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Hibisco Roxo | Chimamanda Ngozi Adichie
Kambili é uma adolescente nigeriana de 15 anos, pertencente a uma família bem rica e influente. Seu pai, Eugene — Papa, como é chamado pelos filhos —, apesar de ser um empresário extremamente bem sucedido e, consequentemente, bem visto pela sociedade, é um católico extremista que passou a julgar os costumes e as culturas africanos. Assim, Kambili e Jaja, seu irmão, cresceram em um ambiente cheio de dogmas, sendo constantemente punidos quando se desviavam dos "caminhos do Senhor".
A protagonista e seu irmão, apesar de terem inúmeros privilégios, não levam uma vida fácil. Todos os passos que dão visam agradar Papa, que é muito autoritário e opressor. Tudo deve ser feito à perfeição, caso contrário, são castigados. Mama, por sua vez, é amorosa e cuidadosa, mas totalmente submissa a Papa. Também é constantemente punida pelos seus atos sempre que Eugene julga que eles estão afastando a mulher de Deus. Portanto, sob o olhar de Kambili, acompanhamos um núcleo familiar totalmente hierarquizado e patriarcal, além de termos uma amostra do que foi a colonização.
Durante toda a narrativa, tive a sensação que tudo o que Jaja fazia era unicamente para proteger a mãe e a irmã, mas Kambili era realmente influenciada pelos pensamentos do pai. Tinha medo, mas no fundo acreditava que tudo o que ele fazia era para o bem da família. Sua visão só começa a mudar quando tem a oportunidade de conviver com a tia, Ifeoma e seus filhos. Viúva e professora universitária, Ifeoma não possui tanto dinheiro quanto o irmão, ou seja, não pode dar para sua família todas as regalias as quais Kambili e Jaja estão acostumados, mas ainda assim todos vivem em um lar feliz, livre e saudável.
Hibisco Roxo me despertou vários sentimentos, alguns não tão bons. Apesar de ter plena consciência que Papa é apenas o resultado de um sistema corrompido, senti raiva dele o tempo inteiro. Desejei que coisas ruins acontecessem com ele, que ele fosse punido por todas as coisas abomináveis que fazia com a família. Depois, fiquei pensando... Se eu queria que ele fosse castigado bem como castigava sua família porque acreditava que o que eles faziam era ruim, o quão diferente sou de Eugene, afinal? Esse desejo de que as pessoas paguem pelos seus erros — vejam bem, coisas que nós julgamos serem erradas —, é uma característica inerente ao ser humano, no fim das contas.
Há alguns meses, ele escreveu dizendo que não queria que eu ficasse procurando os porquês, pois há certas coisas que acontecem e para as quais não podemos formular um porquê, para as quais os porquês simplesmente não existem e para as quais, talvez, eles não sejam necessários.
Uma cena em específico me marcou profundamente e vou ter que contá-la aqui porque certamente nunca vou esquecer o que li. Não é necessariamente um spoiler porque o trecho está estampado na contracapa do livro, mas caso não queiram saber, pulem o restante do parágrafo. Depois de um determinado acontecimento, Papa chega a conclusão que seus filhos pecaram e, para mostrá-los o que é caminhar no fogo do inferno, jogou água fervente nos pés deles. Passei muito tempo chorando depois de ler essas páginas, porque eu não simplesmente não consegui entender como uma pessoa, principalmente um cidadão adorado por fazer coisas boas para a comunidade, não consegue diferenciar amor de punição. É, de fato, o típico "cidadão de bem", né?
Não é por acaso que Chimamanda Ngozi Adichie é considerada uma das maiores escritoras da atualidade. Ela toca na ferida ao abordar temas tão complexos, ao escancarar realidades tão difíceis. Afinal de contas, é muito comum vermos o cristianismo ser usado como forma de opressão, e mais comum ainda famílias imersas na violência doméstica. Todas as vezes que Eugene é citado no decorrer da história a atmosfera fica tensa, porque necessariamente esperamos uma situação difícil de engolir. Justamente por isso tia Ifeoma é o elemento acalentador, porque sempre que ela surge, algo bom acontece.
Para além disso, Hibisco Roxo também é muito rico de passagens que exaltam a cultura nigeriana, o que é comum nas obras de Adichie. Somos transportados para a realidade histórica do lugar, conhecemos seus costumes, linguagem, culinária... Sempre é algo que aprecio muito acompanhar, principalmente porque dá para sentir o carinho que a autora tem pelas suas origens. É fácil entender o porquê seus livros são tão adorados e premiados.
O final de do livro é surpreendente e, de certa forma, agridoce. É triste, mas ao mesmo tempo é responsável pelo alívio que os personagens — e nós mesmos — precisavam. Terminei a leitura com uma certeza: alguns livros mudam a forma como enxergamos o mundo, e Hibisco Roxo faz parte dessa categoria. Eu não sou a mesma Ana Clara de antes e garanto que vocês também não serão a mesma pessoa após lerem essa história.
Tradução: Julia Romeu ✦ Editora: Companhia das Letras
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Sejamos Todos Feministas | Chimamanda Ngozi Adichie
Título Original: We Should All Be FeministsAutora: Chimamanda Ngozi Adichie
Páginas: 64
Tradução: Cristina Baum
Editora: Companhia das Letras
Livro recebido em parceria com a editora
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