A Metade Perdida | Brit Bennett


A Metade Perdida é visceral, inteligente e muito bem escrito, mas não é um livro para todos. E quando falo daqueles que não entenderão toda sua essência, me refiro a brasileiros. Somos acostumados com o racismo "velado" de todos os dias e certamente nos sentimos desconfortáveis com o racismo brutal no estilo Apartheid que permeou os Estados Unidos desde sua colonização e teve o auge nos anos 1960. É fácil conviver com os apelidos dos jogadores de futebol negros, mas compreender um país onde cada um tinha um lugar marcado para sentar é fora da nossa alçada. E são nesses Estados Unidos inóspitos que surge o Black Lives Matter e o romance brilhante de Brit Bennett.

Duas irmãs gêmeas criadas numa cidade que nem existe no mapa decidem fugir dali para sempre anos após o assassinato de seu pai. Amavam a mãe, mas viver em um lugar sem perspectiva que esperava o pior delas era pesado demais para suportar. Com 16 anos, depois de serem obrigadas a abandonar os estudos e tornarem-se empregadas domésticas, decidem sumir para Nova Orleans, sem deixar rastros. E para a alegria dos fofoqueiros da cidade minúscula da Louisiana, conseguem se sair melhor que o esperado e jamais retornam.

Nesse contexto, existe o começo do dilema da narrativa, a separação das gêmeas, Desiree e Stella. É uma informação dada na sinopse, que cria o título do livro, mas que quando acontece parágrafo após parágrafo é brilhante e surpreendentemente triste. Desiree ganha uma vida cheia de todo o caos que uma desafortunada pode ter: casamento infeliz, subemprego e uma filha com a pele escura demais para ter uma vida digna no regime racista dos Estados Unidos. Enquanto isso, Stella foge e aproveita da pele negra claríssima para se disfarçar de branca e ter uma vida feliz, o próprio sonho americano.

Antes que os desavisados se assustem com a expressão “pele escura demais”, preciso avisar que esse é um livro sobre colorismo, o tema mais controverso do racismo, em minha opinião de pessoa negra. Colorismo é uma discriminação baseada no tom de pele, em que comumente pessoas de pele mais escura sofrem mais preconceito e vivem mais às margens da sociedade, enquanto negros mais claros tem mais chance de triunfar.

É no colorismo que todos os desenlaces da trama de estruturam, como a vida pode ser diferente para as filhas de Desiree e Stella. Desiree casa-se com um negro e sua filha é negra, enquanto a gêmea Stella, com o mesmo tom de pele, casa-se com um branco e tem uma filha loiríssima de olhos azuis. Isso é o mínimo que as afastam, já que as condições de vida da família “mais branca” permite que eles sejam mais estruturados financeiramente, garantindo mais poder e direitos acima dos já conquistados pela pele clara.

Durante toda a leitura, espera-se pelo reencontro das gêmeas, mas como tudo na vida, o caminho é a melhor parte até o fim. Tramas paralelas das filhas das gêmeas, a negra Jude e a loira Kennedy, preenchem as páginas e dão ainda mais corpo para compreender como o racismo nos Estados Unidos. Situação grave é triste que não mudou muito de 1968 a 1986, anos em que a narrativa de mães e filhas se desenlaça.

No meio do caminho, temos também reflexões sobre transexualidade, relacionamentos homoafetivos, busca fugaz por autoconhecimento e tentativa de melhorar de vida em um país racista. Definitivamente, um país muito diferente do que a Disney nos vendeu quando éramos crianças, certo?

Essa responsabilidade social de Brit Bennett em trazer um livro tão pesado e mesmo assim com uma escrita elegante, me agradou muito. Ela mesma reconhece nos agradecimentos no final do livro, que é uma história difícil e que seu sucesso com a crítica e vendas foi surpreendente. Talvez A Metade Perdida seja tão bem sucedido quanto é necessário. É um livro sobre amor, racismo, família e tudo mais que cerca um ser humano negro, independente de onde ele tenha nascido. Certamente, quando alguém me perguntar como é ser negro, pedirei que leia A Metade Perdida, pois Brit consegue responder a essa pergunta melhor do que eu conseguiria.

Título Original: The Vanishing Half ✦ Autora: Brit Bennett
Páginas: 336 ✦ Tradução: Thais Britto ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora

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12 Comentários

  1. Realmente, não é pra todos ne? Reconhecer o preconceito é doloroso, incômodo e o qe percebo na sociedade é que muitas vezes é melhor não mexer no que não se vê, no que pode ser jogado para baixo do tapete, infelizmente. Sua resenha está incrível e bem sensível!

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  2. Um livro difícil de ser lido, pelo fato de que mexe com questões importantes necessárias e ainda tabu. Além de ser muito emocionante.
    Só vejo elogios a A Metade Perdida

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  3. Eu já imaginava que enconraria uma resenha única sobre este livro,mas não cheguei nem perto da sensação. Só a última parte da resenha, sobre indicar o livro a alguém que perguntar o que é ser negro, dói na alma, pois por mais que se pense, não dá para imaginar o tamanho da dor, os sentimentos que ser negro é um peso que todos carregam, e nós brancos, fingimos muitas vezes que não é conosco, que é passado, que acabou.
    Mas não, não acabou. Existe, é velado, as vezes não.
    Sei que preciso muito ler e agora para ontem!!!
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

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  4. É livro muito forte, gostei do que a autora quis propor. É um livro que quero muito ler e cada vez que leu uma resenha sempre vejo algum novo que intensifica essa vontade e um livro muito rico.

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  5. É tão interessante o fato de que irmãs criadas da mesma forma podem ter vidas adultas tão diferentes uma da outra. O triste é o fator cor da pele ser um desses motivos, e um bem forte.
    Deve ser um livro forte, daqueles que ao terminar o capitulo o fechamos e paramos para refletir sobre o que lemos.

    Danielle Medeiros de Souza
    danibsb030501@yahoo.com.br

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  6. Gostei bastante da resenha e to bastante curiosa pra ler esse livro, pelos temas e esse tema em especifico de colorismo realmente vejo muita discordancia ate entre os proprios pretos por varias vezes que ja leio sobre.
    Espero conseguir ler esse livro em breve, bastante ansiosa pra conhecer essa historia.

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  7. My!
    Acho bem interessante essa questão do colorismo e do preconceito dentro da própria comunidade de negros e todas as dificuldades que eles passam.
    Deve ser um livro mito informativo e instrutivo.
    cheirinhos
    Rudy

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  8. Olá! Com certeza esse é um livro bastante necessário, a autora traz um enredo para lá de instigante, além de trazer grandes lições, infelizmente o tema não é abordado assim com tanta frequência como deveria, mas precisamos começar por algum lugar né, por isso sem dúvida a leitura é para lá de importante para que todos nós possamos aprender um pouco mais. Parabéns pela resenha!

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  9. Essa resenha foi perfeita... esse livro é um dos livros que sempre que vejo resenha então falando bem ou comentando alguma reflexão que ele traz. Eu adorei a premissa dele.

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  10. Olá
    Até ler a resenha sobre esse livro eu desconhecia o termo colorismo e confesso que preciso conhecer mais sobre.
    Sua resenha ficou incrível completa nem há o que comentar muito . Só aumentou meu desejo de ler esse livro.

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  11. Eu comprei esse livro recentemente só estou esperando chega, tenho o pressentimento que vou amaaaa

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  12. Olá My!
    É verdade, esse é o lado que os EUA tenta esconder a todo custo mas não está conseguindo. Com certeza a história deve ser difícil de ler, por tudo isso que você enfatizou, mas também acho muito necessário pra gente entender que existem nuances do racismo que ainda desconhecemos, e como vamos lutar contra algo que não sabemos bem o que é e como funciona? Sem falar nos outros temas que a obra aborda. Eu já adicionei na lista de leituras.
    Beijos

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