Senhor das Moscas | William Golding

Durante a minha leitura de Senhor das Moscas, em vários momentos eu me perguntei como seria a minha resenha. E começo a escrever ainda incerta sobre isso. Que livro estranho e confuso. Minha relação com essa leitura foi da indiferença à raiva, da confusão à admiração. Felizmente, pude terminar essa leitura sentindo que valeu a pena, mas não foi fácil chegar nessa conclusão.

Eu iniciei a leitura sabendo muito pouco sobre o enredo. Basicamente, eu sabia que era algo sobre crianças numa ilha. E os primeiros capítulos do livro não contribuem muito para situar o leitor. Eu custei a entender o que estava acontecendo, porque a história já começa no meio da ação, sem muito contexto ou introdução. O que nós sabemos é que, num contexto de guerra, um avião caiu numa ilha desabitada e agora um grupo de crianças, todos meninos com idades entre 6 e 12 anos, se encontra sem a supervisão de nenhum adulto em um lugar de sobrevivência incerta.

Durante toda a primeira metade do livro, eu estava totalmente confusa e indiferente. Eu só conseguia ver um grupo de meninos chatos numa ilha. E demorei a me apegar aos personagens, que vão se tornando mais interessantes a medida que perdem a infantilidade (um pouco cruel dizer isso, mas é verdade). Porém, tendo finalizado a leitura, posso afirmar que fui ingênua ao não perceber os sinais sutis que o autor estava me dando de que havia algo mais nessa história desde o início.

Diferentemente da minha opinião comum, de que é melhor iniciar uma leitura sem saber muito sobre a obra, para Senhor das Moscas eu senti falta de um texto introdutório ou de uma apresentação. Eu sinto que teria aproveitado muito mais o livro se eu soubesse de algumas coisas. Portanto, vou tomar a liberdade de mencionar algumas dessas coisas aqui. Dessa forma, se estiver nos seus planos fazer essa leitura, acredito que ela vai ser mais proveitosa.

Primeiramente, sobre o autor: Golding, antes de se aventurar na escrita de romances, era um poeta. Portanto, sua escrita, mesmo na prosa, tem um quê de poesia, especialmente nas descrições da natureza. Golding também lutou na Segunda Guerra Mundial, experiência que certamente lhe deixou traumas e marcas psicológicas, o que também aparece em seu texto.

Mas o que eu mais gostaria de ter conhecimento antes de iniciar essa leitura (será que sou muito desinformada por não saber disso antes?) é que Senhor das Moscas é a tradução do hebraico Belzebu. Sim, o demônio Belzebu. E minha maior dica para quem pretende ler esse livro curto, de cerca de 200 páginas, mas profundo em suas entrelinhas é: pesquise sobre Belzebu, tanto sua origem mitológica, quanto sua representação no cristianismo, sua relação com moscas, trovões, crueldade e gula e os sacrifícios que eram realizados em seu nome. Você certamente vai pegar várias referências ao longo de todo o livro.

Porém, estando eu sem esse conhecimento prévio, preciso dizer que o livro só se tornou interessante lá pela página 110, quando coisas realmente começam a acontecer e a história deixa de ser apenas a rotina dos meninos na ilha. Não que acompanhar essas crianças na ilha tenha sido de todo desinteressante. Afinal, é intrigante acompanhar a dinâmica entre eles, as tentativas de restabelecer a ordem em um ambiente sem civilização e a forma como o clima vai ficando cada vez mais tenso conforme o tempo passa, o cansaço e a fome aumentam e as esperanças de um resgate diminuem.

O leitor, juntamente com os meninos, se questiona: qual a forma mais segura de se manter são? Ceder aos instintos e à selvageria, aceitando a realidade em que eles estão e se adaptando ao que a vida na natureza exige? Ou se esforçar para manter a civilidade e as regras sociais e continuar acreditando que eles serão encontrados? Qual alternativa enlouquece menos? A questão da sanidade mental permeia todo o livro, apesar se eu sentir que na primeira metade faltou um pouco de aprofundamento psicológico, o que melhora na segunda parte da história.

A obra parece realmente ter a intenção de ser um estudo social, onde a principal pergunta a ser respondida é: como se comportam crianças que são colocadas em um ambiente onde a civilização e a civilidade não existem? E confesso que tive momentos de questionar se aquelas crianças não tinham sido colocadas ali propositadamente? É apenas o autor fazendo um estudo social ou, na realidade do livro, um estudo social estava mesmo sendo realizado?

Senhor das Moscas também é um livro sobre a maldade humana, o que é compreensível se pensarmos que foi escrito logo após a Segunda Guerra Mundial por um ex-soldado. Ou seja, as esperanças na humanidade, a crença na bondade humana e o romantismo não estavam em alta.

O livro todo deixa um ponto de interrogação pairando sobre a cabeça do leitor. Página após página, eu ficava me perguntando: "o que eu não estou vendo?" ou "o que eu estou deixando passar?", porque são várias as coisas que não fazem sentido e que, sem as informações certas, eu cheguei a acreditar que eram incongruências e inconsistências na história.

Uma ilha deserta que oferece tantas chances de sobrevivência? Crianças matando porcos selvagens? Frutinhas supostamente comestíveis, mas que nenhum deles nunca viu antes? Qual pode ser o real efeito dessa fruta que eles comem indiscriminadamente? Água doce e fresca para beber? Se o avião caiu, onde estão os destroços? E por que as crianças sentem, o tempo todo, como se estivessem sendo observadas?

Poucos livros clássicos podem ser lidos, compreendidos e apreciados sem um bom texto de apoio. Senhor das Moscas é um exemplo disso. Sem minhas pesquisas adicionais, eu teria achado o livro, no máximo, interessante, mas, com minhas pesquisas, eu o achei incrível. Então, sim, eu acho que a editora poderia ter investido numa boa apresentação, ou até mesmo em algumas notas de rodapé. Isso teria tornado a leitura mais rica e completa.

Sem nenhum texto complementar, a nova edição de Senhor das Moscas é simples. O trabalho gráfico é de qualidade, a diagramação é confortável e eu gostei da tradução, principalmente se levarmos em conta que a escrita poética do autor exige uma boa tradução para que esse aspecto não se perca. Porém, preciso dizer que não gosto dessa capa e prefiro a capa antiga, que também saia pela Alfaguara, mas compreendo o apelo que a capa nova tem.

Com sua primeira metade mais lenta, Senhor das Moscas não foi uma leitura 5 estrelas pra mim, mas me ganhou por seus simbolismos e elementos fantásticos, o que eu não estava esperando. É o tipo de livro que permanece na mente do leitor por muitos dias após o fim da leitura, pra ser analisado, teorizado e revivido. Suas passagens mais grotescas, quando a ingenuidade infantil se perde, dando lugar à insanidade e violência, ainda ecoam na minha mente e sei que irão ecoar por muito tempo. Em poucas palavras, posso resumir esse livro com: memorável, perturbador e mais profundo do que parece.

Título Original: Lord of The Flies ✦ Autor: William Golding
Páginas: 216 ✦ Tradução: Sergio Flaksman ✦ Editora: Alfaguara
Livro recebido em parceria com a editora 

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11 Comentários

  1. Curiosa pra ler esse livro.
    Ele foi um dos que foi referencia pra meninas selvagens também neh, que é outro livro que quero ler.
    Só tenho um receio para talvez cenas de violencia que tenha aí, com animais por exemplo, n sei.

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    1. Fiquei com vontade de ler Meninas Selvagens também. E sobre as cenas de violência: eu não sou muito sensível pra isso, então pra mim foi tranquilo, mas acho que pra quem é mais sensível é mais complicado mesmo. Então te entendo. Obrigada pelo comentário. 🥰

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  2. Esse livro é considerado um dos grandes clássicos, mas acredito que esse certo medo de ler ele,existe na vida de muitos de nós, leitores.
    Eu sempre tive curiosidade,mas não tive coragem até hoje rs
    Penso que meu pouco cérebro não dê conta de tanta complexidade e ao mesmo tempo, é um enredo simples, onde todas as pistas devem estar ali.
    Ainda lerei!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  3. Olá Priscila!
    Posso dizer que sua resenha me deixou curiosa sobre a história do livro, principalmente pelos sentimentos dúbios que ele evoca no leitor. Nunca tinha ouvido falar dele, mas achei a temática interessante. A parte de questionar se tudo não passa de um experimento é muito interessante. Obrigada pelas dicas para compreender melhor a história, acho que elas vão ajudar bastante gente. Não sei se as coisas mudaram muito em relação à bondade humana da Segunda Guerra pra cá, principalmente em tempos de pandemia, mas, como dizem, a esperança é a última que morre.
    Beijos

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  4. Nossa, eu adorei essa capa. Fiquei olhando ela uns bons segundos kkk
    E quantos sentimentos em um livro só! Achei muito interessante esse misto de sensações, mostra que o livro é cheio de surpresas.
    Gosto muito de livros clássicos, acho que ele se encaixaria na minha lista de leitura.

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  5. Oi, gostei da sua resenha. Com certeza é livro que gostaria de ler. Já li Meninas Selvagens não tive uma boa experiência lendo quem sabe esse eu tenha ou também não rs.
    Beijos
    https://deliriosdeumaliteraria.blogspot.com/?m=1

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  6. Sem dúvida uma leitura densa e intensa e acredito que nem todos consigam compreender as minúcias contidas no enredo.
    Quando li sobre a parte do autor, fez mais sentido....afinal ele próprio tinha perdido um pouco de si também

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  7. Olá
    Até me interesso por alguns clássicos mas esse náo chamou minha atenção .nunca tinha ouvido falar sobre esse tipo de tradução .o que será que isso realmente significa ? Por que o autor utiliza esse tipo de tradução?

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  8. Só conhecia o livro de nome, e também não sabia da relação com o Belzebu. Também não sabia que era escrito por um ex soldado.
    Confesso que pela capa não me deu vontade de ler.

    Danielle Medeiros de Souza
    danibsb030501@yahoo.com.br

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  9. Oi, Priscila
    É um livro que faz um tempo que estou pensando em comprar, tenho muita curiosidade para fazer a leitura.
    Obrigada pelas dicas, sobre Belzebu eu já sabia. Mas vou me lembrar das suas pesquisas antes de ler.
    O enredo fez me lembrar um pouco de Revolução dos Bichos só que com mais crueldade.
    Concordo com você que poderia ter uma introdução escrita por alguém que já leu o livro e ter algumas notas de rodapé.
    Beijos

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  10. Olá! Esse livro foi uma das indicações da minha professora de Ética na faculdade, mas ainda não tive aquele insight para iniciar a leitura, eu gosto que a história nos faça refletir ao abordar temas como a maldade humana, que aliás é um assunto muitíssimo atual.

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