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29 de junho de 2026

É Tempo de Morangos, de Bruna Martiolli: um livro sobre como a literatura atravessa nossas vidas

Já faz algum tempo que acompanho a Bruna Martiolli no Instagram. A forma apaixonada como ela fala de literatura e, principalmente, de Clarice Lispector, sempre me encantou. Enquanto para muitos a literatura pertence aos excluídos e introvertidos, a Bruna sempre fez parecer que literatura é a coisa mais descolada que existe. Quando soube que ela lançaria um livro, fiquei imediatamente interessada. Ouvir a Bruna falar é um deleite, sua bagagem literária é enorme e eu fiquei curiosa sobre o que ela ainda tinha a nos contar, dessa vez de forma escrita.

É Tempo de Morangos é principalmente sobre a Bruna. Mas também é principalmente sobre livros. É sobre como os livros atravessam a Bruna e sobre como a Bruna caminha pelos livros. Ao longo dos capítulos, Bruna revela detalhes íntimos e sensíveis sobre sua vida pessoal, sua família, seus relacionamentos, seus valores e seus pensamentos. E, enquanto isso, entrelaça a sua história com as histórias dos livros que leu.

Terei sempre de ir eu porque há um impulso em mim que não cessa, um movimento que não aceita permanência por conveniência, que não compactua com o conformismo de conhecido no sofrimento.

Em uma narrativa fluida e agradável, Bruna cita livros e mais livros de forma muito natural, apresentando ao leitor o que cada livro lhe ensinou, ou em que momento de sua vida certo livro foi importante. Bruna conta sobre seu ensino médio enquanto fala sobre A Hora da Estrela, conta sobre sua mudança para Portugal enquanto cita Fernando Pessoa, conta sobre a faculdade e sobre sua formação enquanto relembra Capitães de Areia.

Invejo Caeiro por viver o presente e aceitar o que é visível, por rejeitar a ansiedade de querer saber o que vem depois ou o que se passa na vida dos outros.

É nítido que os livros são parte essencial da vida da Bruna e não só isso: é nítido também a clareza e a consciência que ela tem sobre isso. Ela consegue dizer com aparente facilidade o que cada livro ou autor lhe ensinou, como se fosse capaz de tirar algo profundo e significativo de cada leitura que faz.

Ao longo da leitura, me senti conversando com uma amiga, ouvindo-a me contar sobre sua vida numa conversa às vezes divertida, às vezes melancólica. Os trechos em que Bruna menciona a avó foram especialmente emocionantes para mim. Mas cabe mencionar também a relação linda que a Bruna tem com o pai. Relação essa que eu já admirava pelo Instagram e só passei a admirar ainda mais com a leitura do seu livro.

A cultura brasileira é um banquete infinito, impossível de se consumir de uma vez. Ela se multiplica a cada leitura, em cada sala de aula, em cada aluno, em cada gesto de quem insiste em ensinar, apesar de todas as dificuldades. A poesia é nosso alimento e nossa sobrevivência.

O interessante dessa leitura é que a Bruna põe tanto de si e é tão transparente que eu consegui, inclusive, identificar pontos em que eu discordo dela. Alguns de nossos pensamentos e formas de ver a vida são completamente opostas e, mesmo assim, eu a compreendo e respeito da mesma forma que compreendo e respeito uma amiga que não pensa como eu em tudo.

Tirei muitas boas lições dessa leitura, mas talvez a principal delas seja sobre a forma como a Bruna vê o envelhecimento. Eu sempre fui do time que tem medo de envelhecer e a visão da Bruna sobre o envelhecimento me fez repensar muitas certezas que eu tinha. Certamente é um ponto de vista que eu vou elaborar dentro de mim e refletir por bastante tempo.

Se tenho algo a oferecer ao mundo, é isto: uma vida entre palavras e a certeza de que há maturidades infinitamente mais libertadoras do que qualquer juventude idealizada.

É Tempo de Morangos pode ser uma leitura muito rápida, principalmente porque a Bruna escreve de forma muito agradável e é fácil passar várias páginas sem nem perceber. Mas minha experiência foi diferente: essa leitura me acompanhou ao longo de uma semana. Uma semana bem difícil, diga-se de passagem. Li um pouco todas as noites, com uma caneta em mãos, marcando minhas passagens preferidas e anotando indicações de livros. Terminei a leitura me sentindo genuinamente feliz e com uma enorme lista de livros que quero ler.

Literatura não é mero escapismo, nem entretenimento barato, mas também não deve ser enclausurada entre os muros acadêmicos. Ela vive no entre. Pode ser prazer, pode ser reflexão, pode ser denúncia, ou tudo isso junto.

Autora: Bruna Martiolli ✦ Páginas: 192 ✦ Editora: Intrínseca
Livro recebido em parceria com editora
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