Um Amor de Despedida, da escritora sul-coreana Seo Eun-chae, é uma leitura rápida, fluida e envolvente, daquelas que podem ser concluídas em um ou dois dias. A narrativa é dinâmica, construída com muitos diálogos e capítulos curtos que alternam passado e presente e mudam de ponto de vista e de estilo narrativo, o que imprime movimento à trama e mantém a curiosidade ativa do começo ao fim.
A narrativa de Um Amor de Despedida não se detém em descrições de cenários, nem se aprofunda em sentimentos, intenções ou na construção psicológica dos personagens. Em vez disso, o livro acompanha e descreve os acontecimentos de forma mais direta e objetiva. Essa característica parece ser algo comum em livros sul-coreanos. Ao menos foi o que notei naqueles que eu já tive contato: narrativas mais contidas, menos voltadas para longas elaborações internas e mais centradas no desenrolar dos fatos. E é no desenrolar dos fatos, em si, que a gente conhece os personagens. Não pelos seus sentimentos, mas pelos seus comportamentos. Não por seus pensamentos, mas por suas escolhas.
Essa escolha sempre me causa uma sensação de superficialidade inicialmente, especialmente porque eu tendo a preferir narrativas mais densas e introspectivas. Ao mesmo tempo, essa objetividade contribui para o ritmo ágil do livro. E, de qualquer forma, aos poucos e com o passar das páginas, eu fui conseguindo me conectar aos personagens, compreendendo suas emoções e motivações.
Especialmente a protagonista, Heewan, despertou em mim empatia e compreensão. Ela se culpa pela morte do amigo de infância, que faleceu em um acidente de carro tentando salvá-la. A mãe do menino a culpou na época e ela absorveu essa responsabilidade e carregou essa culpa para a vida adulta.
Até que, num dia qualquer, seu amigo reaparece, mais velho, como se nunca tivesse morrido, mas continuasse vivo e vivendo uma vida normal, envelhecendo normalmente. A partir daí, a história segue por caminhos intrigantes e inesperados e conseguiu me manter curiosa e engajada por boas páginas.
No entanto, Um Amor de Despedida parece vários livros em um. Na verdade, vários retalhos. A história da Heewan e seu amigo, Ramwoo, vai até cerca de 30% do livro. Depois disso, o livro alterna pontos de vista, volta ao passado, contextualiza outras coisas e se aprofunda em outros personagens. Conhecemos, por exemplo, a história da mãe do Ramwoo e eu confesso que esses paralelos não foram tão interessantes pra mim. Eu ficava me perguntando qual era a utilidade de estarmos conhecendo mais profundamente esses outros personagens. Não que não tenha sido interessante. Até foi, mas um interessante sem propósito.
Uma das coisas que mais me chamou atenção no livro foi a forma como ele é narrado no início (quando estamos no ponto de vista da Heewan). A narrativa é em primeira pessoa, mas a protagonista/narradora se refere ao seu amigo, Ramwoo, como "você", como se todo o livro fosse escrito para ele, direcionado para ele. Isso, na minha opinião, deixou a narrativa muito mais melancólica e poética.
Você foi atropelado. Tentando me salvar. Ao chegar ao hospital pálida que nem um fantasma, sua mãe não quis nem olhar na minha cara. Não pude ver você. Voltei para casa. Para a casa onde você não estava mais. Era tarde da noite, e eu ouvi soluços vindo da sala. Prendendo a respiração, me recostei à porta para escutar.
Esse modo de narrar produz um efeito emocional bem particular. Embora a narrativa seja objetiva, o uso do “você” traz muita proximidade afetiva. Há algo de confessional, parecendo uma carta. Eu, que amo romances epistolares, tão escassos hoje em dia, fiquei genuinamente encantada com essa narrativa. Esse recurso me parece especialmente interessante porque aproxima o leitor de uma intimidade emocional sem precisar recorrer a longas explicações psicológicas. Gostaria que o livro tivesse se mantido assim até o fim ao invés de ir para outros pontos de vista e outros estilos narrativos.
No fim, todas essas histórias formam um todo coeso e interessante, mas desigual em impacto. O livro tem uma divisão bem clara em três partes. Pra mim, o primeiro terço do livro é a melhor parte. Em seguida, o último terço, quando voltamos para a Heewan e Ramwoo. O meio, quando conhecemos outras histórias de outros personagens, foi menos envolvente para mim.
Um Amor de Despedida é uma narrativa fantástica, que mescla realismo mágico e vida real. Alguns plot twists são bem interessantes, principalmente quando entendemos porque o Ramwoo aparece para a Heewan como se nunca tivesse morrido. Foi emocionante e triste.
Gostei da experiência. Foi um livro que prendeu minha curiosidade. Eu comecei num dia e terminei no dia seguinte e, entre um dia e outro, eu me peguei pensando na história, ansiando pelo momento em que eu poderia parar para ler e descobrir o que aconteceria. Recomendo! E vale mencionar que esse livro já foi adaptado para série sob o título Way Back Love.
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