15 de setembro de 2015

Resenha: Delírio

Título Original: Delirium
Autora: Lauren Oliver
Páginas: 352
Tradução: Rita Sussekind
Editora: Intrínseca

Muito tempo atrás, não se sabia que o amor é a pior de todas as doenças. Uma vez instalado na corrente sanguínea, não há como contê-lo. Agora a realidade é outra. A ciência já é capaz de erradicá-lo, e o governo obriga que todos os cidadãos sejam curados ao completar dezoito anos. Lena Haloway está entre os jovens que esperam ansiosamente esse dia. Viver sem a doença é viver sem dor: sem arrebatamento, sem euforia, com tranquilidade e segurança. Depois de curada, ela será encaminhada pelo governo para uma faculdade e um marido lhe será designado. Ela nunca mais precisará se preocupar com o passado que assombra sua família. Lena tem plena confiança de que as imposições das autoridades, como a intervenção cirúrgica, o toque de recolher e as patrulhas-surpresa pela cidade, existem para proteger as pessoas.
Faltando apenas algumas semanas para o tratamento, porém, o impensado acontece: Lena se apaixona. Os sintomas são bastante conhecidos, não há como se enganar — mas, depois de experimentá-los, ela ainda escolheria a cura?

Alguém que já se apaixonou sabe o quanto o amor torna as pessoas vivas: o quanto o coração palpitando, a adrenalina percorrendo o corpo e as pernas tremendo preenchem os dias e dão esperança de um futuro melhor, mais feliz. E se esse sentimento fosse diagnosticado como uma doença? No mundo em que Lena vive, o amor já não é considerado algo bom; pelo contrário. Existem procedimentos de cura, e tanto aqueles infectados, quanto os simpatizantes e os inválidos, podem sofrer punições terríveis.

Não gosto de pensar que continuo andando por aí com a doença em meu sangue. Às vezes sou capaz de jurar que posso senti-la se movendo por minhas veias como algo estragado, tipo leite azedo. Isso faz com que me sinta suja, me faz pensar em crianças pirracentas, em resistência, em meninas doentes raspando o chão com as unhas, arrancando os cabelos, babando.
E, é claro, faz com que eu me lembre de minha mãe.

Falta pouco para que Lena complete 18 anos. Só lhe resta um verão antes da cura, e ela não consegue esconder a ansiedade para realizar A Intervenção, especialmente por causa do histórico da doença em sua família e do estigma que esteve com ela durante toda a sua vida. Ela só não podia imaginar que nesse interstício conheceria Alex, o garoto que colocaria todas as suas crenças em cheque.

Delírio, de Lauren Oliver, foi lançado em 2012, e desde então eu quis ler o livro. Por algum motivo que não me recordo, não foi possível, e só este ano consegui tirar o exemplar da estante. Não sei se me arrependo de não ter lido antes, ou se só gostei tanto do livro por tê-lo lido no momento certo. Independente do que poderia ter sido, o fato é que eu amei o livro e quero espalhar esse amor – seja ele doença ou não – para todo mundo.

— Lena!
É estranho como reconheço instantaneamente a voz, embora só a tenha ouvido uma vez, por dez, quinze minutos, no máximo - é a risada que corre sob ela, como alguém se inclinando para contar algum segredo muito bom no meio de uma aula muito chata. Tudo se congela. O sangue para de circular em minhas veias. Minha respiração para. Por um segundo até mesmo a música some, e tudo o que ouço é algo firme, baixo e bonito como uma batida distante, e penso: Estou ouvindo meu coração, mesmo sabendo que isso é impossível, porque meu coração também parou. Minha visão consegue focar-se novamente, e tudo o que vejo é Alex, usando os ombros para abrir caminho pela multidão para vir até mim.

Lauren Oliver escreve de uma maneira intensa. A narrativa é em primeira pessoa, pelo ponto de vista de Lena, e o fato de ela ter de se despedir em breve da vida como ela conhece a faz refletir o tempo todo. Todas essas reflexões – que no início são suaves, dentro dos limites daquilo que ela sempre aprendeu, mas que ganham força com o decorrer de suas experiências – conseguem nos inserir no mundo da personagem e entender como as coisas fogem do controle e se tornam um turbilhão.

Nesses anos desde o lançamento do livro, li bastantes resenhas sobre Delírio, e sei que muitos leitores acharam Lena irritante. Isso, porém, não aconteceu comigo. Lena cresceu acreditando em algo que era correto para ela, e sei que não é fácil ver tudo deixar de fazer sentido em tão pouco tempo, já que a base de sua vida foi construída sobre aquelas "verdades". Não é fácil se sentir sem chão, até que consiga pensar por si mesma. Foi isso que aconteceu com a personagem, tudo que ela acreditava precisava ser revisto, e quem é que não resiste à mudança quando ela se apresenta, mesmo que a mudança aconteça apenas em nós mesmos?

Além disso, o livro permite uma reflexão profunda sobre o amor. Alguém já parou para pensar em quantos absurdos acontecem todos os dias em nome desse sentimento? É esse mal que a sociedade, no contexto do livro, tenta evitar. Só que evitar o amor é evitar a vontade, é evitar os anseios, os desejos, a força de conseguir e lutar por algo. É impedir a criatividade, a música, a dança, as risadas, o choro e o sofrimento. É vetar experiências.

Instantes, momentos, meros segundos: tão frágeis, lindos e indefesos quanto uma borboleta voando contra o vento forte.

E, mesmo que a princípio não queira, Lena se afoga nessas experiências. E nós, leitores, somos puxados para o fundo junto dela. Há muito, muito tempo, eu não me envolvia tanto emocionalmente com um enredo romântico, e Delírio conseguiu fazer isso comigo. Eu quis gritar, esmurrar algo, ou só chorar quietinha no meu canto; quis sentir e viver tudo, de bom e de ruim, que o amor poderia me dar.

No fim, eu não pude acreditar no caminho para o qual a autora guiou a história. Foi surpreendente, enganador, e tudo em que consigo pensar agora é no quanto eu preciso saber o que acontecerá em Pandemônio, segundo volume da trilogia.

Classificação final: 

9 comentários:

  1. Oi Ju!

    Olha, juro que às vezes consigo imaginar o amor como uma doença (kakakaka)... Mas brincadeiras a parte, gente... Que horror. Imagina nunca mais conseguir amar? Tenho vontade de ler esse livro há um tempo também, espero que eu não ache a Lena irritante, assim como você. Muito legal saber que Delírio te trouxe tantas sensações.

    Bj!

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  2. Helloo, Ju!
    É a primeira vez que leio uma resenha do teu blog. Meu Deus, eu deveria ter conhecido logo: Parabéns, moça sua resenha é linda, o jeito que tu escreve. Acho que o melhor estilo que vi até agora. Não há erros ortográficos, e é toda bem construída! Estou atônita de tanto que gostei.
    Enfim, agora vamos falar do livro. Eu li Delírio no ano passado. Gostei da narrativa da Lauren, mas não consegui terminar a trilogia, só li o primeiro mesmo. Acho que se eu não tivesse lido antes, e lesse primeiro a tua resenha eu ficaria mais motivada e entraria no gás para ler toda a sequência. Considero Delírio um livro bom, mas tô meio que de ressaca e nem sei o que vou conseguir ler agora. Estou evitando trilogias por um tempo.
    De novo, parabéns pelo post e pela resenha maravilhosa e primorosa! Amei!! :D
    Beijin
    http://piecesofalanagabriela.blogspot.com.br/

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  3. Oi, Ana! Tudo bem? Nossa, adorei a tua resenha! "Delírio" é um livro que chama bastante a minha atenção, tenho uma amiga que leu os livros e adorou a trilogia, então tenho um certo interesse em ler eles. A premissa da obra é genial e se só nesse primeiro você já se envolveu tanto com a história, imagine nos outros livros? Espero ler o livro em breve e gostar dele tanto quanto você gostou.

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/2015/08/resenha-premiada-johnny-bleas-um-novo.html <- Tá rolando promoção do livro "Johnny Bleas - Um Novo Mundo" lá no blog! ;)

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  4. Amor uma doença? E realmente não é? Kkkl
    Eu ainda não tinha visto algo sobre esse livro (pasmem, kkkk) mais achei uma premissa muito interessante, vou procurar saber mais sobre esses livros! Amei a resenha e o blog, seguindo aqui!

    Um abraço,
    Felipe - Um sujeito qualquer
    umsujeitoqualquer.blogspot.com

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  5. Oi! Tudo bem, guria?

    Ah, meu deus. Meu deus. Meu deus!
    Sabe, eu sempre vi esse livro pela blogosfera. Na bienal de 2013 do Rio então, ih, ele entrou em uma promoção maluca no estande da editora e todo mundo comprou e ficou falando dele por meses. Porém, nunca me interessei. Nunca li uma resenha decente e empolgante sobre. Agora, com a sua, estou CHEIA, tipo cheia MESMO para conferir essa trilogia. Amei conhecer as suas impressões!

    Um beijo,
    Doce Sabor dos Livros docesabordoslivros.blogspot.com

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  6. Oi Ju
    Lembro que logo que o livro foi lançado eu queria muito ler, só que o tempo foi passando e eu acebei não comprando o livro e caiu no esquecimento.
    Agora lendo sua resenha me deu vontade de lê-lo, parece ser uma história muito boa, eu curto essa premissa.

    Beijos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  7. Oi, Ju! Oi, Ana!

    Quero ler "Delírio" desde que foi lançado, fiquei tão encantada e atraída pelo tema e a abordagem que não sei porquê ainda não o li, rs. Enfim, também li muitas resenhas que criticaram a Lena, mas, levando em consideração todos os aspectos mencionados por você, acho que fez parte do amadurecimento da personagem.
    Adorei a resenha! Espero ler em breve.

    Beijocas.
    http://artesaliteraria.blogspot.com.br

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  8. Bom da,

    Sempre leio resenhas positivas dessa série e a cada uma delas fico mais curioso, já está na minha lista, só falta money...kkk...bjs.

    http://www.devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  9. Oiii, tudo bem??
    Então eu ainda não conhecia este livro, mas me encantei assim que vi a capa aqui no blog e agora que li sua resenha o livro foi parar na minha WishList da Urgência hahha
    Amei sua resenha e tô mega curiosa para ler este livro!
    Bjoos

    Jovem Literário

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