A Dança da Água | Ta-Nehisi Coates

Terminei de ler A Dança da Água há quase um mês e ainda sinto que não sei exatamente o que falar sobre ele. Isso porque a história contada aqui é pesada, difícil de ser absorvida e real, apesar de todos os elementos ficcionais inseridos. A trama se passa em meados do século XIX na Virgínia, momentos antes da Guerra Civil estourar e, obviamente, em um período que a escravidão estava no auge. Mas vejam bem... A Dança da Água não é um livro sobre a escravidão. É um livro sobre liberdade. 

Hiram, o personagem principal é um escravo, mas não só isso: ele é filho do seu dono — situação muito comum nas fazendas escravocratas. Uma observação importante é que não existe a palavra "escravo" aqui; o autor se refere à eles como "tarefeiros", pessoas que trabalham na Tarefa. Sendo assim, Hiram é um tarefeiro com habilidades especiais: além de ser extremamente inteligente, possui memória fotográfica. E é isso que faz com que seu pai o leve para trabalhar na casa-grande. 

Num primeiro momento, assim como Hiram, achei que o senhor de Lockless estava demonstrando um pingo de compaixão pelo filho, mesmo sendo um mau caráter dos infernos por tê-lo feito sofrer quando criança ao vender sua mãe. Mas obviamente nós dois estávamos errados, já que o destino do jovem foi se tornar servo do meio-irmão, Maynard, o único filho legítimo Howell Walker. Porém, um acidente gravíssimo que quase lhe tirou a vida — o destino já não foi tão condescende com Maynard, que acabou morto — veio para mudar totalmente seu propósito naquele lugar. 

Acredito que, em toda minha vida, nunca tinha lido um livro com tom tão sóbrio quanto A Dança da Água. Por mais que tenha tido contato com outras temáticas importantes e sérias, nenhum tinha a narrativa tão tensa quanto essa. Mas é muito fácil entender essa característica, visto que as situações vividas pelos personagens não são nem um pouco fáceis. Tem muito drama envolvido, muitos acontecimentos duros e cruéis que, infelizmente, deixam claros os acontecimentos da época. 


A todo momento o conceito de liberdade é discutido no livro, o que, inclusive, me fez repensar muito sobre o que de fato essa palavra significa. Não é só sobre ser livre, independente, poder exercer o direito de ir e vir, no final das contas. Cada decisão que tomamos, cada relacionamento que vivemos (ou não), cada caminho que percorremos fazem parte dessa liberdade, e isso fica muito claro pelos olhos de Hiram.

Em determinado momento da história alguns elementos fantásticos são inseridos. Eu fiquei muito impressionada, porque isso foi feito com tanta leveza que eu realmente acreditei que todas aquelas coisas aconteceram/poderiam ter acontecido. E, para mim, esse é o maior triunfo de Ta-Nehisi Coates, fazer o leitor acreditar no poder que o protagonista carrega.

A Dança da Água é um livro sobre o escravo, não simplesmente porque o narrador, Hiram, é um escravo, e sim porque mostra as várias facetas de ser um escravo. Fala muito sobre família e como elas eram desfeitas num piscar de olhos, sobre ter sonhos e ambições mesmo quando tudo dizia que não podiam ter, sobre inúmeras coisas da vida deles que iam além da Tarefa e ser um tarefeiro. 

Enfim... Eu realmente não me lembro de ter tido contato com um livro do gênero realismo fantástico que fosse tão bem construído e, principalmente, que não alterasse tanto e/ou ofendesse o núcleo real da história.

Título Original: The Water Dancer ✦ Autor: Ta-Nehisi Coates
Páginas: 400  Tradução: José Rubens Siqueira ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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14 Comentários

  1. Ana!
    Livros de gênero, ainda mais bem escrito, nos fazem refletir o quanto nossa liberdade é essencial...
    E o pior de tudo é que várias vezes nem nos damos conta do quanto isso é valioso, do quanto isso é importante.
    Leituras como esa nos dão um alerta.
    Deve ser um livro mais que interessante.
    cheirinhos
    Rudy

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  2. Que resenha maravilhosa! Minha primeira assim, tão completa, tão cheia de sentimentos e verdade.
    Não ser um livro sobre escravidão,mas sim de liberdade já mexe com o coração.
    Doida para conhecer a trajetória de Hiram,sua jornada e muito curiosa com esses elementos fantásticos colocados num enredo já tão forte!!!
    Agora preciso desse livro para ontem!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  3. Olá! Fiquei bem interessada com tudo que li, parece ser daquelas leituras que nos fazem refletir e o mais importante sentir, curiosa para saber como esse elemento fantástico é utilizado no enredo e também para saber mais sobre Hiram.

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  4. Lindíssima essa capa azulzinha dessa edição, fico só imaginando o quão linda deve ser a estante com esses livros da Intrínsecos. A premissa do livro é muito interessante e parece ser bem pesado mesmo, com certeza eu ia ficar triste lendo, pois só de ler a resenha já me decepcionei e fiquei com raiva do pai do Hiram.

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  5. Oi, Ana. Cara, que livro incrível! Parece ser aquela história impactante, que marca a gente de alguma forma. Não seria o meu tipo de leitura, dificilmente leria algo assim, mas eu já li alguns livros com tom sóbrios e é bizarro o tanto que a gente se envolve na narrativa, mesmo sofrendo ao longo do livro. Mas é uma leitura bem necessária, então vou deixar na minha wishlist para o futuro.
    Beijo!
    http://www.capitulotreze.com.br/

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  6. Caramba, a gente meio que lê esperando um final feliz. Mas temas assim tão críticos, históricos, a realidade acaba batendo na nossa cara, né? Não é um gênero que eu leio todo mês, mas com certeza vale a pena!

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  7. Oi, Ana
    Já queria muito esse livro, depois de ler sua resenha preciso urgente ler.
    Muito legal o autor da voz a uma pessoa que é escravo e ainda inseriu um pouco de magia na trama. Mesmo que aborde um tema triste, sensível mostra a força de um povo em meio a tanta dor.
    Beijos

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  8. Oi, Ana!
    Realmente é um livro que temos que parar para refletir, pois dar para notar que a autora explorou muito bem a temática proposta no livro. Sem dúvida A Dança da Água é um livro que quero muito ter oportunidade de ler e senti a profundidade de tudo que o Hiram passou.

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  9. Nossa Ana!
    A Dança da Água mexeu mesmo com você não é?
    Tão bom quando o livro nos toca assim, de várias formas, nos transforma, nos faz repensar.
    E o contraste entre o nome do livro e a premissa? A água, livre, dançante e Hiram que vive uma realidade dura e cruel sem liberdade.

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  10. essa é a primeira resenha que leio desse livro e pelo seu parecer revela uma leitura muito triste ,cruel .daquelas estorias que a pessoa le e fica refletindo e refletindo sobre tudo .sobre o que é ser verdadeiramente livre .dica anotada
    otima resenha

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  11. Gostei desse olhar sobre liberdade e escravidão dele. Parece falar dos temas de um modo franco, real, mas também com aquela boa dose de drama. Ver o mundo pelos olhos do personagem, nesses tempos quado se passa e tudo o que tem ao redor dele e na vida dele parece impactar o leitor. Um livro com uma mensagem pra se pensar. Leria. Gostei do jeito dele.

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  12. Oii Ana!
    Eu vi você lendo esse livro em algum lugar! (péssima memoria aqui). Gostei bastante da premissa do livro e do que ele vai abordam, principalmente sobre a questão de uma época que pessoas eram escravas. Acredita que fiquei um tanto incomodada por essa questão que o autor mudou de escravo para tarefeiros, sei lá.. para mim querendo ou não ainda é escravo porque são obrigados a trabalha sem algo em troca. Mas ainda sim a curiosidade em ler estar persistindo aqui.

    Blog: Tempos Literários

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  13. Ai amiga, eu amo livros de ficção que vem e trata desses temas sérios e, para mim, isso é sair muito da zona de conforto. Agora ando vendo várias pessoas falando desse lançamento do intrínsecos e ando bastante curiosa para ler!

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  14. Oi, Ana
    Parece ser um livro muito intenso.
    Com cenas interessantes, e outras muito triste.
    Enfim, bem diferente do que estou acostumada a ler, mas fiquei curiosa e vou tentar lê-lo sim!
    bjs

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