Jennette McCurdy já se tornou uma autora cercada por expectativa. Depois da repercussão de Estou Feliz que Minha Mãe Morreu, seu livro autobiográfico que chamou atenção pelo título provocador, ficou claro que ela não busca escrever histórias confortáveis. Por isso, ao iniciar a leitura de seu novo livro, Metade da Idade Dele, eu já esperava uma experiência incômoda e chocante.
O próprio título já carrega provocação. Metade da Idade Dele sugere imediatamente uma relação marcada por desigualdade de idade, poder e maturidade, uma história sobre pedofilia. É um tema delicado, apesar de já bastante explorado em diferentes obras, de diferentes formatos, então comecei a leitura curiosa para entender o que Jennette traria de novo para essa discussão.
Não é meu primeiro contato com narrativas desse tipo. Já li Lolita, talvez a obra mais famosa quando se fala sobre esse assunto, e também Minha Sombria Vanessa, que atualiza essa discussão para tempos mais recentes. Em comum, essas histórias costumam explorar manipulação emocional, vulnerabilidade e a falsa sensação de consentimento. Por isso, meu interesse aqui estava em descobrir se haveria uma nova perspectiva, algo que ainda não tivesse sido explorado (o que é difícil, se levarmos em consideração a quantidade de histórias que já explorou esse tema, entre livros, filmes, séries, músicas e novelas).
Desde as primeiras páginas, Jennette mostra que continua fiel ao estilo direto e provocador. O livro abre com uma cena bem explícita e já mostra que não vai usar meias palavras, nem tentar amenizar o impacto de nada. A linguagem é franca e a autora parece determinada a colocar o leitor em territórios moralmente desconfortáveis.
A protagonista, Waldo, tem 17 anos e desenvolve um inexplicável interesse pelo seu novo professor. Inexplicável porque Korgy não é bonito ou atraente, além de ser muito mais velho, casado e pai de família. Bem distante da imagem idealizada de um galã. A atração dela não parece nascer de um encanto superficial ou estético, mas do reconhecimento de fragilidades. Ela o percebe como alguém quebrado, assim como também se sente. Waldo enxerga nele alguém que vai conseguir entendê-la.
Ao longo da narrativa, conhecemos melhor essa adolescente. O pai é ausente, a mãe vive relacionamentos conturbados, a situação financeira da família é instável e ela tenta aliviar vazios emocionais por meio de compras compulsivas. Esses elementos ajudam a construir uma personagem marcada por carência, impulsividade e busca constante por pertencimento. Ou seja, a vítima ideal de um pedófilo.
Um dos pontos centrais do livro, e também algo recorrente em obras dessa temática, é a ambiguidade. Em vários momentos, parece que é a jovem quem conduz a aproximação, quem insiste e quem de fato deseja ultrapassar os limites. O adulto, por sua vez, verbaliza que aquilo seria inadequado, mas ainda assim permanece envolvido na dinâmica. Nesse sentido, Metade da Idade Dele não traz, necessariamente, nada de novo, já que muitos dos livros sobre pedofilia são assim: traduzindo bem a manipulação sútil e quase imperceptível que acontece nesses casos. Um jeito do homem poder dizer: "Mas foi ela que quis, que insistiu, que provocou". Waldo tem uma personalidade forte, provocadora e com forte apelo sexual. O que contribui para a narrativa de que foi ela que escolheu isso.
Esse tipo de construção torna o debate complexo, porque pode gerar a impressão equivocada de que a responsabilidade seria dividida. No entanto, quando existe diferença clara de idade, maturidade e posição de autoridade, a responsabilidade ética continua sendo do adulto. Afinal, aos 17 anos o cérebro humano nem sequer terminou de se formar.
Apesar de ser provocador e abordar um tema espinhoso com franqueza, Metade da Idade Dele não me apresentou algo realmente novo em relação a outras obras que já exploraram esse mesmo conflito. A dinâmica da adolescente vulnerável e do adulto que falha em ocupar seu papel responsável já apareceu diversas vezes na literatura. Todo o roteiro se repete aqui: ele dizendo pra ela que ela é muito madura pra idade dela e blá-blá-blá.
Foi uma leitura super rápida, dinâmica e fluida. A Jannette escreve de forma muito direta, sem floreios e o livro é curto. Facilmente, uma leitura que dá pra fazer de uma vez só, em poucas horas. Eu gostei muito do livro, ainda que, como eu disse anteriormente, ele não tenha me apresentado nada de novo dentro desse assunto. Mas eu fiquei envolvida e curiosa pra saber o final, passando as páginas rapidamente.
A história me intrigou por completo. Eu queria saber não só o que aconteceria com Waldo e Korgy, mas também o que aconteceria com a mãe e com a amiga de Waldo e com a esposa do Korgy. E eu gostei de tudo, do começo ao fim. Devorei o livro e, quando terminei, imediatamente senti falta da Waldo. Se tivesse uma sequência eu leria com certeza. No fim, eu percebi que esse não é um livro sobre pedofilia, mas um livro sobre solidão. E sobre todas as vulnerabilidades de uma pessoa solitária.
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