Eu Não Sei Quem Você É | Penny Hancock

Eu Não Sei Quem Você É, da autora Penny Hancock, foi enviado em março aos assinantes da TAG Inéditos. É um livro que aborda temas muito sensíveis, principalmente abuso sexual de menores, o que pode gerar gatilhos em inúmeras pessoas. Dito isto, vamos à trama. Holly e Jules são melhores amigas desde a época da faculdade. Cada uma delas tem um filho: Holly é mãe de Saul, de 16 anos, e Jules é mãe de Saffie, 13 anos. Justamente terem uma ligação muito forte, uma é madrinha do filho da outra, um posto muitíssimo importante porque isso significa confiar a vida do filho a outra pessoa, né?

Porém, a vida delas vira de cabeça para baixo quando Saffie acusa Saul de tê-la estuprado. É a partir desse ponto que a trama começa a se desenrolar de verdade, principalmente porque Holly não acredita na acusação mesmo sendo uma professora universitária que está a frente de um movimento sobre violência contra as mulheres. Isso significa que ela é do tipo que acredita nas palavras da vítima logo de cara... Até, obviamente, o abusador ser o seu filho. 

A narrativa usada por Penny Hancock é bem interessante e é um artifício que funciona, porque alterna o ponto de vista entre as duas personagens principais. Sendo assim, sabemos exatamente o que elas estão sentindo em relação ao problema. Com o passar das páginas, bem aos poucos, vamos descobrindo o que aconteceu entre Saul e Saffie. Uma coisa no desenvolvimento do enredo que me deixou muito desconfortável foi o fato da autora sempre deixar dúvidas sobre quem está falando a verdade. A todo momento ela fazia questão de colocar a palavra de Saffie em prova, seja a partir de uma reação, o modo como ela falava... E porque isso me deixou tão incomodada? Porque em determinado momento da história eu simplesmente acreditei que Saffie estava mentindo e que Saul era inocente. E eu me senti mal, porque, como duvidar da palavra de uma mulher sendo eu mesma uma mulher?

Estaria mentindo se dissesse que, pelo menos em partes, a autora não conseguiu conduzir sua obra. É verdade que a escrita é muito fluida — apesar de ter me irritado bastante com a tradução, que usava "contigo" ao invés de "com você", o que não é muito usual na nossa língua rs — e que queremos solucionar o mistério tanto quanto as personagens... Mas infelizmente achei que Hancock perdeu a mão mais ou menos a partir da metade do livro. Porque pensem comigo... Se Saffie estivesse mentindo, apagaria a voz de milhares de mulheres que foram abusadas sexualmente e desacreditadas, e tudo, tudo na narrativa indicava que a menina estava mentindo. 

E é aí que entra o plot twist, a pior escolha possível para a solução do problema envolvendo Jules, Holly, Saffie e Saul. Obviamente não vou dizer o que é, mas em poucas páginas a autora conseguiu ir contra TUDO o que estava pregando, ou pelo menos contra o que eu achava que ela estava pregando, fica difícil assimilar. O final proposto por Hancock de nada ajuda mulheres reais que terão contato com essa história. Para além disso, achei as próprias protagonistas muito forçadas. Por exemplo, Jules é incapaz de tomar uma decisão sequer sozinha e, para isso, procura ajuda até mesmo de Holly, que, por sua vez, acha que é a única pessoa no mundo que sofre. Tem que ter bastante paciência, viu?

Infelizmente a narrativa fluida não conseguiu apagar o ódio que senti pelo rumo que as coisas tomaram. A autora poderia ter tomado inúmeras decisões que não ofendessem mulheres que já foram vítimas de abuso sexual e mulheres que estão presas em relacionamentos abusivos. Não é um livro que acho necessário, muito pelo contrário, visto que pode trazer visões errôneas sobre assuntos tão sérios e tristes. Para mim, é um livro que errou em diversos pontos, ainda que a proposta fosse acertar e conscientizar.

Título Original: I Thought I Knew You ✦ Autora: Penny Hancock
Tradução: Davi Boaventura ✦ Páginas: 416 ✦ Editora: TAG Experiências Literárias & Dublinense

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13 Comentários

  1. Olá
    Lendo a sua resenha pela segunda vez presumi que a autora não soube conduzir com eficiência o tema a que ela mesma de propôs ao escrever o livro .
    Ou seria propositalmente esse caminho que ela deu para a trama ?
    Curioso é que fiquei me perguntando o que ela queria
    passar com esse livro .eu sei que o ser humano e ardiloso sim tanto homens quanto mulheres.
    Mas se era para falar sobre abuso sexual que muitas mulheres passam ao me ver ela deixou muito a desejar .foi o que senti ao ler a sua resenha

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  2. Escolher abordar temas sensíveis em seus livros coloca uma responsabilidade triplicada pro autor. Tem que se lembrar que diferentes pessoas vão ler e que alguns não vão se incomodar, outros vão questionar e pra outros será um gatilho enorme. Imagino que não seja fácil, então tem que ser com muito, muito cuidado.
    Uma pena que o final foi tão ruim! Nossa, o sentimento que dá, é cruel!

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  3. Ana!
    Que pena!
    Um tema tão importante de ser discutido, a autora conseguiu inverter o real sentido e ainda, pelo jeito, não dando apoio e uma finalização digna para mulheres que passam ou passaram pelo mesmo tipo de abuso.
    cheirinhos
    Rudy

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  4. Que pena. Um enredo assim, tão forte e com um tema necessário demais, tinha tudo para ter funcionado muito bem e sim, ajudado tantas mulheres que passam pela situação diariamente.
    Eu acho que ainda não tinha visto o livro e nem lido sobre ele. Não vou negar que deu vontade ler, ao menos para passar raiva rs
    Pois soou como um total desperdício.
    Infelizmente.
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  5. Olá, Ana

    No começo da sua resenha eu estava louca para ler o livro, já tava correndo pra adicionar na minha lista, depois fui mudando de ideia sem querer ler.
    Mas to curiosa para saber o rumo que a autora tomou! Socorro!
    Achei a capa desse livro bem interessante.

    Beijos

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  6. Hummm bem curiosa pra ler esse livro. Intrigada mais ainda pra saber desse plot que vc nao curtiu e sobre os assuntos que se prega na narrativa.
    Gosto do titulo do livro que ja me deixa bem interessada pra ler sobre.
    Edição da tag é linda!

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  7. Uma premissa tão interessante e tão atual e necessária que não foi bem aproveitada.
    Imagino o tal plot....

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  8. ami, você sabe minha opinião sobre essa história pq sofremos juntas com a desgraça do final kkkkk bjsss
    www.procurei-em-sonhos.com

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  9. Olá Ana Clara!
    Eu não costumo ser muito influenciada pelas resenhas negativas, mas essa me deixou bem triste, justamente pelo tema e pelo rumo que a história toma. Como você bem disse a autora colocar o leitor numa situação muito desconfortável. Pensei que esse fosse um livro daqueles essenciais para a sociedade, mas acho que me enganei.
    Beijos

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  10. Que pena que autora não conseguiu trabalha muito bem nesses assuntos tão importante.
    Beijos!
    https://deliriosdeumaliteraria.blogspot.com/?m=1

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  11. Esse tem um tema pesado né? Nossa, e pelo que ta falando o plot dele é bem hummm...sei não. Aborda um assunto complicado e sensível e pelo visto tem umas ideias meio difíceis aí de conclusão, de como foi levado o assunto principal. É muita coisa pra se falar, que mexe com sentimentos e problemas reais e dá um conflito difícil pra quem tá lendo, isso de não saber se ela ta mentindo, de parecer que tá, de não querer duvidar de uma coisa dessas. Tenho medo de pensar nesse final. Mas acho que seria um livro que levaria fácil na hora de ler, que iria prender bem pela curiosidade.

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  12. Olá! Realmente é uma pena que a autora tenha errado a mão ao abordar um tema tão importante, e por isso, mesmo com todo esse mistério não fiquei empolgada para conferir o livro.

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  13. Oiii,
    Amiga, esse tipos de livros quando leio fico com raiva por ver personagens mulheres sofrendo esses tipos de coisas até porque isso acontece de fato na vida real. Percebo que a premissa parece realmente interessante e que bem provável que se eu fosse ler, ficaria desconfiada de tudo narrado no livro.

    Beijocas:
    Tempos Literários

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