTQIAP+: coexistir em um ambiente conservador. 

Na trama, os personagens, incluindo a protagonista Chloe Green, vivem em False Beach, uma cidadezinha no interior do Alabama. O grande problema é que toda a cultura do lugar é proveniente de um fanatismo religioso extremo, então tudo o que foge do padrão "família tradicional" é condenado. Quem cresceu no lugar apenas aceita as "regras" impostas, mesmo sem concordar com elas... Mas imaginem só ser uma pessoa assumidamente bissexual, filha de um casal lésbico, e ter que lidar com tudo isso? É o caso de Chloe Green.

É justamente por causa disso que o que ela mais deseja na vida é terminar o Ensino Médio em Willowgrove — que é, inclusive, um colégio influenciado pela Igreja — com maestria e dar no pé. Aqui no Brasil isso não é assim tão comum, pelo menos nas escolas onde eu estudei, mas nos Estados Unidos o melhor aluno do último ano se torna orador da turma durante a cerimônia de formatura, e esse é o principal objetivo de Chloe. A questão é que a protagonista tem uma candidata à altura: Shara Wheeler, linda, inteligente, popular e filha do diretor, o cara mais crente de False Beach.

Mas eis que acontece algo muito inesperado: faltando pouco mais de um mês para a formatura, Shara simplesmente desaparece. Todo mundo fica surpreso porque Shara é certinha demais para fazer esse tipo de coisa, mas Chloe tem um motivo a mais para ficar desconfiada: exatamente no dia anterior ao sumiço, Shara a beijou do nada. E não só a beijou como parece querer ser encontrada por ela, uma vez que deixou cartões pela cidade inteira dando pistas sobre o seu paradeiro. 

O livro praticamente inteiro é essa busca incessante por Shara. Apesar de ser liderada por Chloe, vários outros alunos de Willowgrove acabam se envolvendo por terem certa ligação com Wheeler. Quem já leu Cidades de Papel vai encontrar diversas semelhanças entre os enredos, mas ainda assim acho que Casey McQuiston inovou, principalmente por causa dos personagens que são praticamente todos LGBTQIAP+.

Acho que esse é o momento que vocês pensam: "Uai, mas a cidade não é inteira controlada pelo conservadorismo relegioso? Como assim praticamente todos os personagens de destaque são LGBTQIAP+?" Por motivos óbvios, gente: pessoas LGBTQIAP+ simplesmente existem! A diferença é que a maior parte acaba tendo que se esconder quando vive em ambientes hostis, que basicamente é o que acontece em Eu Beijei Shara Wheeler.

Em False Beach, Chloe é o ponto fora da curva, mas é porque veio de fora. Ela sempre teve o apoio de suas mães, nunca precisou se esconder de fato, e também não sentiu vontade de "voltar para o armário" ao se mudar para estudar em um colégio religioso... Mas o mesmo não pode ser aplicado aos amigos dela, que são obrigados a manter as aparências. Às vezes temos que escolher nossas batalhas para ter um pingo de paz, e muitas vezes isso significa viver nas sombras. 

Acho que o principal ponto levantado por Casey McQuiston é como a religiosidade cega as pessoas. Não só os fanáticos, que usam a palavra de Deus para justificar a homofobia, racismo ou qualquer outro preconceito que têm. Shara Wheeler, por exemplo, precisou beijar Chloe Green por um motivo deveras idiota para entender quem ela era, entendem? De uma forma ou de outra, quando a gente cresce vendo esse tipo de coisa, acaba achando que tem algo errado de verdade com a gente, o que é muito triste. 

Eu gostei muito do livro por se sentir representada de todas as formas possíveis. Não que eu precise sair por aí dizendo que sou bissexual, mas por muito tempo tive que manter essa informação só para mim por causa de fanatismo religioso. E por mais que as coisas tenham melhorado, acho que aqui no Brasil, por exemplo, a gente sofre demais e perde demais por ter energúmeno em posição de poder que legitima a todo momento usar a palavra de Deus para nos condenar, como se ele mesmo fosse Deus para saber o que é "certo ou errado".

Acabei de perceber que esse texto ficou comprido demais, mas eu ainda quero deixar uns apontamentos sobre a história em si antes de me despedir de vocês. Não esperem um grande mistério envolvendo o sumiço de Shara, se não a decepção vai ser bem forte. Na verdade, acho que os motivos dela foram até banais demais para a grandiosidade da mensagem do livro, mas ao mesmo tempo não dá para esperar muito de adolescente privilegiado, né? Também achei que o romance entre Chloe e Shara acabou deixando a desejar por causa da caçada, que durou tempo demais... E por esse mesmo motivo, achei que os personagens secundários ficaram muito apagados. Queria ter lido mais sobre eles, seus anseios, descobertas, como lidavam com as situações envolvendo sexualidade e identidade, enfim.

Eu Beijei Shara Wheeler foi meu primeiro contato com Casey McQuiston, mas já consegui entender porque todo mundo gosta tanto dela: ela ajudou a tornar nossos sonhos reais ao trazer para o nosso universo esses clichês impossíveis que só víamos com pessoas heterossexuais, e sou muito grata por isso.

Título Original: I Kissed Shara Wheeler ✦ Autora: Casey McQuiston
Páginas: 352 ✦ Tradução: Guilherme Miranda ✦ Editora: Seguinte
Livro recebido em parceria com a editora

13 comentários :

  1. E esse energúmeno tendo essa posicao ainda dá voz pra um tanto de outras imbecis... achando q estao corretos. Afff!
    Amei sua resenha!!
    E outra coisa, esse livro mostra como livros jovens tb falam de muitas coisas importantes, como por exemplo o perigo desse fanatismo religioso.
    Quero ler!!! Quero ler!!

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  2. O bug.... Li sempre Sara? Por que não enxerguei o H? Não sei.....
    Curti muito o livro da Casey que li e tô com outro dela na estante. E Beijei tá na wishlist.
    Imagino quantas Chloes existam mundial afora.
    Obrigada por compartilhar conosco sua verdade, Ana

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  3. Não é um livro que eu soubesse algo. Aliás pelo contrário, eu não sabia nadinha. Mas eu amo isso da representatividade, do lutar, mas ao mesmo tempo, entendi que o livro não foca somente nisso, vai por todos os lados de temas importantes.
    E eu sou grata pela oportunidade de descobrir sobre essa história e claro, desejar ler ela o quanto antes!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  4. A questão do fanatismo religioso e a falta de respeito para com o próximo que não condiz com as religiões é um ótimo tema a ser abordado. Com certeza o livro divide opiniões.

    Danielle Medeiros de Souza
    danibsb030501@yahoo.com.br

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    1. Fanatismo religioso é um bom tema mesmo, polêmico... Mas que precisa ser debatido!

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  5. Ola
    Ainda não tinha lido sobre esse livro .Toda forma de fanatismo não é bom .Seja ele qual for.
    Tem que haver sempre o respeito entre as pessoas.

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  6. Pode até ser clichê, pois atualmente tem muitos enredos se desenvolvendo nesse cenário estudantil, mas o tema realmente compensa. Olha, eu fiquei sim curioso com o desaparecimento, então foi bom saber que o livro tem um outro foco e não todo esse mistério. Quanto a achar que tudo está melhorando em questões de preconceito, acho que no fundo as pessoas escondem o que pensam, tanto que atualmente parece que todo mundo resolveu sair por aí mostrando seu ódio por quem pensa ou vive de forma diferente delas.

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    1. É... Já tem um tempo que a gente tá numa de que as pessoas não têm mais medo de expressar discursos de ódio e disfarçá-los de opinião, né? Sei lá...

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  7. Ana Clara!
    Entendo bem a hipocrisia da cidade e mostrada no livro. Minha família sempre foi muito liberal, embora minha mãe fosse beata de igreja católica e trazia consigo uma dualidade constante. Fato é que crescemos com liberdade e convivemos muito com pessoas LGBTQIA+ e outras que sofriam com o preconceito e formamos nossa própria opinião e nunca tivemos preconceito, e, isso nos anos 60, 70...
    Fato é que o livro se faz necessário para maior entendimento e convivência social, em pleno século XXI onde não deveria mais existir preconceito e hipocrisia.
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Muito legal, Rudy!
      Eu mesma cresci numa "família tradicional", onde tudo era tabu... O que me "salvou", digamos assim, foi o fato de eu ter saído de casa cedo para estudar, aí consegui me libertar...

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  8. Oiiie,
    Eu li Vermelho, branco e sangue azul da autora é amei demais e pretendo ler mais livros da autora.. To amando muito ver que representatividade lgbtqia+ estar ganhando cada vez mais espaço nas livrarias e quero ler todos.

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