Jogador Número Um & Jogador Número Dois | Ernest Cline

Jogador Número Um é basicamente o livro preferido de qualquer adolescente que gosta de videogames e da cultura pop dos anos 80, e foi justamente isso que me instigou a lê-lo. Estava muito animada, não só porque reconhecia que a história tinha potencial, mas porque a edição da Intrínseca só dava mais vontade de conhecer a obra prima de Ernest Cline. Eu gostei bastante do primeiro volume da duologia, mas esperava um pouquinho mais dada toda a fama que fez com que, inclusive, a trama desse origem a um filme. 

Resumidamente, Jogador Número Um se passa no futuro, no ano 2045. O autor apresenta o mundo real como um lugar terrível para se viver, visto que a maior porcentagem do planeta vive na linha da miséria. Mas existe uma única coisa capaz de dar certo conforto para as pessoas, o OASIS, um game de realidade virtual baseado em uma sociedade. As pessoas criam seus avatares e podem ser e fazer o que quiserem dentro do jogo — obviamente quem tem dinheiro é mais beneficiado. 

Acontece que, pouco depois da sua morte, Halliday, o criador do sistema, deixou em vídeo e em testamento um desafio para qualquer jogador do OASIS: quem encontrasse o Easter Egg que ele deixou em um dos milhares mundos do game, herdaria toda a sua fortuna, inclusive a gestão e controle da empresa. E é aí que entra Wade Watts, um jovem de periferia que passa boa parte do seu tempo nesse universo paralelo. Depois de quase cinco anos que o desafio foi lançado, o garoto conseguiu encontrar uma das três chaves que dariam acesso ao ovo tão cobiçado. 

Depois desse acontecimento, é claro, rola um reboliço enorme e várias outras pessoas conseguem acesso à chave, dando início a uma verdadeira caçada, cheia de acontecimentos e reviravoltas. Isso por si só é uma coisa muito engraçada sobre o livro, já que o início é muito, mas muito lento. Os primeiros 30-40% são muito descritivos, o que pode agradar ou desagradar na mesma proporção. Eu fico num meio termo, gostava de algumas informações, ao passo que achava outras totalmente desnecessárias. Em contrapartida, da metade do livro para o final, a narrativa se torna frenética. As tarefas que os covos — como são chamados os caçadores do Easter Egg — precisam cumprir vão se tornando mais complicadas e, para nós, leitores, mais interessantes de acompanhar. 

Porém, o que mais chama atenção no livro realmente são as referências aos anos 80, e são elas que dão origem às tarefas que os jogadores têm que cumprir. Tem de tudo um pouco: filmes, músicas, cultura... Mas é claro que o que predomina são os games. Nesse sentido, Cline acertou em cheio, porque ele insere essas referências de forma muito natural e divertida. Quem não conhece vai conseguir entender facilmente — e vai ficar com muita vontade de pesquisar depois, rs —, e quem já é familiarizado vai ser tomado por um sentimento de nostalgia gigantesco, o que é muito legal. 

Acredito que existem dois principais motivos para eu não ter me afeiçoado tanto a história. O primeiro foram os personagens, que são muito imaturos. Wade, então, nem se fala. Às vezes ele tomava cada decisão burra que eu não conseguia entender, até porque com 17 anos a gente já sabe uma coisinha ou outra da vida para entender o sistema, né? A segunda, e o que pesou mais, foi o estilo da narrativa de Cline. Para mim não funcionou muito bem justamente por ser muito descritiva e engessada.

Se eu já não tinha curtido muito Jogador Número Um, fica até difícil dizer o que eu senti lendo Jogador Número Dois. A sensação que eu tive foi que Cline simplesmente repetiu a dose, isto é, pegou tudo o que deu certo no primeiro livro e usou no segundo. É exatamente a mesma fórmula: início lento e extremamente descritivo, mil e uma reviravoltas do meio para o final.

No segundo volume da duologia, Wade Watts e seus amigos — Art3mis, Aech e Shoto — que o ajudaram a encontrar o ovo de Halliday em Jogador Número Um já aparecem como donos da empresa que gerencia o OASIS, além de estarem milionários, é claro. Além disso, o OASIS recebeu uma atualização: os usuários agora conseguem usar, de fato, os cinco sentidos no jogo. Mas para isso é preciso conectar o cérebro ao jogo, o que pode trazer consequências irreversíveis para quem aceita a condição. 

A partir daí existem dois acontecimentos principais. Em primeiro lugar, a desavença entre o grupo, visto que Art3mis não concorda com a atualização por causa dos efeitos que ela pode causar ao cérebro a longo prazo, sem constar os riscos de dar merda — o que para mim também era óbvio. Depois, o surgimento de um personagem que consegue tomar o controle do OASIS, o que dá origem a uma nova caçada que, caso não seja cumprida, promete comprometer tanto o mundo virtual quanto o real. E é por isso que eu disse que o segundo livro parece uma cópia do primeiro, mas aqui os personagens conseguem ficar ainda mais chatos. 

O par romântico já não funciona mais, o vilão é muito estereotipado e clichê, não dá para levá-lo a sério. Todas as situações envolvendo esse personagem são tão caricatas que é impossível acreditar que o problema em que os protagonistas estavam envolvidos era realmente sério, que a vida dos usuários do OASIS dependia deles. Além do mais, quando finalmente chega a parte da ação, parece que o autor não conseguiu desenvolver direito. Sabem aqueles livros que se a gente saltar o miolo consegue entender o final sem nenhuma dificuldade? Jogador Número Dois é assim, porque além de tudo tem o desfecho mais previsível do mundo.

O meu veredito é que Jogador Número Dois foi criado unicamente para suprir a necessidade de continuar a história de personagens que fizeram muito sucesso e, consequentemente, teriam potencial de render mais dinheiro, entendem? Continuações desnecessárias que surgem quando um autor percebe que a "receita" deu certo? Isso me faz pensar que, talvez, se fosse analisado de forma isolada, esse volume não seria tão ruim... Mas em comparação com o primeiro — que para mim já não funcionou tanto — é só ladeira abaixo. 

Quanto a Jogador Número Um, acredito funciona muito melhor como filme, porque as cenas ficam muito mais dinâmicas e as referências não deixam de existir. Talvez por isso mesmo tenha feito tanto sucesso e tenha estimulado a continuação. Aliás, acredito que Jogador Número Dois possa funcionar muito bem nas telinhas com alguns ajustes.

Títulos Originais: Ready Player One & Ready Player Two ✦ Autor: Ernest Cline
Páginas: 432 + 416 ✦ Tradução: Giu Alonso & Flora Pinheiro Editora: Intrínseca
Livros recebidos em parceria com a editora

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9 Comentários

  1. Essas duas edições estão um show à parte né? Louca por ambas!!!Mas eu penso, mesmo sem ter lido ainda, que só fizeram Jogador Número 2 para "encher linguiça" rs
    O primeiro já supria muito bem a questão da agilidade do enredo, dos jogos e também isso das referências aos anos 80, em música, vida(a melhor do mundo)
    Com certeza, espero muito ler ambos em breve!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  2. Eu adoro um videogame mas confesso que nao sabia desse livro ate sair a adaptação rsrsrs.
    Vi a adaptação e achei divertido mas n me deu vontade de ler o livro, talvez por nao ler tanta ficção cientifica nao sei.
    A continuação pelo visto ta sendo daquelas bem "nao precisava" pra geral neh. Esses autores....

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  3. Ana!
    Não li, nem assisti a série.
    Desde o início, nunca me interessei muito, porque fala dos games, ainda assim, como tem as referências dos anos 80, fiquei até curiosa.
    Vamos ver...
    cheirinhos
    Rudy

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  4. Universo gamer nunca foi minha praia, nem jogar nem ler sobre...
    Acho muito legal as referências aos anos 80.
    Meio desnecessária essa continuação não é?

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  5. Engraçado que eu sempre digo que prefiro os livros, mas analisando melhor e depois de ler sua resenha, percebi que prefiro ver um filme desse gênero do que ler. Adoro filmes assim, já vi vários nesse modelo, mas a leitura realmente não funciona... Por mais que eu tenha visto ótimas resenhas sobre ele, mas acho que é questão de gosto mesmo, sabe?

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  6. Olá Ana Clara!
    Nunca subestime a capacidade imatura do ser humano rsrs. Eu adorei o primeiro livro, não achei necessidade de uma continuação e já sabendo do final previsível, fiquei meio sem vontade de ler. É inegável que as Edições da Intrínseca estão maravilhosas, vale a pena ter na estante.
    Beijos

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  7. Mesmo tendo essa referência aos anos 80 que eu gosto muito eu não fiquei com vontade de ler essa duologia.
    Concordo com você que enredos assim funciona melhor em filmes do que em livros .

    Ótima resenha !!

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  8. Olá! Confesso que não me lembro muito do filme, e por isso estou até animada parta conferir os livros, mesmo sabendo que esse segundo volume não tenha sido assim tão necessário, essas referências a cultura dos anos 80 é um ponto muito positivo né!

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  9. Amigaa,
    Eu assistir adaptação é amei demais, já que adoro muito de coisas de videogame e coisas futurística. Talvez eu deva gostar desse livro, espero ler em algum momento. Pena que não funcionou para você, acho que nem sempre as leituras vão funcionar né.

    Beijocas:
    Tempos Literários

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