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30 de julho de 2020

O Livro de Líbero | Alfredo Nugent Setubal


O Livro de Líbero foi a primeira obra nacional enviada pelo Clube Intrínsecos. Já fiquei com aquela vontade de ler depois dessa informação, que acho muito importante e sensacional. A vontade só aumentou quando meu amigo João começou a falar super bem dele no Instagram, apontando várias características positivas e sensações que a leitura causou nele. Eu tinha certeza que ia gostar, mas não sabia que a história de uma pessoa tentando se reencontrar mexeria tanto comigo. 

A primeira coisa que vocês precisam saber sobre esse livro é que ele não possui nenhuma reviravolta ou acontecimento marcante, mas isso não faz com que ele seja ruim, obviamente. Através de uma narrativa sensível e poética, Alfredo Nugent Setubal nos apresenta Líbero Perim, uma criatura que teve a vida trilhada pela passagem do Circo Bosendorf em sua cidade natal, Pausado. 

Líbero, que trabalhava no pequeno jornal da cidade, fundado e editado por seu pai, Massimo Perim, estava tão animado que não pensou duas vezes quando foi mandado até o local onde as tendas estavam armadas para garantir uma matéria perfeita para a Gazeta de Pausado. Porém, o que o menino nem imaginava é que além de toda magia e fantasia que o circo naturalmente traz, ele também vivenciaria uma coisa inacreditável na noite do espetáculo: um homem lhe ofereceria o livro da sua vida, um livro onde todo o passado, presente e futuro estaria ali, num simples passar de páginas. 

Pelo enredo, esperava de verdade uma história muito mais fantasiosa, mas fui surpreendida quando me deparei com a jornada de uma pessoa que poderia, na realidade, ser qualquer um de nós. Eu não sei o que eu faria se alguém me oferecesse um livro que contasse a minha história, que mostrasse o que tem por vir, mas confesso que admiro a atitude que Líbero tomou, mesmo que ela tenha arrancado um pedaço dele. 

Uma coisa que eu achei bastante interessante foi o fato do livro não ser narrado pelo protagonista. Isso significa que sabemos como ele é e o que ele se tornou através dos olhos de outros personagens. A primeira parte nos é mostrada por Baltazar, o homem que tomava conta do livro de Líbero. A segunda parte, após os acontecimentos no Circo, é sob a perspectiva de Rubio, um rapaz de passado misterioso que trabalhava com Massimo — e era como um segundo filho para ele — e Líbero na Gazeta de Pausado. Gostei muito desse panorama, mas confesso que gostaria de saber o que Líbero pensava, o que ele estava sentindo de verdade. 

Percebi que o Circo, invés de representar uma entidade mágica e fantástica, esteve presente durante toda a narrativa porque representa o próprio protagonista, que passou a se metamorfosear após aquela fatídica noite em que o livro foi oferecido à ele. Líbero teve todo o seu futuro transformado por uma noite, não por causa do que estava escrito no livro, mas por causa de uma decisão que tomou. No fim das contas, O Livro de Líbero é uma grande metáfora sobre sermos responsáveis por traçar nosso próprio destino.

Achei a escrita de Alfredo Nugent Setubal muito diferente de tudo o que eu já li. Sabe quando uma pessoa mais velha, bem vivida, senta e resolve contar uma história para gente, querendo trazer reflexões a partir dos fatos narrados? Pois bem, é exatamente isso — tanto que, juro para vocês, me assustei muito ao descobrir que o autor é só um pouquinho mais velho que eu. Fiquei bastante pensativa com o passar dos capítulos, principalmente porque fala muito sobre pensarmos muito no futuro e, ao mesmo tempo, sermos muito apegados ao passado. 

Eu amei muito essa história, mas apesar de tudo, não acho que O Livro de Líbero seja do tipo que agrade todo e qualquer leitor, infelizmente. Como eu já disse antes, quem gosta de livros cheios de ação e reviravoltas não encontrará aqui um porto. Ainda assim, acho que a narrativa tem um certo quê de mistério que acaba prendendo o leitor, seja para sabermos o que aconteceu com Líbero, aquela curiosidade insistente sobre o passado de Rubio... Mas enfim, acredito que o ponto alto da trama criada por Setubal está realmente nas reflexões sobre essa grande tenda de espetáculos que é a vida humana.

Título Original: O Livro de Líbero ✦ Autor: Alfredo Nugent Setubal
Páginas: 256 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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28 de julho de 2020

A Odisseia de Hakim: Da Síria à Turquia | Fabien Toulmé


O quadrinista francês Fabien Toulmé é fortemente conhecido por duas obras, Não Era Você que Eu Esperava e Duas Vidas. Dessa vez, ele nos presenteou com a história de Hakim, um jovem sírio que se viu obrigado a abandonar seu país de origem para sobreviver. Para se tornar um refugiado, Hakim teve que deixar tudo para trás, inclusive a família e os amigos.

Parece estranho, mas em entrevista para o site da Editions Delcourt, Toulmé conta que o desejo de escrever um livro contando a história de um refugiado sírio surgiu de outra catástrofe, "a tragédia da Germanwings, em 2015, quando um piloto atirou o seu avião, e todos os passageiros a bordo, contra uma montanha nos Alpes Franceses para cometer suicídio". Ele ficou muito comovido, mas ao mesmo tempo percebeu que os jornais não falavam abertamente sobre as centenas de outras mortes no Mediterrâneo: os imigrantes que diariamente morriam afogados tentando encontrar um lugar mais seguro eram tratados como problema pela mídia.


A Odisseia de Hakim: Da Síria à Turquia é o primeiro volume da trilogia em que Hakim dá seu relato, através dos olhos de Fabien Toulmé. Nessa parte em específico, ele nos conta principalmente sobre os horrores de uma guerra que pouco é mostrada para nós: os protestos de uma população cansada do regime ditatorial imposto pela família al-Assad desde a década de 70, o regime que reagiu aos protestos pacíficos de forma violenta, a resposta em forma de mais protestos que pediam unicamente reformas no governo para que houvesse mais democracia e melhores condições de vida... 

Obviamente todos esses acontecimentos refletiram diretamente na vida de Hakim, que perdeu seu negócio e foi torturado unicamente por estar no lugar errado, na hora errada. Só depois de passar um período preso que resolve abandonar o país em busca de segurança e de condições melhores. Os fatos narrados por Hakim são muito comoventes, porque podem ser a história de qualquer outra pessoa, ou o início da história de qualquer outra pessoa que, no fim das contas, não teve tanta sorte quanto ele.

Sempre que leio sobre a Guerra Civil na Síria me lembro da história Bana Alabed, uma criança que foi obrigada a deixar seu lar, em Alepo. Sua casa chegou a ser bombardeada, mas graças a Deus ninguém se machucou e atualmente toda a família está sem segurança na Turquia. Citei isso, porque lembro de falar que "a gente realmente não tem um pingo de noção do que é perder tudo e continuar lutando", e também tive esse mesmo sentimento lendo A Odisseia de Hakim.

Histórias envolvendo guerras sempre mexem muito comigo, mas quadrinhos, justamente pelo fato de terem ilustrações, sempre me deixam mais abalada, porque a gente literalmente enxerga as coisas como elas foram. Nesse sentido, os traços de Fabien Toulmé fizeram sua parte de forma magistral. Não vejo a hora de ler o restante do relato de Hakim, que continuará em mais dois volumes: Da Turquia à Grécia e Da Macedônia à França, país onde reside atualmente com a esposa e os filhos.

Título Original: L'Odyssée d'Hakim: De la Syrie à la Turquie ✦ Autor: Fabien Toulmé
Páginas: 272 ✦ Tradução: Fernando Scheibe ✦ Editora: Nemo
Livro recebido em parceria com a editora
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26 de julho de 2020

Codinome Villanelle | Luke Jennings


Em Codinome Villanelle conhecemos Villanelle (nascida Oxana Vorontsova), uma psicopata assassina de aluguel, e Eve Polastri, uma ex-agente do serviço secreto inglês que agora foi contratada por uma agência de segurança nacional para identificar a assassina e aqueles que a contratam e capturá-los.

Ao ler a sinopse do livro, eu fiquei muito empolgada e louca para conhecer essa história, que imaginei que seria um suspense incrível, totalmente vira páginas. Mas minha primeira decepção foi descobrir que o livro é dividido em apenas quatro capítulos, o que acabou deixando a narrativa um pouco lenta para mim. Além disso, Luke Jennings tinha todos os elementos para criar uma narrativa envolvente, mas a forma como ele resolveu descrever o que estava acontecendo e o foco que ele escolheu para a história frustraram o potencial que ela tinha.

Villanelle é uma mulher inteligente e fascinante, seu passado também foi bem construído, mas descrito de uma forma um tanto maçante. Sem contar que a protagonista aparentemente tem que se relacionar sexualmente com praticamente qualquer personagem que cruze seu caminho, e isso foi o que mais me decepcionou no livro. As cenas da relação entre a psicopata e qualquer que fosse o personagem da vez foram descritas com mais detalhes do que as cenas em que ela está cometendo um assassinato, por exemplo.

Eve também é muito inteligente e ao longo do livro se torna cada vez mais obcecada por encontrar a assassina responsável por tantos crimes. O problema da história de Eve, ao contrário de Villanelle, é a falta de detalhes. Senti falta de um maior desenvolvimento da personagem ao longo das páginas, pois a princípio imaginei que ela coestrelaria a narrativa, mas ao meu ver ela se quase se encaixa no papel de personagem secundária.

Apesar de ter sentido falta do suspense, do mistério da história, o último quarto do livro conseguiu acender uma pequena faísca de curiosidade em mim, pois essa narrativa se encerra no que parece ser uma espécie de clímax. Basicamente, a história acaba onde eu achei que ela iria começar (rindo de nervoso).

A série Killing Eve, estrelada por Jodie Comer (Villanelle) e Sandra Oh (Eve), foi baseada nessa história. Eu já assisti ao primeiro episódio e de cara percebi que mudaram algumas coisas, o que não é algo ruim. Até agora, todas as pessoas que conheço que já leram o livro e assistiram a adaptação gostaram mais da série e acredito que não serei exceção.

Codinome Villanelle é o primeiro livro de uma trilogia e, ao que parece, é apenas uma preparação para os próximos livros. Ainda darei uma chance a essa história, já que o final me deixou um pouco curiosa, mas sem grandes expectativas (o que foi o meu maior erro ao ler o primeiro).
 
Título Original: Codename Villanelle ✦ Autor: Luke Jennings
Páginas: 216 ✦ Tradução: Leonardo Alves ✦ Editora: Suma
Livro recebido em parceria com a editora
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23 de julho de 2020

Meus Livros Preferidos da Editora Seguinte


A Companhia das Letras está presente no mercado editorial sob a forma de vários selos, o que inclui a Seguinte, cujo foco são publicações voltadas para o público juvenil. Como meu gênero literário preferido é jovem adulto — mais conhecido como YA no nosso Universo —, leio vários livros da editora, por isso tenho propriedade para indicar os melhores, na minha opinião, para vocês. 


Seria simplesmente impossível começar essa lista com outros livros que não fossem Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo e A Lógica Inexplicável da Minha Vida, do autor Benjamin Alire Sáenz. Até hoje não consigo superar tantos personagens incríveis, as narrativas maravilhosas, a sensibilidade do autor ao retratar temas importantes para qualquer adolescente... Indico esses dois livros sempre que posso, então eles não deixariam de compor essa lista em hipótese alguma. 


Coração de Tinta, na minha opinião, tem um dos mais bem construídos universos imaginários da literatura, principalmente porque fala sobre uma coisa que nós amamos, os livros. A narrativa é tão suave que nem parece que a gente está lendo um livro de quase 500 páginas com um enredo tão minucioso. Ainda não consegui ler o restante da trilogia, intitulada Mundo de Tinta, mas aposto que os próximos volumes também são incríveis. 


Gosto imensamente de O Reino de Zália por dois motivos. Em primeiro lugar, o enredo é digno daqueles filmes de princesa que passam na Sessão da Tarde que a gente tanto ama. Depois, há muitas discussões sobre política, de uma forma bem clara, interessante e leve, o que é incrível levando em conta o público alvo do livro, né? 


Do fundo do meu coração, nunca li um livro da Sarah Dessen que fosse ruim. Minha relação com a autora começou com Só Escute, um dos primeiros dramas adolescentes que li na vida que tratavam de abuso sexual. Depois de ler Os Bons Segredos, eu mesma intitulei essa mulher como Rainha do YA, e só minha opinião que importa. 


A Melodia Feroz é T-U-D-O para mim, vocês não têm noção. Gostei principalmente de não ter um romance propriamente dito, o que pra mim só prova que não é preciso envolver dois personagens romanticamente para uma obra ser incrível. Além do mais, mostra como a violência tem consequências terríveis, uma metáfora perfeita para o mundo em que vivemos. Ah, o livro tem uma continuação, O Dueto Sombrio, mas fiquei tão PUTA com o final que não coloquei ele aqui só de birra (mas sim, é muito bom também).


Confesso que o que me vendeu esse livro foi o título poético: Juntos Somos Eternos. Mas eu me apaixonei completamente por tudo o que tem nele... A narrativa, os personagens, a forma como os protagonistas usam a união e o amor que sentem uns pelos outros para driblar os problemas, sabem? É uma história muito sensível e tem um plot twist maravilhoso, emocionante, digno. 


Contrariando a maior parte da blogosfera de meados de 2014, não morro de amores por Cartas de Amor aos Mortos. Achei a narrativa meio morna, para ser sincera. Mas Aos Dezessete Anos, minha gente, além de tratar sobre um tema atual e importante, o racismo, tem uma característica que me deixa de joelhos: narrativa melancólica. Esse livro está no hall de histórias que devem ser contadas não só por sua grandiosidade, mas por causa da lição que passa. 

Ficaram interessados nos livros? Adquiram através dos links abaixo e ajudem o Roendo Livros a crescer! Ah, e não deixem de comentar se já leram algum deles e qual o livro da Editora Seguinte que vocês mais gostam!

20 de julho de 2020

Ponti | Sharlene Teo


Ambientado em Cingapura, Ponti é narrado sob o ponto de vista de três personagens em três épocas distintas. Na década de 70, acompanhamos Amisa, uma jovem que resolve sair de casa em busca de um futuro melhor. Em determinado momento, a personagem encontra um diretor de cinema que tem um papel perfeito para ela: uma pontianak, demônio que atrai homens com sua beleza e se alimenta do sangue deles. Em 2003, temos Szu, uma adolescente de 16 anos cheia de conflitos internos e que não tem um único amigo. Por último, em 2020, somos apresentados à Circe, uma mulher que odeia seu trabalho e que acabou de passar por um divórcio conturbado.

A primeira pergunta que vocês devem estar se fazendo é qual a relação entre essas três protagonistas, certo?. Szu é filha de Amisa, e Circe é a primeira e única amiga de Szu. Para entendermos o porquê de Szu não fazer mais parte da vida de Circe em 2020, precisamos entender o que aconteceu em 2003, quando elas eram apenas adolescentes. Para entender o porquê de Szu ter uma relação tão conturbada com a mãe, foi necessário conhecer a história dela, na década de 70. Amisa rejeita Szu puramente porque sua carreira foi rejeitada: seus filmes de baixo orçamento, Ponti 1, 2 e 3, fracassaram e só receberam certo reconhecimento anos depois, quando se tornaram uma referência cult. A história fecha seu cerco quando Ponti está prestes a ganhar um remake e Circe fica responsável pela divulgação do novo filme. E é assim que a vida delas está interligada. 

Meus sentimentos em relação à Ponti foram um tanto confusos e conflitantes. Comecei gostando bastante, porque a narrativa de Sharlene Teo é realmente muito boa e as protagonistas são tão intrigantes — principalmente Amisa — que a gente sente aquela vontade de saber mais sobre elas e tal. Porém, quando cheguei mais ou menos metade do livro, comecei a me questionar aonde a autora queria chegar com a história, porque até então nada tinha acontecido. Ok, as três personagens têm essa ligação, mas em momento algum existe um ponto que as conecta de verdade. Não tem nenhum ponto alto, não tem aquela reviravolta que mexe com a gente... É só uma história sobre três pessoas que se conhecem, que se mantém morna do início ao fim. 

Acho que assim como a maioria dos leitores, eu fiquei o tempo todo esperando por um segredo que conseguisse justificar o enredo, mas ele simplesmente não existe. Fiquei esperando uma grande revelação sobre qualquer uma das personagens, mas ela não veio. Então, apesar da narrativa que envolve, Ponti não leva a lugar nenhum. Não consegui enxergar um sentido para tudo aquilo que Sharlene Teo expôs. Existe uma trama, toda essa coisa das relações, mas ela não se sustenta e é justamente isso que frustra.

Para ser sincera, o que me deixa mais triste é saber que o potencial de Sharlene Teo foi desperdiçado com um livro mal desenvolvido. E é exatamente por saber desse potencial que com certeza leria outra obra da autora. Mas Ponti... Não sei... É bem difícil e estranho articular sobre um livro bem escrito, mas que fala, fala, fala e não fala nada.

Título Original: Ponti ✦ Autora: Sharlene Teo
Páginas: 272 ✦ Tradução: Alessandra Esteche ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com a editora
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17 de julho de 2020

A Guerra que Salvou a Minha Vida | Kimberly Brubaker Bradley


A Guerra que Salvou Minha Vida é um dos livros mais bem avaliados da editora DarkSide Books. Fiquei muito curiosa porque todas as pessoas que eu conheço que leram gostaram muito. A história tem como pano de fundo o início da Segunda Guerra Mundial, quando os bombardeios de Hitler eram apenas rumores em Londres, mas ainda assim deixavam a população alarmada. Mas antes de dizer o que acontece com a protagonista nesse cenário, preciso apresentá-la a vocês. 

A narradora e protagonista, Ada, é uma menininha de aproximadamente dez anos que nunca saiu do apartamento onde vive. Fica horas e horas do dia olhando a vida pela janela, incluindo seu irmãozinho Jamie, que tem permissão para brincar lá fora. Acontece que Ada nasceu com o pezinho torto e sua mãe abusiva não permite que ela saia de casa, porque não quer que ninguém descubra que ela tem uma filha aleijada. 

Assim, com os possíveis bombardeios de Hitler, as crianças começaram a ser evacuadas, mas como Ada não frequentava a escola, ficaria de fora da lista. Pior do que isso, levariam Jamie, o que significa que ela ficaria sozinha com a mãe que tanto a maltratava. Ao pensar nisso, Ada decide tentar a sorte e foge com Jamie no dia da evacuação e os dois embarcam para o interior junto a milhares de crianças que também procuravam um lugar seguro. É assim que os dois conhecem Susan, uma moça que está passando por um período difícil, que se vê obrigada a dar lar temporário para as crianças, mas acaba se afeiçoando a elas. 

Eu amo livros narrados por crianças, principalmente quando relatam momentos de tensão: elas são tão sinceras e inocentes ao descrever os acontecimentos que a história, apesar de triste, ganha um tom mais leve. É irônico pensar que uma Guerra tão cruel poderia ser a salvação de uma pessoa, mas é realmente isso o que acontece aqui. Ada e Jamie viviam num ambiente hostil e eram constantemente maltratados pela Mãe. Se Jamie sofria, Ada sofria cinquenta vezes mais unicamente por ter nascido com o pé torto — o ódio que eu sinto por essa mãe se multiplica só de pensar que uma simples cirurgia quando Ada ainda era criança resolveria o problema, mas ela preferiu negligenciar a própria filha —, então sair das garras dessa pessoa tão cruel e desprovida de amor foi uma bênção para esses meninos. 

Ada é uma protagonista extraordinária e encantadora. Imaginem só vocês a cabeça de uma criança que nunca recebeu uma demonstração de afeto da pessoa que mais deveria se importar com ela. Imaginem crescer se sentindo errada, diferente das outras crianças, com medo do julgamento da sociedade. A melhor palavra para descrevê-la é desconfiada. Mesmo depois de chegar a um lugar confortável, com uma pessoa amargurada, mas disposta a ajudá-la, Ada permaneceu arredia. Ao mesmo tempo que isso me deixou triste, seria mentira se dissesse que não senti nem um pouquinho de raiva da personagem em alguns momentos. Ela finalmente tinha o que queria, um lar, amor, atenção, e não conseguia ser grata. E esse sentimento me deixava ainda mais triste, porque conscientemente eu sabia que não era culpa dela, porque ela cresceu acreditando que não merecia coisas boas.

Para mim, o ponto alto do livro é o desenvolvimento de Ada. Por exemplo, Jamie, apesar de viver aterrorizado, foi mais fácil de conquistar. Então foi muito bonito acompanhar a forma como Susan lidava com os dois, mas principalmente com a menina, que, no fundo, morria de medo de amar e ser negligenciada novamente. Susan também tem uma história emocionante, já que perdeu uma pessoa muito importante e não conseguia superar o luto. Justamente por estar vivendo um período depressivo tão grande, acreditava que não conseguiria cuidar de duas crianças, mas acabou encontrando nelas um refúgio, uma cura para o seu coração. 

Vale lembrar que é A Guerra que Salvou Minha Vida um livro voltando para o público infantil, narrado por uma criança, então a linguagem é muito simples e direta, bastante infantil, exatamente como os pensamentos de uma criança de dez anos devem ser. Particularmente gosto muito desse estilo de narrativa, mas reconheço que pode incomodar algumas pessoas. É um livro muito bonito e tocante, mas principalmente sincero. Na minha opinião, só tem um defeito: o final é corrido demais, quase ilusório. Mas fico feliz em saber que existe uma continuação, A Guerra Que Me Ensinou a Viver, que promete entregar uma história tão linda quanto a contida no primeiro volume.

Título Original: The War That Saved My Life ✦ Autora: Kimberly Brubaker Bradley
Páginas: 240 ✦ Tradução: Mariana Serpa Vollmer ✦ Editora: DarkSide Books